Suspiria, de Dario Argento: um dos maiores clássicos do cinema fantástico italiano. (Suspiria, 1977)

Dia nove de Julho de 2010. Céu nublado em Porto Alegre, choveu a manhã inteira (que dúvida!). Estou sentado na cadeira fria de um bar em um dos diversos centros culturais que pipocam no centro histórico da cidade. São 16h 53min e meu convidado deve chegar a qualquer momento. Trino minha língua para ver se aqueço o meu inglês enferrujado, pois ele veio do outro lado do oceano: da Itália.

Pego o papel de agenda todo riscado com tópicos dispersos. Há algumas perguntas a serem destiladas de todo esse material, mas não consigo pensar direito. Frases como “trabalhou com Dario Argento, Mario Bava, Donald Pleasence, Daria Nicolodi…”, “amigo de Ennio Morricone, conhece George Romero”, “viveu o cinema italiano dos anos 70”. Leio estas notas mentais inscritas na folha e a guardo no bolso. Não quero que seja uma entrevista. Quero que seja uma conversa. Algo que expanda os horizontes sobre uma das minhas épocas favoritas do cinema: os anos 70 na Itália.

O que acontecia de tão interessante naquela península em forma de bota que eternamente faz embaixadinhas com a Sicília? Bem, a Itália era a segunda nação do mundo em que mais se freqüentava as salas de cinema. Neste momento, grandes mestres italianos começaram a fazer seus trabalhos inspirados por outros diretores bem-sucedidos, como Sérgio Leone e seus westerns e Fellini com seus personagens, ahmmm… bem… “felinescos”.

Antes de falar dos anos 70, vamos voltar alguns anos, mais precisamente em 1945. A Itália havia sido derrotada na Segunda Guerra Mundial e tentava se reerguer. Neste ano, saiu um cultuado filme chamado Roma: cidade aberta de Rossellini. Ele filmou este longa durante a guerra, e boa parte do que aparece no filme é registro dos campos de batalha. Era o auge do Neo-realismo italiano: um gênero vanguardista que norteou a produção fílmica do país no pós-guerra. Esta vertente é caracterizada principalmente pelo caráter documental, indo ao encontro do desejo da época: ver o que é real, buscando um afastamento da fantasia que foi tão cultivada pelos 23 anos de mentiras do fascismo.

Roma, cidade aberta de Rosselini: o filme é considerado um dos principais filmes do Neo-realismo italiano (Roma, città aperta, 1945)

Entretanto, como toda a vanguarda, o Neo-realismo decaiu à medida que a Itália se reerguia. As pessoas retomaram a vontade de ver aquelas boas viagens cinematográficas que são tão prezadas pelos roteiristas italianos. A televisão também teve uma influência importante neste processo, à medida que foi entrando nos lares pelas portas da frente e fechando as pessoas no mundo surreal que existe dentro de sua tela.

Alguns dos pioneiros desta corrente de fantasia do cinema italiano participaram ativamente da produção neo-realista. Dois nomes se destacam: Frederico Fellini e Michelangelo Antonioni. Apesar de não terem atuado como diretores nesta época, atuaram na vanguarda como colaboradores de Roberto Rossellini. Mas após 1948, ano de decadência de tal estética, ambos se empenharam em produzir um cinema autoral, tendo como característica a atmosfera onírica e a profusão de caricaturas.

A partir deste momento, várias outras estéticas ligadas ao cinema fantasioso surgiram na Itália. Destaque para duas : o Giallo e o Spaghetti Western. Ambas correntes acabaram tendo repercussão e base no cinema americano. O Spaghett Western é uma releitura dos filmes de faroeste hollywoodianos realizados entre as décadas de 20 e 50. Mais que uma homenagem, o gênero deu nova vida aos personagens, onde o bom e o mau estão diluídos em uma mesma pessoa, em oposição ao mocinho de John Ford. Prezou a estética na ação e a atmosfera de mescla entre tensão e humor de maneira nunca antes vista. Sergio Leone é o maior nome desta geração que trouxe um brilho diferente ao Western, projetando o seu maior astro: Clint Eastwood.

John Carpenter: o gênio alcançou o sucesso com seu Slasher "Halloween", de 1978, inspirado nos Giallos italianos (Créditos: wikicommons)

O Giallo, por sua vez, fez o caminho inverso: ele foi fonte de inspiração para que mestres como John Carpenter realizassem sua obra. Giallo significa “amarelo”, que era a cor da capa de romances policiais publicados no final dos anos 60 e 70. Neles, os assassinos usavam máscaras enquanto o investigador buscava freneticamente resolver o mistério. Nada de especial até aí. Mas o cinema proporcionou uma nova dimensão ao tema, inserindo histórias fantasiosas e tornando-as mais complexas. Isso ficou claro no momento que Dario Argento pegou uma câmera, e em 1970 filmou O pássaro das plumas de cristal, mudando o rumo do cinema de horror até então, pois o Giallo é a grande inspiração da linha mais lucrativa do terror americano dos anos 80: o Slasher.

Claro que Argento não começou do nada. Ele teve a inspiração na obra de diretores como Lucio Fulci e Mario Bava e trazia a bagagem de um maravilhoso roteiro de Era uma vez no oeste, de Sérgio Leone, na bagagem. Este filme deu origem a uma trilogia: além de O pássaro das plumas de cristal, foram realizados os filmes O gato de nove caudas e Quatro moscas no veludo azul. Esta última produção teve a participação do meu convidado, um homem que viveu esta época.

Eis que ele chega, com pontualidade italiana (ou seja, um pouco atrasado) e me cumprimenta com um aperto de mãos. É quase como cumprimentar, por osmose, artistas como Dario Argento, Mario Bava e o maestro Ennio Morricone. O homem com quem vou conversar na próxima hora é Luigi Cozzi, diretor e roteirista de 16 filmes próprios, alem de ser um dos roteiristas de Quatro moscas no veludo azul. Sentamos em uma mesa, começamos com uma conversa em inglês tropeçado, mas suficiente para nos entendermos.

Luigi começa falando, entre um ou outro gole de guaraná (ou guarranã, segundo o “portuitaliano”), sobre o cinema italiano na atualidade. Hoje em dia, cerca de 200 à 300 produções são feitas na Itália sendo que nos anos 70 era possível cada diretor realizar dois ou três filmes anualmente. Segundo Luigi, o ponto é: destes longas atuais, três ou quatro vão permanecer na história graças aos fãs, porquê há uma produção mínima na Itália e um interesse mínimo dos produtores.

Continuamos a conversa falando sobre a situação da televisão. Luigi ressalta que nos anos 70 os italianos tinham apenas uma emissora de televisão, que ainda era controlada pelo regime estatal e católico, a famosa RAI. Na programação passava apenas material clássico, em especial óperas. No lado obscuro dos centros culturais, o cinema era uma diversão diferente: podiam-se ver mulheres, sangue e muitas outras coisas que eram almejadas pelo público. Segundo o diretor, a razão deste sucesso é a seguinte: as sessões representavam o apelo de lazer da população, ao contrário do que eles viam na TV, que representava uma cultura saudosista e erudita. Este foi o principal fator que fez da Itália, na época, ser o segundo país do mundo à mais vender ingressos de cinema.

Luigi Cozzi, um dos realizadores da época de ouro do cinema fantástico italiano (Créditos: Fantaspoa)

Todo este paradigma facilitava para quem desejasse produzir um filme, pois quase todo lançamento dava lucro. Havia também facilidades de custo: filmar era muito mais barato neste tempo, pois desde a época do fascismo os italianos mantinham um bom aparato técnico para realizarem suas produções. Luigi também ressalta a questão financeira. Quando um produtor chegava ao distribuidor com a idéia, era assinado um contrato em que a distribuição se comprometia a pagar à produção. Em alguns bancos havia uma seção especial para se tratar de cinema, nela o distribuidor sacava e depositava o montante para o produtor. Se o filme dava lucros tudo corria conforme o contrato e a produção recebia seus dividendos. E se tudo desse errado e todos levassem calote? Sem problemas, pois era tão barato filmar que muitas vezes o produtor realizava outro longa para pagar o primeiro.

Quando a TV a cabo chegou à Italia no final dos anos 70, ela começou a mostrar novos filmes, novas mulheres, novas visões de mundo e acabou afastando o público do cinema. Com isto, o custo dos filmes começou a subir muito.  Um exemplo que aconteceu com o próprio Cozzi: em 1973 ele fez o filme The killer must kill again com 40 mil dólares. Hoje esta produção não sairia por menos que três milhões de dólares segundo o diretor. E acabaram as facilidades com os bancos, pois o cinema entrava na era dos financiamentos e empréstimos burocráticos.

Nos anos 80, a televisão continuou devorando a produção audiovisual. O grande vilão de toda a história é o vilão de muitas outras histórias: Silvio Berlusconi. Como fã de cinema, mas fã maior ainda do dinheiro, Berlusconi, que era dono da maioria das emissoras de televisão italianas na era do cabo, passou a comprar os cinemas, os estúdios e as distribuidoras, formando uma espécie de monopólio da produção cinematográfica. Ele passou a incentivar as produções mais caras voltadas à televisão, sendo que muitos filmes saíam antes nos tubos de imagem que nos projetores. Isso gerou uma corrente imigratória de diretores, que foram realizar suas produções nos Estados Unidos, onde teriam maior liberdade criativa e melhores orçamentos. Até mesmo Dario Argento, maior nome do Giallo, acabou indo produzir no outro lado do oceano. Luigi decidiu ficar, apesar de algumas propostas, mas há quase duas décadas não realiza um filme.

Despeço-me e saio conversando com amigos sobre a entrevista. Fica a certeza de que aquela época não voltará jamais. Os grandes realizadores acabaram envelhecendo, (o melhor exemplo é Dario Argento, que nos últimos anos realizou dois filmes de baixíssima qualidade – só um palavrão pode definir ambas obras: uma merda) e alguns já morreram, como o grande inspirador da história toda, Lucio Fulci. Entretanto fica também a certeza que há fãs cultivando todo o brilhantismo daquela época em que o cinema italiano se assumiu como forma de diversão (que não pode ser confundida com alienação) e utilizou toda a sua a criatividade para criar tramas de roteiro quase improvisado, mas que impressionavam com a técnica e a coragem de alguns diretores que transformaram alguns de seus piores pesadelos na obra de seus sonhos.

Abaixo alguns links interessantes do cinema italiano no Youtube

Suspiria – Trailer

Documentário sobre Dario Argento – em inglês

Starcrash de Luigi Cozzi – Trailer

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2 comentários sobre “O fantástico cinema italiano – Giallo

  1. Caro Vinicius, seu texto apresenta algumas lacunas importantes. Como o cinema fantástico italiano só apareceria no pós guerra com o I vampiri de 1959, dirigido por Ricardo fredda e mario Bava, durante os anos 40 até ali não foi feito nenhum filme de terror, pois foi proibido pelo governo de Mussolini. Bava depois faria em 1960 a obra-prima A Máscara do Demônio e seria o grande precursor do terror italiano, Argento apareceria apenas em 69 com giallo O Pássaro das Plumas de Cristal, deve-se citar que foi Bava que inaugurou o subgênero também com Olhos Doabólicos. Fulci apesar de dirigir alguns gialli (com “i” no final, se usarmos o plural correto do italiano original), entre eles a obra-prima O Segredo do Bosque dos Sonhos, só entraria no horror mesmo em 1979 com seu clássico Zombie, isto é, seguindo a cronologia ele foi dos últimos a embarcar no horror italiano, embora tenha sido dos realizadores mais “viscerais”. E Cozzi é uma pessoa realmente simpatícissima! No momento é isso. Abraços.

  2. Ola Vini!
    Parabens pela sua reportagem. Este seu velho tio tambem foi fa do cinema italiano. Os filmes italianos conseguiam ser dramaticos e engracados ao mesmo tempo, alem das pitadas de sensualidade. Os diretores italianos conseguiam retratar a vida de forma simples, porem muito criativa, ou seja, de forma inteligente.
    Dei de presente para seu avo alguns filmes italianos, em DVD. Quando fores a Nonoai, peca para ele te mostrar.
    Muito legal o site de voces. Vai ai uma sugestao: que tal colocar uma subdivisao sobre turismo? Hoje em dia as pessoas estao viajando muito e tem muito interesse neste assunto. No proprio RS tem muitos lugares interessantes que muita gente desconhece.

    Obs. Desculpe-me a falta de acentos nas palavras. Comprei um computador novo (aqui nos EUA) e ainda nao consegui configurar o teclado para portugues.

    Grande abraco do seu velho tio.
    Parabens a voce e toda a equipe do “Nonada”

    Cesar

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