Texto Ana Santos**

Ilustração Max Demian

 

“Ele cintilava ausente, aconteceu. Pois. E mais nada”.

João Guimarães Rosa, Um moço muito branco


Na cidade em que nunca chovia os homens eram secos. Jamais viram elefante em nuvem, a tromba repleta. Tinham os olhos pequenos de sol, e nas cabeças morenas abas largas de chapéus.

A cidade foi há muito, tão antes.

Os homens cantavam em ai, qual se, de manhã, lavassem roupa num rio – é triste que não houve o rio; é triste também se o houve.

As faces dos filhos já foram dos homens, redondas, voltadas pro longe, à espera. Mas Deus não inventara o Esperado. Do Esperado ninguém conhecera a cara santa.

(Deus sim existia. Precisavam-Lhe tanto que inexistir seria maldade sem tamanho de Sua parte.)

Quando homens, pois, os filhos voltavam as faces pro perto – até o sono murcho, em caixa grande.

Uma noite igual de céu no alto e homens no baixo, uma noite veio o Inesperado. Ele veio com grandes malas – mas sem abri-las, dormiu na lua com sua barba antiga.

Chegou do sonho rodeado de alpergatas. De quem era, se morrera, na mala trazia as almas de que tresbisavós. Ele riu, mas ninguém lhe soube a boca, da barba tão no fundo. Ergueu do chão os ossos fragilíssimos, e na careca equilibrou uma cartola. Usava casaco longo, roto, roto, que já fora talvez fraque, de quem fora talvez noivo, mais antes que a cidade (noutra, onde talvez chovia, a talvez noiva despertava de vestido).

Calava-se, mas o corpo de pássaro, as mãos hábeis: das malas tirou o que não havia, escancarou-o insólito sobre o chão de fissuras.

Era um fazedor de guarda-chuvas.

Mas há quanto não se tinha chuva que guardar! Então o moço ia fazer a chuva, buscar a chuva nos confins do já se foi?

Ia?

Mas o moço disse que a chuva era sempre, o moço disse:

— A chuva é sempre.

A Inha lembrava da chuva: foi uma luz que acendeu e apagou, acendeu e apagou, quando a Inha foi menina e tomou café com leite. A Inha tinha muitos anos, os mais.

A Inha.

Os outros deslembravam.

Acolheram o moço. Deram-lhe casa, papas. O moço era um longe-perto, desertor de lonjuras. Falava raro, mas muito ria. E seu rir era um quase pranto, porque nuvem.

Ria amoroso: dos homens secos em seu querer chuvas.

Pediam. Os miúdos: barco de fuga, de remar na terra. Retorno de pai afundado no vento. Avoar doce de abelhas. Sapato luzente de palhaço.

Os graúdos: carta com verso, curar de febre, tardar de morte. Joana, João, que frios, idos – ressuscitares, choros de estar contente. Braços enormes de mãe. Veneno.

Inhas, Inhos: andar-para-trás de dias, girar de rodas, girar, girar. Embalar cantado de bonecas. Que a Hora, por favor, não lhes fosse muito só.

— O moço faz?

Na casa o fogão, o catre, o sem-fim de guarda-chuvas.

O moço a pedir varetas e panos: seu ofício melancólico. O moço príncipe das sequidões.

Traziam, vez em quando, canário em gaiola, vaga-lume, retrato: gotas. E sorriam, da ilusão de relâmpagos.

Mas seca era a noite em que o moço partiu. Por trás das janelas, sonhava-se no escuro.

Os homens souberam-no sem saber, no cantar dos galos. Que não haveria chuvas: que havia guarda-chuvas, às portas, abertos. Que haveria sede, sempre, apesar da água.

Assim.

E ficaram tão tristes que se puseram a chover.

*O conto O fazedor de guarda-chuvas faz parte do livro O Que Faltava ao Peixe, ainda sem data de lançamento e concebido graças ao Programa de Bolsas de Estímulo à Criação Artística, da Fundação Nacional de Artes (Funarte).

**Ana Santos é escritora.

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