Os diversos personagens do Deus do Mangá, Osamu Tezuka

Mangá (??) é o nome que se dá, no ocidente, a histórias em quadrinhos japonesas (embora no Japão, o nome represente qualquer história em quadrinho). O nome já era usado desde o séc. XVII, mas a forma que hoje conhecemos só surgiu depois da Segunda Guerra Mundial. Com várias características específicas, os mangás têm uma linguagem visual em geral simples e uma diagramação clara. Além disso, a sua forma de narrativa é baseada na narrativa do cinema, facilitando assim a leitura. Esses aspectos, entre outros, contribuíram para que o gênero ganhasse não só o Japão (onde os mangás são lidos por pessoas de todas as idades, formações e classes sociais), mas o mundo.

Tudo começa na infância. Tenha você crescido nos anos 60, 70, 80, 90 ou na última década, certamente teve contato com vários desenhos japoneses. Afinal, foi através da exportação desses desenhos (conhecidos como “anime”) que se deu o grande boom internacional da cultura pop japonesa. Fenômeno que só vem crescendo desde os anos 60 (e com velocidade acelerada a partir do surgimento da internet). Desenhos facilmente reconhecíveis por seus olhos grandes, rostos expressivos e cabelos espetados, a origem dos animes (e de grande parte deles até hoje) é justamente o mangá.

Em geral, é através dos animes que, pelo menos para o público ocidental, começa o interesse por mangás. Ainda que o primeiro mangá publicado no Brasil não tenha um anime respectivo (Lobo Solitário, iniciado em 1988, a série só foi concluída em 2007), em geral os mangás ganham popularidade depois de o desenho ser transmitido na TV. Prova disso é a baixa procura aos poucos mangás publicados por aqui até o fim da década de 90, quando houve o boom de séries como Samurai X, Dragonball Z, Pokémon e Sakura CardCaptor. Embora já existissem animes de grande popularidade antes disso, foi só a partir desse momento que muitos mangás começaram a ser vendidos no país.

Por ser o mercado editorial de quadrinhos brasileiro muito dependente do estadunidense, os mangás que vem para o Brasil são os que já fazem sucesso entre o público norte-americano. Outro aspecto que se deve considerar é que, graças à essa relação com os desenhos e também à cultura de quadrinhos brasileiros, costuma-se ligar mangás a um gênero infantil ou infanto-juvenil, de pouca relevância. Não é assim, contudo, no Japão, onde, como já se disse, mangás são lidos por diferentes públicos (e editorializados para se encaixarem no perfil de cada público).

Como foi lá que o gênero surgiu, os japoneses estão muito mais acostumados com o mangá, logo o vêem e o lêem com mais conhecimento, naturalidade e menos preconceitos do que no ocidente.

Origens É difícil estabelecer uma origem para o mangá. Desde o séc. XII no Japão eram feitos os “choujuugiga”, uma espécie de charge com animais em situações incomuns que representavam pessoas famosas da época. Mas esses desenhos não eram publicados, reproduzidos ou veiculados. Frederik Schodt, o primeiro acadêmico fora do Japão a falar de mangás, aponta, além desses desenhos, os “kibyoushi”, desenhos de situações cotidianas que eram feitos em prensa de blocos de madeira. No séc. XVII, Katushika Hokusai, o maior artista de “ukiyo-e”, ou estampa japonesa, fez uma série de desenhos que ficaram conhecidos por Hokusai Mangá, também muitas vezes considerados como os primeiros, embora o termo mangá já fosse utilizado décadas antes.

Imagem de um Kibyoushi, do autor Kyoden Santou (séc XVIII)

Com o início da ocidentalização do Japão na era Meiji (1868-1912), começaram a ser publicados jornais e revistas, que frequentemente vinham com charges ou tirinhas. Algumas dessas eram publicadas separadamente, mas foi só a partir da ocupação estadunidense, após a segunda guerra mundial que o mangá de fato floresceu. Através do contato com o cinema europeu, quadrinhos estadunidenses e desenhos de Walt Disney, Osamu Tezuka criou, nos anos cinqüenta, o estilo de traço e diagramação que estabeleceriam a popularidade do gênero.

Conhecido como o Deus do Mangá, Tezuka criou, já em sua primeira obra, o dinamismo cinemático, os grandes olhos expressivos, o uso de onomatopéias, além da atração de histórias contínuas, serializadas. Por isso, muitos o consideram como o verdadeiro criador do gênero. Professor de mangá na Associação de Cultura Japonesa de Porto Alegre, Guilherme Castro vê como importante o uso do nanquim, que dá estilo próprio ao traço. “Uma das características de Tezuka que mais permanece até hoje é o uso do bico de pena de nanquim. Como na época não existiam métodos de reprodução e impressão como hoje, os desenhos em nanquim eram mais fáceis e baratos”, explica.

Com Tezuka – e depois dele – surgiram muitos outros “mangakás”, nome japonês para os autores de mangá. Começava a se estabelecer, então, a profissionalização do desenhista de mangá, sendo criadas cada vez mais publicações diferentes. Esse crescimento das editoras possibilitou um maior laço com o público. E, com o tempo, foram criados gêneros para determinados perfis de leitores: mangás para crianças, para meninos, para meninas, jovens adultos, mulheres, idosos, além de gêneros não focados em público, como o “gekiga” (pensado inicialmente para ser a antítese do mangá estilo Tezuka).

Publicação Por ser o Japão um país populoso, uma mídia tão popular como o mangá acaba se diversificando e se multiplicando muito (calcula-se, por exemplo, que apenas 1% dos mangás japoneses sejam publicados oficialmente em outras línguas). Guilherme afirma que os temas de mangás têm muita variabilidade. “Há mangás sobre beisebol, basquete, tênis, futebol, patinação no gelo, balé, moda, guerra, ação, música clássica, rock, cotidiano, ficção científica, históricos, sobre cachorros, gatos, pescaria, enfim, tudo”, lista ele.

O modo de publicação dos mangás no Japão também é muito próprio. Em grandes revistas (maiores que uma lista telefônica, chegam a ter 800 páginas), direcionadas para um público específico, são publicados capítulos de várias séries diferentes dentro daquele gênero. “Cada revista tem sua linha editorial, então os mangás de uma mesma revista certamente terão diversas características em comum graças à linha que esta segue”, explica Guilherme. As séries têm um espaço pré-definido, que varia de dez a setenta páginas, dependendo da popularidade e do andamento do mangá. Impressas em papel jornal, essas revistas são muito baratas, o que ajuda na grande popularidade. Podem ser semanais, quinzenais, mensais, às vezes bimestrais, ou seja, para ler o próximo capítulo, é necessário esperar pela próxima edição. Logo, são lidas várias séries diferentes por revista, e muitas dessas séries ficam anos sendo publicadas.

Os mangás que fazem mais sucesso têm seus capítulos reunidos e lançados individualmente em vários volumes. Os volumes que mais vendem no Japão, e que têm mais possibilidade de agradar o público ocidental, são comprados, traduzidos e publicados nos Estados Unidos. No Brasil, são as séries de grande vendagem nos Estados Unidos que são publicadas, o que acaba configurando um grande sistema de filtragem. Muitos títulos bons não vêm para cá, ou demoram demais para vir, pois precisam antes vender muito lá para justificar sua publicação.

Atualmente, entretanto, a internet modificou esse processo. Diversos sites de scan e tradução (conhecidos como “scanlations”) disponibilizam amadoramente séries que nunca foram traduzidas ou capítulos recém lançados no Japão que ainda não ganharam um volume traduzido. Muitas editoras consideram que essa prática favorece a indústria, criando divulgação e interesse, mostrando as preferências do público e principalmente apontando os erros do mercado editorial na área. A maioria, no entanto, é contra essa prática, por infringir leis de direitos autorais. Tentando combater os scanlations, as editoras japonesas já se adiantaram e lançaram a maioria de seu conteúdo digitalmente para as mais diversas plataformas (a venda física de mangás no Japão caiu, mas com os lançamentos digitais, houve um crescimento muito maior do que o que vinha sendo registrado anteriormente).

O grande público dos scans, no entanto, não é japonês, e sim estadunidense, uma vez que lá,  em comparação com os quadrinhos nacionais, o mangá é muito mais caro. E, por ser o inglês uma língua muito global, pessoas de todo o mundo acessam e lêem mangás traduzidos amadoramente para o inglês. Claro que se encontra pela internet mangás traduzidos para as mais diversas línguas, inclusive sites brasileiros.

Não é à toa que o mangá é a mais popular forma de quadrinhos no mundo. Apesar de imerso na cultura japonesa, é um estilo que mostra influência de diversos outros países e tem uma linguagem acessível e multimídia. Esses aspectos acabam inserindo o mangá ainda mais profundamente na cultura japonesa, que, desde o início de sua ocidentalização, tem como característica a luta para equilibrar a tradição com as inovações ocidentais. E isso, o mangá faz muito bem.

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