Texto Guilherme Brendler

No final das contas, ficção e realidade são a mesmíssima coisa. Túlio Schüster é um jovem nascido no Noroeste do Rio Grande do Sul, na pequena Pau D’Arco. O rapaz sonhador deseja ir à Capital, Porto Alegre, porque a cidade do Interior se tornou incapaz de alimentar seus sonhos.

Entre outras vontades, o garoto deseja aprender alemão e francês para ler Goethe e Proust no original. O objetivo do personagem que mora na cidadezinha fictícia do livro Caminhando na chuva, de Charles Kiefer, pode parecer pretensioso. Mas na vida real a vontade de aprender outra língua para ler a obra de determinado autor na versão em que foi concebida é uma conquista para o professor de literatura e escritor Altair Martins.

Sem ter noção alguma de francês, Altair Martins decidiu que faria ênfase na língua ao iniciar a faculdade de Letras na Ufrgs. “Quando conheci o Charles Kiefer pessoalmente, contei a ele que comecei a escrever por causa do Caminhando na chuva e que fui estudar francês porque queria ler Proust no original, assim como o Túlio Schüster. Ele me perguntou: ‘Você é louco, Altair?’” O personagem de Kiefer inspirou um dos escritores gaúchos mais premiados e requisitados nos últimos dez anos.

Nascido em Porto Alegre, em 1975, Altair Martins foi com a mãe recém-desquitada para Guaíba, aos dois anos de idade, viver na casa dos avós maternos. Carlos Martins, o pai de Altair, ganhava a vida como jóquei correndo com cavalos no glamouroso Jockey Club de Porto Alegre. Lá, ele conheceu sua futura esposa, que frequentava o local em função de o pai dela trabalhar como pedreiro no mesmo clube. Entre idas e vindas do casal, C. Martins, como era conhecido pelos apostadores do prado, acidentou-se de moto e morreu em 1981.

Embora nascido na Capital, o escritor se considera guaibense de coração. “Vivi minha infância e adolescência em Guaíba. De lá, enxergávamos Porto Alegre como uma espécie de Babilônia. Fazer qualquer coisa na Capital dava status”, conta Martins, que se desenvolveu como leitor em bibliotecas públicas da cidade que, segundo ele, tem a vista mais linda de Porto Alegre. Assim como aconteceu com Túlio Schüster, de tanto ler, surgiu em Altair Martins o desejo incontrolável de escrever.

Mas antes de imprimir seu talentoso estilo de escrita no papel, Martins se dedicou a outros tipos de arte. Aos 13 anos, era chargista do semanário Folha Guaibense. Ele lia as matérias da semana e fazia os cartoons relacionados aos acontecimentos locais. “Era bom porque eu frequentava o ambiente da redação e ajudava os jornalistas a pintar as letras dos títulos com uma caneta de arquiteto. A coluna tinha o patrocínio de uma revenda de carros, o que rendia uma boa grana no final do mês”, conta. Além dessa atividade, o menino Altair coletava dentre lojas da cidade cheques e guias de pagamento para fazer os serviços de banco.

Ser office-boy não pedia tanta veia artística, mas o que dizer da carreira teatral? Altair Martins foi ator de um grupo profissional de dramaturgia em Guaíba. Perto de terminar o terceiro ano do Ensino Médio, “fomos nos apresentar na Companhia de Arte e no Teatro do Ipê, em Porto Alegre. Recebíamos uma porcentagem da bilheteria, mas às vezes não rendia nada. Quando terminei o colégio queria estudar cinema, mas não havia esse curso em Porto Alegre”, recorda.

Depois de tentativas de contatar escolas de cinema em São Paulo e Portugal, fez curso técnico em Química: “Foi o horror dos horrores. Não fui reprovado, mas não era o que queria para a minha vida. Meu irmão mais velho me incentivou a estudar Letras. No segundo semestre na Ufrgs, surgiu a oportunidade de ser professor em contrato emergencial. Então, comecei a dar aula na mesma escola de Guaíba onde estudei”. Atualmente, ele continua se dedicando à sala de aula, lecionando Literatura para alunos do curso pré-vestibular Grupo, do qual é sócio.

Reconhecimento e láureas Aos 19 anos, Altair Martins soube do concurso de contos Guimarães Rosa – prêmio da Radio France Internacionale (RFI). Inscreveu Como se moesse ferro e venceu. A gratificação de 15 mil francos franceses lhe ajudou a investir na carreira de escritor: comprou computador, impressora e scanner. O feito se repetiu cinco anos depois, em 1999, com o conto Humano.

Com o computador em casa, Martins passava os fins de semana trabalhando no livro que levaria o mesmo título do conto que venceu a edição do concurso da RFI, em 1994. A antologia de contos foi vencedora do Prêmio Açorianos de Literatura em 2000 e finalista do Prêmio Jabuti de 2001. Altair Martins tem outras duas coletâneas de contos publicadas, todas editadas pela WS Editores: Dentro do olho dentro (2001), livro que inclui o conto homônimo vencedor do mais importante concurso de contos do país, Prêmio Luiz Vilella, e Se choverem pássaros (2003), finalista do Jabuti daquele ano.

Seu primeiro romance surgiu como um problema. Um problema acadêmico, pelo menos. O autor era mestrando em Letras na Ufrgs e desejava escrever um romance com mais de um narrador para a mesma cena. “Trabalho dobrado, porque fiz o texto teórico e o romance”, conta Martins, que teve de enfrentar resistência de acadêmicos que consideravam escrever um romance como dissertação uma grande “falcatrua”.

A parede no escuro (editora Record), a falcatrua de Altair Martins, foi o livro mais premiado de 2009, sendo o Destaque da Feira do Livro de Porto Alegre e o Livro do Ano e melhor Narrativa Longa de 2009 do Prêmio Açorianos. Nesse mesmo ano, Martins recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria Primeiro Romance, e foi selecionado para concorrer ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura.

*Texto publicado originalmente no Jornal do Comércio, em 18 de fevereiro de 2010

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