Por Gaby Benedyct*

Para quem não sabe, a Bienal B surgiu em 2007 como uma série de  exposições locais paralelas e em diálogo com a diversidade internacional da Bienal do Mercosul, casualmente num ano em que esta última não tinha nenhum artista local representante. Polêmicas bairristas à parte, a Bienal B teve muito sucesso e profundas repercussões em todo o circuito artístico. Consolidou-se como evento independente e movimento da comunidade artística local, proporcionando diversas exposições simultâneas espalhadas pela cidade. Em todas suas três edições ocupou mais de 20 espaços, entre eles galerias formais, e também instituiu novos espaços expositivos em contextos alternativos.

Trabalho de Jussara Moreira faz parte da exposição ligada à Bienal B, "Do Azul ao Marrom" (Crédito: Divulgação)

A Bienal B movimentou em cada uma de suas temporadas um número expressivo que oscila entre 200 a 300 artistas locais, que dialogam com participações nacionais e internacionais, sem falar de todas as pessoas envolvidas nos espaços em que ela acontece, das equipes de trabalho e, finalmente, de um grande e variado público que se depara com toda esta produção artística.

Assim como a Cow Parade, a Bienal B espalha-se pela cidade, mas ao contrário do evento das vacas, não recebe dinheiro de ninguém, e ganha bem menos mídia. Apesar disso, a Bienal B arregaça as mangas e sobrevive de corajosos artistas que tiram de si mesmos mais que vontade e arte: investem em termos de dinheiro para produzir divulgação e confraternização.

Por um lado, vejo estas vacas espalhadas por ai sendo “santificadas” pela mídia como arte. Peraí! Tá mais para publicidade, propaganda, design e, lá no fundinho, sim, até tem arte, afinal, existem artistas plásticos participando – talvez até para justificar o valor de arte ao evento. Mas a grande maioria destas vacas, para mim, cumpre um papel muito mais estético no sentido de marketing do que no sentido artístico ou cultural. Não que estética seja algo menor, pelo contrário, acho interessante e divertido, tem um lugar importante na educação artística básica do público. Mas convenhamos que a arte em si fica bem restrita, a começar pelo fato de que a obra tem que ter cara de vaca ou estar associado a uma.

Já na Bienal B, o sentido é bem o contrário. Não há, por exemplo, a delimitação de um “tema”, mas sim artistas escolhidos por uma comissão qualificada que seleciona propostas realmente capazes de mostrar ao público uma unidade artística original, um conceito poético, e bem menos comprometidos com a noção de estética pela estética. Cada exposição da Bienal B é uma proposta criada pelos próprios artistas que a compõem, levando em consideração um diálogo de ideias, mesmo que internamente sejam livres para criar cada um o seu trabalho – o que é extremante saudável e diferencial.

Na Bienal B, mais do que decoração ou uma boa piada, a criação requer alma e uma linguagem diferente, sem tantos trocadilhos. Esta linguagem pode às vezes não combinar com o tapete ou o sofá, mas conversa com o público sobre o mundo que vivemos de uma forma sensível, que vem do coração.

Observem a diferença e vejam quanta riqueza surge nessa legítima proposta de ação cultural que é a Bienal B ao se comparar com este fruto de indústria cultural que é a Cow Parade, com direito à vaca da Zero Hora, vaca da MUMU ou vaca da Coca Cola, entre outras estratégias publicitárias. Não tenho nada contra a Cow Parade, tomo Coca Cola, adoro leite e derivados, o jornal que leio é a Zero Hora e fico feliz por meus amigos que participaram desta parada e ganharam visibilidade. Minha questão é com a falta de atenção em relação a um movimento artístico de verdade, paralelo a este outro, e que não é de ontem.

Cow Parade vem ganhando destaque na imprensa (Vaca "O Pensamento" de Rodrigo Corrêa. Crédito: Divulgação)

Incomoda-me muito que o público esteja sendo bombardeado com um produto artístico industrializado sem que tenha oportunidade de optar, por falta de conhecimento, por uma ação cultural tão ou mais artística que efetivamente contribui para o fomento poético da sociedade, justamente por não ter como competir sem o apoio da mídia ou do empresariado para se divulgar. E lá vai a vaca por lebre…

A Bienal B está em sua terceira edição e já foi premiada pelo Açorianos de Artes Visuais. Apesar disso, e mesmo tendo conseguido apoio da Lei de Incentivo Cultural Rouanet em duas edições, nunca conseguiu captar nada, embora não seja por falta de bater nas portas de todas as instituições e grandes empresários regionais que você possa imaginar. Já teve até captadores profissionais com o projeto debaixo do braço, mas acaba sempre levando chá de banco ou o que é pior, promessas até o último instante que teriam a força de uma maldosa sabotagem,  se não fosse a força de vontade de Isabel de Castro, articuladora à frente do projeto, de sua equipe – da qual não faço mais parte, mas sempre ajudo – e do apoio que recebe dos artistas que seguem resistindo. Claro que a Bienal B iria adorar receber apoio, e teria imenso prazer em compartilhar tão importante responsabilidade social. Mas, enfim, nasceu sabendo que levaria muita porta na cara de gente cega, e não sou eu quem vai chorar leite derramado.

Por tudo isso  tenho orgulho por cada um que participa da Bienal B e faço desse árduo contexto mais um motivo para que você tenha vontade de conhecê-la, e ver de perto as exposições de artistas tão qualificados, raçudos, exemplares, que fazem esse evento acontecer a partir de esforço próprio e fé de que é importante que pessoas a fim como você tenham acesso à arte.

Assim, acreditando que você seja uma pessoa sensível por ser leitor ou leitora do Nonada, convido-lhe a exercitar sua sensibilidade e a deixá-la à flor da pele. Bem sabemos como isso pode ser bom. A Bienal B está abrindo suas portas e lhe convido a visitar suas exposições, no mínimo por apoio e torcida por tantos esforços reunidos. Alguma estará perto de você nos seguintes espaços:

Agência de Leilões de POA, Aliança Francesa, Arquivo Público do Estado, Arte&Fato, Artemim, Assembléia Legislativa, Atelier Linhas de Trabalho, Atelier 512, Atelier Ferro e Fogo, Atelier Livre (Espaço Alternativo), Casa dos Bancários, Casa de Cultura Mário Quintana, Delphus, DMAE, Espaço NT, Estação Rodoviária, FACED-UFRGS, Galeria Gravura, Galeria Paulo Capelari, Grêmio Náutico União, IAB, Letras & Cia, Livraria Café, Museu Júlio de Castilhos, Nieto, Parque Farroupilha – Recanto Europeu, Sede Águias, Teatro Câmara Túlio Piva, Tribunal de Contas Estado.

Não deixe que a indústria cultural lhe dê apenas a opção de “vaca de presépio”, sua sensibilidade merece mais. Garanto que haverá algo que você achará viajante de ficar olhando. Visite o site e escolha sua/s viagem/ns: www.bienalb.org

Boa Bienal B!

* Artista plástica formada pela UFRGS, criadora da Bienal B. É editora de uma coluna de artes visuais no site Artistas Gaúchos, e tem uma produtora experimental de ações culturais chamada Azul Produtora Galeria. Mantém também a TV Azul online, voltada a conteúdos artísticos.

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Um comentário sobre “Cow Parade e Bienal B

  1. E sempre fácil criticar!Eu sou o criador desta vaca o pensamento,também luto também admiro a arte também passo por dificuldades,também tenho portas fechadas na minha cara,também fui a muitas exposições da bienal b,inclusive para ver minha amiga ,companheira de Cowparade Esther Bianco,que esta na bienal b,como muitos outros,também tenho um grupo que luta pela arte gaúcha.Sabe fico chateado com o que você escreveu,ainda porque usou a foto de minha vaca , ilustração.e ainda deve ter passado por ela como todos os outros ,que fecham as portas na cara dos que lutam pela arte no Rio Grande.Tamanho despeito que duvido que você se quer saiba o que eu quis mostrar e que fala a minha vaca, ai com respeito pelo alheio,pelo que não conheço,pelo que não sei.Mas a minha vaca fala exactamente deste texto que você escreveu.Incrível sincronicidade e uma pena que o dono do texto não tenha sensibilidade para perceber.Muito obrigado pelo respeito que você reclama mas não oferece.Vou continuar cumprindo minha função ,a muito trabalho ainda ,inclusive no meio artístico.Rodrigo Corrêa

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