Por Daniel Indalécio

Rembrandt van Rijn - (detalhe de) Susanna bathing. Royal Picture Gallery Mauritshuis - 1636. Crédito: reprodução

Então, naquele momento, fui acometido por um ligeiro espasmo reverberado por todos os meus músculos, da compressão convulsiva do estômago ao tremor involuntário de braços e mãos, ao avistá-la, pelo vidro corrediço da cristaleira por espelho, adentrar sorrateira o escritório, calculando o peso de cada movimento, conferindo ambos os lados do corredor para em seguida fechar a porta atrás de si, e pude vê-la ainda passar caprichosa a mecha de cabelo em torno da orelha antes de baixar meus olhos na intenção irrefletida de fingir não tê-la reparado, retesar-me e buscar novo equilíbrio ao cálice que quase transbordara de vinho, devolver a garrafa à prateleira com igual matemática nos gestos, como se desse modo eu pudesse passar despercebido ou porque agindo assim eu lhe proporcionasse a mesma chance de copiar-me o fingimento e evitar desconcertar-se com a minha presença, imprevista indesejada constrangedora, e no entanto o que ela fez, e só pude distinguir pelo ranger ciciado do assoalho, o que ela fez foi se achegar justamente pro meu lado, ainda lenta e toda medida no que fazia, acreditando talvez na honestidade da minha indiferença, que completamente rijo de corpo e raciocínio eu me mantinha imóvel, incapaz sequer de atinar para a naturalidade de beber o que me havia no cálice sem comprometer com isso a pose de absorto, formulando antecipadamente a dosagem de surpresa, a expressão mais adequada, e eu já tinha quase uma resposta engatilhada pra pergunta qual que me fizesse, comentários previsíveis, meras formalidades, quando mansamente ela empalmou, de uma só vez, tudo o que podia do meu ombro, e foi, com certeza, convincente o sobressalto que imprimi no meu rodeio, atestado pelas gotas de vinho que respingaram da manobra manchando de bordô minha camisa, e senti que havia exagerado no espanto, perdido o controle da reação, porque esperasse sim uma pergunta, um comentário, mas jamais um toque, um contato, embora tenha-me parecido que, sinceramente, lhe fizera gosto o meu pasmo, revelando inclusive certa indulgência ante irreprimida pusilanimidade, diante da constatação do que sua presença, assim de supetão, sem tempo de preparo, me infligia, e foi sim com um leve sorriso complacente, cuidando não denotar qualquer sarcasmo, que ela procurou me reaver a compostura e restabelecer a pressão normal das minhas veias, naquele jeito só dela em valorizar os seus propósitos sem vulgarizá-los com palavras mal aplicadas, toda lânguida mas incisiva, suave porém segura, e sempre mais segura quando comigo, que, admito, também possuo minhas artimanhas, nenhuma flor que se vá cheirando impunemente, porque é bem do meu feitio isso de se mostrar desprotegido para angariar os desvelos e os mimos que toda milonga dessa espécie infalivelmente suscita em contraponto, e, consciente dessa minha evasiva, bem que me conheço, foi que aceitei sem pestanejar a mão dela, insatisfeita com um simples ombro, arriscar um afago ao meu rosto, sempre de palma inteira, toda estirada pela face esquerda com o polegar quase se atrevendo a determinar onde começa a boca, e tudo isso, toda essa novidade de tato entre nós, exasperou-me além do que podiam os meus nervos, que se arrepiaram todos dentro da minha carne e vibraram as estruturas do meu corpo de um jeito incontrolável – ah, essa minha fragilidade! ah, esse meu subterfúgio! – de forma que repercutiu até as últimas falanges dos meus dedos a tremedeira, levando o cálice por ressonância entornar mais vinho na minha camisa, histérico que só eu, encabulado demais pra poder delimitar o ponto exato que reteria o que aconteceu no âmbito da pura malandragem, entretanto, pra carregar-me de vez na humilhação, flagrante que me era a intenção contrária, ela persistiu naqueles ares de tutora, melindrosa na espontaneidade do reflexo ao passar-me a mão, de imediato, por sobre o local imaculado do tecido, à altura do peito, o que assenti com total naturalidade confiando minha guarda à sua égide, filho bastardo da mãe pródiga, e foi bem nesse clima que ela sem titubear levantou-me a camisa até as axilas, sugerindo a providência que se fazia necessária, o que igualmente acatei com absoluta conformidade quem sabe porque aquela nódoa, naquele tom de tinto seco, promovesse qualquer imanência inoportuna e com isso eu lhe dissesse “mãe, afasta de mim este sangue!”, sendo que na verdade o que eu queria mesmo suplicar era “mulher, afasta de nós esta morte!”, lembra por um minuto o futuro é o que eu ia dizer no instante em que ela emendou os movimentos e investiu de novo no meu peito (untado levemente de vinho), agora com as pontas dos dedos num pudico toque diligente, que a região era sensível demais – bem na orla do mamilo, rico em pelos e terminais nervosos – e para tanto ela abusava na faceta de matrona, dedicando demasiado zelo ao que dispensava maiores cuidados e incorrendo no risco de aflorar uma malícia improvável – dela para comigo porque proibida; minha para com ela porque absurda –, mas vai ver não atentasse mesmo para a ambigüidade daquele roçagar – o que duvido – com que botava-me hirtos os músculos do tórax, resvalando do limite admissível para um terreno pernicioso, ardilosa que só ela, talvez me experimentando nalguma particularidade do caráter, fosse realmente só uma prova formulada por aquela cabecinha porca e até um devaneio acarretado pelas circunstâncias eu levei em conta, mas o fato é que, fosse o que fosse, bem da verdade eu é que não me faria de rogado, sendo que mais do que passivamente permitir os seus enleios o que fiz foi emparelhar a ousadia, precipitando-me contra seu braço com a delicadeza convicta que trago sempre à mão – mão da minha androginia; mão dos meus meandros – ao que o contato na tenra carne daquele fruto me incitou a escorrer para cima os meus dedos, por força de outras gravidades, e alcançar o pico vertiginoso da sua espádua, encravando-lhe posseiro cinco hastes de bandeira, e foi justo pelo tremular destes meus lábaros que pude constatar com que frêmito aturdido ela viu-me avançar sobre suas terras, entrépido que prossegui pelas paragens montanhosas do seu colo, munido do mesmo ferro com o qual ela intentava ferir-me – infectados que já estávamos ambos pela mesma peçonha – e enredada pela própria rede que lançara ela consentiu, encurralada, que eu explorasse o cume de outros montes quando baixei-lhe o vestido pela alça para além de onde ele se faz indispensável, e o permitiu talvez porque, tendo ela primeiramente ultrapassado os limites do decoro, me quisesse cúmplice e co-participante do mesmo pecado, conquistando de quebra a garantia do meu silêncio, num pacto que assinei com a mesma pena impelindo-a , por igual motivo ou pretexto, a batizar-me em águas de saliva o pescoço enquanto eu empossava já definitivamente o seio do seu território, e assim que descaiu-lhe por completo o vestido ao longo do corpo ela sentiu-se, é bem provável, mais desprotegida e indefesa do que eu, mais atolada na lama em que chafurdávamos, porque subitamente pôs-se a arrasar com tudo que estivesse sobre a mesa de papai, derrubando livros papéis pastas canetas e o que fosse, para assentar-se sobre ela na disposição universal da fêmea humana – distintamente evoluída a fim de olhar nos olhos o pai do filho que traz ao mundo em similar arranjo – puxando-me pelos braços, ferina nas unhas com que me fisgava e arrastava para o fundo daquela areia movediça, e neste instante, confesso, passou-me mesmo pela cabeça abandoná-la ali à própria sorte e vê-la debater-se colérica em meio a todo aquele lodaçal que se formara pela tempestade da safra de ventos que ela própria havia semeado, pois eu pisara no barro, é verdade, mas ainda me era possível escapar ileso – e nisso, reconheço, consiste outra das minhas armadilhas, pois que é somente na traição que alcanço gozar de mínimo poder; a despeito da covardia de toda punhalada desferida pelas costas é no intrínseco significado da deslealdade onde reside a minha força – e de enxurrada lhe arreganharia os dentes com toda a raiva de cachorro louco que me punha ávido a descarregar, na primeira presa que encontrasse, aquela inexplicável angústia a me consumir por dentro: “vadia desalmada” eu haveria de lhe tocar na cara “o velho nem morto ainda e você se escancarando pro primeiro macho que aparece… embora primeiro seja modo de dizer, eu sou qual? o quinto, o sexto… desse ano, desse mês…” e se hipócrita ela apontasse o lodo nos meus pés, eu contra-atacaria “você não tem moral nenhuma pra me acusar, vagaba! só deixei essa indecência chegar a esse ponto pra poder comprovar pessoalmente o fundamento das queixas a teu respeito, se seriam mesmo pertinentes todos os delitos que te imputam…” fazendo coro, mais que isso, avalizando o manifesto da família que havia muito aviltava-lhe com os doestos mais injuriosos, de insensível a puta, rameira libertina devassa e por aí afora, acusando-a de trair papai com todo e qualquer latagão que lhe topasse pela frente, e privando-o dos préstimos mínimos que eram de sua obrigação – que, segundo eu podia concluir, amenizariam a infâmia das primeiras faltas –, se bem que, devo dizer, nunca tenha dado muito ouvido pra essa ladainha, que pra mim tanto fazia o adorno que papai levava na testa ou a cruz que carregava no lombo, eu queria (sempre quis) era distância de todos esses embrólios familiares, cada um fosse cuidar da vida alheia por sua conta, e vai ver que justamente pelo agastamento que essas picuinhas sempre me provocam foi que todo este estrilo não passou de uma furtiva consideração, pois que ao vê-la ali naquele estado – as pernas arreganhadas tal qual um filhote qualquer de pássaro com o bico de lés a lés clamando por comida – tive mais claramente a impressão de um pedido de socorro do que a de uma voraz bocarra espreitando-me por mero esporte: ninguém melhor do que eu sabe a que sorte de traumas o convívio com essa gente nos expõe! ninguém melhor do que eu pra conhecer cada fome cada sede cada asfixia que a relação com papai nos submete! e foi nesse desarranjo de reflexões que eu – aparentemente intempestivo para quem visse de fora – arranquei-lhe a última e ínfima veste que restava, com a violência de uma gana, pondo nisso até um certo arrebatamento de desforra, o que de estalo ela pegou no ar e incorporou na mais perfeita consonância, ajustando precisamente a intensidade da volúpia com que me despiu das calças e fez erguer a clava forte de sua justiça, manipulando, a princípio comedida, o dispositivo indispensável para os trâmites do nosso tribunal, onde em seguida já estaria intervindo oralmente em esplêndida eloqüência, numa retórica capciosa e persuasiva com a qual me pôs prontamente convencido ante incontestáveis argumentos, que pelo método dedutivo da minha hermenêutica eu podia com clareza ouvi-la proferir, ultrajada difamada caluniada, “isso, vem, aplaca o efeito corrosivo que toda essa ignomínia infunde na minh’alma, porque só com fogo se detém o fogo e somente pela improbidade se descaracteriza um impropério… assim, isso, lança bases firmes na fundação de calúnias que me erguem, pois que é o único modo de dar justeza a ambas as partes – justificando uma e justiçando a outra – por uma ampla e única sentença…” desamparada menosprezada insatisfeita “vai, assim, me extravasa de atenções que há muito não me prestam, que o gado já vem definhando com tanta desconsideração do dono… continua, vai, abana-me a centelha que resiste antes que a brasa se extinga por completo, que se esposa eu me tinha insaciada e perseguida, viúva mais do que nunca me devastarão as convenções e o celibato”, ciente que eu estava daquela defesa ser um último recurso contra o jugo impiedoso de uma promotoria que conheço muito bem – talvez por isso me era possível traduzir tão fielmente as suas alegações – e num instante ela estaria novamente concertando o corpo na posição primordial, ansiosa por receber-me o veredicto, a eqüidade rigorosa do meu martelo, que, suspenso no ar, latejava como vacilasse quanto a resolução a ser tomada, como que numa última ponderação, sendo que no fundo o que eu fazia, brejeiro que só, era dilatar aquele momento de minúcias maturando um antegozo de exorbitante exaltação, inatingível pelos meios carnais porque era no abstrato que eu me deleitava – eu, o transviado, incumbido do asseio familiar, pronto a purgar cada virtude conspurcada, toda honra usurpada; eu, ovelha-negra, disposto a recuperar, com ferrenha disciplina, os cães desgarrados da matilha; eu, o pederasta, fazendo as vezes do homem da casa, provendo as necessidades de cada membro como um bom chefe-de-família; logo eu, a vergonha, o vexame, a desonra, a desdita, o elo fraco o disseminador de pragas o motivo de achincalhe galhofa humilhação –, mas antes que eu pudesse arquitetar um próximo passo mais perverso, malhar com mais requinte aquele ferro posto na bigorna, saltaram-me fagulhas pelo corpo que me incendiaram o rosto os braços o peito o baixo-ventre, provocando-me um calor vertiginoso no qual fundiram-se os metais – o aço dos nervos com o chumbo dos músculos – numa liga magmática devastadora que num relance a cobriu inteira porque só com fogo se detém o fogo e ela tinha os olhos ainda em chamas e o corpo ardendo em febre, eu tinha a razão esvaindo pelos poros e os sentidos como a trama de uma rede, ela crepitava convulsa na lenha dos braços na tora das coxas, eu procurava acertar o ritmo sem a referência do metrônomo que me era natural, ela por sua vez executava cada gesto cada manobra cada passo fosse como numa dança exaustivamente ensaiada e praticada, eu me deixava conduzir por ela, ela se deixava possuir por mim, eu pegava forçava fruía, ela ardia fremia vibrava, mas, a despeito de todo o frenesi, eu mantinha o cenho dominado a rédeas curtas e vira e mexe ainda semicerrava-lhe uns olhos de quem diz “tá vendo agora o que é preciso pra se preservar a individualidade na ciranda desse clã? entendeu, mesmo que tarde, o porquê da minha rebeldia a razão do meu isolamento? agora fala quem é o tresloucado quem é o perdido o ingrato o egoísta o desumano” e ficava claro que ela podia compreender perfeitamente toda a sangria verborrágica que eu vertia de uma ferida mal cicatrizada – o talho da minha boca tantas vezes costurada novamente aberta exposta em carne-viva doendo todo o meu flagelo por anos anestesiado pela propriedade entorpecente da morfina ministrada neste sanatório – pois intentasse, com extrema veleidade, manifestar algum carinho empapado de lascívia, na forma com que manuseava-me os braços, enroscava-me os pelos do peito e até mesmo na lixa do rosto ela procurou polimento, buscando domesticar o secular animal de duas costas, e quando eu, exaltado desenfreado, ameacei urrar em alto e bom som a selvageria daquele quiproquó ela tapou-me imediatamente a boca com a própria boca dela, com o fim, certamente, de também tapá-la pelo mesmo motivo pelo mesmo descontrole iminente por estarmos em zona de perigo por estarem todos pela casa de um lado para o outro acerca dos preparativos – ela assim como eu provavelmente ouvira vindo da janela apenas no vidro um barulho de motor aproximar-se e parar à entrada de casa com todo um estardalhaço de carro velho bem típico de padre do interior – e foi pra já que ela pegou a oscilar as ancas num trotar compassado com a celeridade do meu galope, sob a fúria das minhas esporas, conformando o corpo com o meu corpo, modelando a boca na minha boca, harmonizando o espírito com o meu espírito num ritual litúrgico no qual nos banhávamos em óleos de suor e secreções de injúria de vindita de salvação e foi num estertor epiléptico que se deu a ascensão de nossas almas a expiação de tantos pecados – ambos animais imolados em sacrifício à própria ventura – e num piscar de olhos foi que nos desgrudamos, voltei as costas para ela, reavendo as calças, atrapalhado como alguém desperto bruscamente, enquanto podia percebê-la também à procura de suas vestes, do fôlego, da compostura, recompondo as aparências e os trejeitos da madrasta, da mulher respeitável, a mesma ladina de sempre, montando a fantasia do carnaval sacro-pagão com a qual desfilaria outra vez pela avenida, dedicando-se tanto em atenções para com os jurados quanto em acabar-se na folia, fuleira, na passarela de dois gumes onde evolui o enredo do seu samba tão manjado, traíra, e eu que pensei que ela iria, depois de nossa apoteose, sair por aquela porta mandando todo mundo às favas, arriscando até mesmo um “fodam-se vocês” caso viessem recriminá-la, calando a boca de todos aqueles que sempre atribuíram segundas intenções no seu matrimônio “fiquem com tudo e enfiem onde quiserem, suas hienas carniceiras” ela diria “urubus todos vocês, que tanta desconfiança pra comigo sempre veio da angústia por mais uma parcela na partilha” e por fim bateria forte a porta da sala, levando apenas a roupa do corpo, ainda desalinhada, e eu no seu encalço, o dedo médio em riste, irônico como sempre – o tresloucado perdido ingrato egoísta desumano – daria-lhes então uma banana antes de sair para nunca mais voltar – como já havia mesmo diversas vezes prometido – mas o fato é que num minuto ela estava lá, recomposta, cândida matriarca, incisiva mas lânguida, segura porém suave, e sempre mais suave quando comigo, por saber perfeitamente que eu não faço parte do júri que a avalia, o meu negócio mesmo é pôr também o pé na pista, montar-me numa fantasia escrachada, uma máscara caricata, horripilante, e é por essas e outras que ela, bem que me conhece, apenas fez jogar-me a camisa amarrotada, manchada de vinho – porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados – para em seguida dar meia-volta, afastar-se em direção à porta, atentando a ambos os lados do corredor antes de sair naturalmente, enquanto eu, ainda um pouco arfante, quente e grudento, vestia lentamente a camisa, sopesando o tempo necessário para também deixar o escritório e dirigir-me ao quarto de papai, onde ele estaria rodeado pela prole e demais aparentados, entregue aos serviços do padre Agenor, que àquela altura já devia estar administrando-lhe a extrema-unção.

 

*Daniel Indalecio é escritor e  formado no curso de Letras pela Universidade Luterana do Brasil.

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