Por Clarissa Baulmont*

A exposição Ospa 60 anos aconteceu no Memorial do Rio Grande do Sul do dia 09 de setembro até o dia 10 de outubro.

Material disponibilizado pela OSPA para a exposição (Crédito: Divulgação)

Na entrada do Memorial do Rio Grande do Sul, ao subir o primeiro lance de escadas antes de chegar à porta principal, encontro a réplica em madeira de um piano de cauda em que a tampa semi-aberta mostra, em vez de cordas, imagens digitalizadas da história da OSPA. No salão de exposições, em frente à porta, estantes de partituras com programas antigos de apresentações como das óperas Lo Schiavo (O Escravo) – do compositor brasileiro Carlos Gomes, Carmen de Bizet, Aida de Verdi e A Flauta Mágica de Mozart. Atrás de vidros, alguns instrumentos como flauta, violino, trompete e violoncelo convidam ao toque proibido. Atrás de outros vidros, pode-se observar objetos que pertenceram ao maestro fundador da orquestra, Pablo Komlós, como a batuta e o smoking.

A exposição tem o objetivo de remeter à trajetória dos 60 anos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. O concerto inaugural, regido por Pablo Komlós, maestro húngaro que encontrou aqui um ambiente ideal para fundar uma orquestra, ocorreu em 23 de março de 1950, no Teatro São Pedro. Em 1964, a Ospa foi encampada pela lei 4.837, Decreto 17.173/65, e passou a ser mantida e administrada pelo Estado do Rio Grande do Sul, como órgão da Secretaria Estadual de Cultura. O auditório Araújo Vianna, deteriorado ao longo do tempo e que hoje passa por sérios problemas, já foi palco de apresentações da orquestra, como da Aida em 1965.

Perto das estantes de partituras, outra réplica de piano, desta vez com imagens digitalizadas de notícias de jornais sobre a orquestra sob a tampa. Adiante, uma caixa grande com fones permite escutar trilhas de filmes executadas e gravadas pela OSPA enquanto se observa às cenas dentro dela. Do outro lado, um mapa digital da orquestra, ao toque dos dedos, executa uma melodia tocada pelo naipe de instrumentos selecionado (violinos, violas, violoncelos, oboés, flautas, trompetes, trombones). Noutro ponto do salão, um vídeo didático conta um pouco da história dos instrumentos musicais e explica o que é uma orquestra sinfônica, o que são famílias de instrumentos (cordas, madeiras, metais, percussão) e naipes nesse tipo de agrupamento musical.

Quase no meio da sala, um tímpano, aquele grande instrumento de percussão que parece uma enorme cumbuca tapada por uma membrana, disponível às mãos dos visitantes: pode-se explorá-lo, bater com mais ou menos força, com a mão aberta ou em concha, com os dedos, em lugares distintos, colocando o pé sobre o pedal ou deixando-o livre, e escutar os sons diversos que saem daquilo que fazemos com o objeto. O tímpano tem um significado importante para mim porque foi ao ouvir o som que fazia durante a execução da Nona Sinfonia de Beethoven (o primeiro concerto da OSPA a que assisti) que decidi deixar de ser espectadora: precisava fazer parte daquela profusão sonora que me encantava. O tímpano era o elemento mágico que, naquela música, remetia a um outro lugar qualquer que não existia. A atração sedutora impedia que me contentasse em ouvir somente, precisava mergulhar naquilo e integrar-me aos sons através de minha expressão. Então, comecei a cantar em seu Coro Sinfônico.

A exposição também contou com seminários que trouxeram um pouco da história da instituição (Crédito: Divulgação)

Atualmente, a OSPA é composta por instrumentistas extremamente habilidosos e qualificados, tendo reconhecimento musical nacional e internacional. Falta-lhe concretizar a construção de sua sede, a Sala Sinfônica, elaborada de modo a preservar a paisagem urbana e com um projeto ambiental pioneiro na cidade, além do projeto acústico necessário para a excelente execução de uma orquestra sinfônica. Conforme declaração, que se encontra na exposição sobre os 60 anos da OSPA, de Ivo Nesralla, Presidente da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre: “a concretização do sonho de todos nós, de ter uma Sala Sinfônica à altura da OSPA, está cada vez mais próxima, dependendo de esforços que incluem a colaboração de cada cidadão que preza a cultura, a arte e a educação”.

A importância da orquestra se deve, mais que a alguma pretensa erudição, ao sentido mais íntimo que a música possui. Há quem rejeite previamente uma orquestra por considerá-la elitizada, conservadora, de sons distantes do mundo digitalizado e eletrônico e da batida das músicas mais em evidência em nosso tempo, e há quem, ao contrário, a leve em consideração justamente por isso. Nenhuma dessas posturas, contudo, para mim faz muito sentido. Acontece que, às vezes, o que existe é certa resistência em se permitir experimentar ouvir, por exemplo, a pungência de um arco sendo arrastado sobre uma corda ou de uma voz que canta porque a sonoridade pode invadir-nos e fazer com que nosso organismo revolva-se involuntariamente. Porque a música é capaz disso (como as artes), capaz de tirar-nos do cotidiano por ultrapassar a realidade, transcendendo-a. Só que nosso mundo rejeita um pouco o que é incompreensível e indizível.

Em cada composição musical escrita numa partitura ou gravada para que não se perca, há incrustados os sentimentos e sensações de quem a compôs. Quem lê ou ouve sente algo como sentiram muitas pessoas que leram e ouviram ao longo do tempo. Quando alguém executa uma música, está (mesmo independentemente da própria vontade) doando uma parte de si para a produção dos sons e isso tem uma energia de comoção e agregação entre os homens que é como um relâmpago brilhante, instantâneo e inesquecível. E isso porque fazer e ouvir música é um ato cuja força expressiva está naquele momento e porque a arte musical ocorre ao tempo em que se esvai que o espaço próprio à propagação do som é essencial. A pluralidade de timbres e energias numa orquestra sinfônica é grande e forte e por isso é preciso proporcionar-lhe um espaço adequado, para que se valorize a arte, para que uma parte dela não morra. O mundo anda desencantado demais e é preciso inundá-lo de arte para curá-lo do vazio, entregando-lhe desse modo toda a música que for possível para unir as pessoas e fascinar a existência.

A exposição Ospa 60 anos aconteceu no Memorial do Rio Grande do Sul do dia 09 de setembro até o dia 10 de outubro.

* Estudante da Faculdade de Direito/ UFRGS; soprano do Coro Sinfônico da OSPA.

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