Fotos: Fernando Halal (halalson@yahoo.com.brhttp://www.flickr.com/fernandohalal)

Dias depois de o Brasil receber a primeira edição do festival Starts With You (SWU), dois países vizinhos sediaram eventos menos grandiosos, mas nem por isso menos interessantes para os fãs de rock. Buenos Aires realizou mais uma edição do tradicional Pepsi Music, marcado pela esperada primeira turnê do Rage Against the Machine pela América do Sul. O festival argentino ainda contou com bandas de respeito como Green Day e Queens of the Stone Age – que, aliás, foi a atração principal do segundo final de semana do Pilsen Rock Circus, em Montevidéu. No Uruguai, a festa começou no dia 9, com Pixies e o grupo local Buenos Muchachos.

Muitos brasileiros (gaúchos, especialmente) aproveitaram a proximidade com os países do Prata e a valorização do real e estiveram presentes nesses festivais. Para abordar eventos pouco divulgados em terras tupiniquins, a reportagem do Nonada colocou o pé na estrada e assistiu às apresentações do Pepsi Music no dia 13 e conferiu o Pilsen Rock Circus, três dias depois.

Pepsi Music

Local: Costanera Sur, Buenos Aires (ARG)

Data: 13 de outubro

Atrações principais: Rage Against the Machine e Queens of the Stone Age

O público ficou um pouco abaixo do esperado e as atrações internacionais se apresentaram em dias diferentes, o que prejudicou um pouco quem viajou buscando ver o maior número possível de shows. No entanto, em termos de estrutura, o Pepsi Music não deve nada a outros festivais de grande porte.

Pontos positivos podem ser destacados, como o estande de camisetas, DVDs e CDs – tudo original. Para se ter uma ideia, era possível encontrar praticamente todos os álbuns de QOTSA e RATM por cerca de R$ 14 cada. De questionável, a proibição da venda de bebidas alcoólicas, embora sejam inegáveis os efeitos benéficos dessa medida.

A estrutura do local – uma reserva ecológica –, com três palcos e muitas atrações locais, facilitou a vida de quem chegou mais cedo. Ninguém podia dizer que não tinha nada para fazer. Alguns dos destaques dos palcos secundários foram o grupo de stoner rock Los Natas e o vocalista da veteraníssima banda de heavy metal Rata Blanca, Ádrian Barilari.

Com um show curto e introspectivo, Alain Johannes comprovou o que já se sabia sobre ele: que é um músico versátil e talentoso. Mesmo diante de um público ávido por rock pesado, o ex-QOTSA (e uma pá de bandas relevantes) não se intimidou e mandou ver na sua mistura indie-flamenco-psicodélica, executando as canções com um violão ou uma mistura de banjo e bandolim artesanal. Um show bastante interessante, mas que claramente teria sido melhor apreciado em um local menor.

Pouco depois das 20h, o Queens of the Stone Age subiu ao palco prometendo uma apresentação empolgante. E foi isso o que se viu. Com uma presença de palco impressionante, o líder Josh Homme mostrou porque sua banda permanece, desde o final dos anos 90, como uma das mais relevantes do cenário rock. A óbvia abertura, com Feel Good Hit of the Summer, veio seguida de diversos clássicos stoner, como The Lost Art of Keeping a SecretSick, Sick, SickLittle SisterGo with the Flow No One Knows. A banda saiu de cena após pouco mais de uma hora e 15 minutos, com a pesadíssima Song for the Dead. Um encerramento perfeito para um espetáculo que só não foi mais sensacional pela ausência de músicas do primeiro disco no repertório.

Rage Against the Machine finalmente tocou em terras sul-americanas

Já passavam das 22h quando uma das bandas mais politizadas da história do rock começou seu terceiro show em solo sul-americano – o primeiro foi no SWU, seguido de uma apresentação no Chile. Com o público na mão, o frontman Zack de la Rocha deitou e rolou, cantando, fazendo críticas ao mundo capitalista e vendo as rodas de pogo tomarem conta da Costanera Sur.

No entanto, desde a primeira música, Testify, fica claro que o cérebro da banda é mesmo Tom Morello – se é que isso é alguma novidade. Com uma capacidade inacreditável de transformar ruídos e efeitos inusitados de sua guitarra em melodias pesadas e marcantes, o cara é, sem dúvida, um dos mais criativos instrumentistas surgidos nos anos 90.

Sem gravar nada novo há dez anos (o último trabalho de estúdio foi o disco de covers Renegades, que não teve nenhuma canção tocada em Buenos Aires), o RATM ganhou a plateia com velhos hinos antiestabilishment, todos cantados em uníssono, como BombtrackKnow your EnemyGuerrilla Radio e a mais que obrigatóriaKilling in the Name. Apresentação impecável, mas, a exemplo da do QOTSA, curta. Ou você acha suficiente só uma hora e meia para a atração principal?

Pilsen Rock Circus

Local: Rural del Prado, Montevidéu (URU)

Data: 16 de outubro

Atrações principais: Queens of the Stone Age, No Te Va Gustar e Andrés Calamaro

Se em Buenos Aires comprar produtos licenciados das bandas era uma barbada, não se pode dizer o mesmo do festival realizado em Montevidéu. O que se via nas redondezas eram apenas ambulantes vendendo bugigangas piratas, a maioria de má qualidade. Em compensação, havia cerveja no local – algo um tanto previsível, considerando o patrocinador do evento… No entanto, o horário de comercialização era limitado.

Realizado em uma área inusitada – um parque rural que recebe a Uruguai Prado Expo, a Expointer de lá –, o Pilsen Rock Circus também teve uma grande infraestrutra, com dois palcos e uma área reservada a atrações circenses, fazendo jus ao nome. Bandas relativamente conhecidas entre os hermanos, como a argentina Las Pastillas del Abuelo e a local Chala Madre, aqueceram a galera desde o início da tarde.

Ídolo nos países do prata, argentino Andrés Calamaro foi aclamado pelos hermanos

Mesmo assim, até mesmo os desavisados podiam notar quais eram as atrações que mais chamaram a atenção do público. A primeira delas responde pelo nome de Andrés Calamaro. Veterano da cena argentina, ex-integrante das bandas Los Rodríguez e Los Abuelos de la Nada, ele não cansou de falar aos uruguaios o quanto se sentia honrado em estar ali do outro lado do Prata. No entanto, isso tornou o show um pouco cansativo, pois, se bobear, ele falou quase metade do tempo. Musicalmente, Calamaro faz um pop rock um pouco pasteurizado, atirando para todos os lados e tentando agradar diversos tipos de público. Mas é inegável que ele é um ídolo entre os hermanos, que sabiam cantar todas as suas músicas e o ovacionaram do início ao fim.

Mais novo (mas nem tanto, já que foi formado na década de 90), o No Te Va Gustar estava jogando em casa. Por isso, não precisou fazer nenhum esforço para cativar o público, que dançou discretamente durante as músicas do recém-lançado álbum Por lo Menos Hoy, mas simplesmente berrou as letras das canções mais antigas. Misturando rock com reggaecandombesalsaska e outros ritmos, o grupo é uma espécie de Paralamas do Sucesso do Uruguai. Mesmo não sendo um show fantástico, sem dúvida foi mais energético que o de Calamaro.

Com o fim das principais apresentações hermanas, o público acabou se renovando, já que muitos não estavam nem aí para o QOTSA. Sorte dos fãs, que tiveram que dividir o espaço na pista com alguns curiosos.

Com chifrinhos a la AC/DC, Homme comandou mais um belo – mas curto – show do QOTSA

Tal como em Buenos Aires, o carisma de Josh Homme dominou o palco. O vocalista/guitarrista bebeu vodka no gargalo, colocou uns chifrinhos a la AC/DC arremessados no palco e ainda subiu em cima do bumbo de Joey Castillo. A apresentação foi intensa e empolgante, como era esperado por quem já havia visto a banda em Buenos Aires. Porém, o set foi praticamente o mesmo. Ou seja, um show curto, o que é algo incompreensível, considerando que o QOTSA foi a atração principal do Pilsen Rock. No final, a sensação de ver um dos melhores grupos de rock da atualidade ficou dividida com uma ponta de decepção. Afinal, uma banda tão criativa e que faz um som fora dos clichês bem que poderia brindar seu público com uma apresentação mais encorpada. Se bem que voltar para o bis já seria um clichê…

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7 comentários em “Nem só de SWU vive a América Latina”

  1. Tive a benção de poder assistir aos dois shows do QotSA: Montevideo e Buenos Aires e posso dizer com tranquilidade que Montevideo foi muito melhor. Apesar de ser o mesmo set list( em termos, porque em Mdeo tivemos Monsters in The Parasol e Into the Hollow, que NÃO estava no set list daquela noite) a vibração da banda em Mdeo foi completamente outra. Estando lá e mesmo ouvindo o audio dos shows, se percebe a diferença. Josh muito mais falante, mais animado e até fazendo piadinhas( os proprios cuernos, falando sobre “Sex on fire” do Kings of Leon, mudando a letra de No One Knows por conta da Luna daquela noite). Buenos Aires foi meu primeiro show do QotSA, mas Montevideo foi a maior emoção que já senti na vida =)

  2. Pois é, poderiam ter mais umas 11 ou 37 musicas, né? hahahahaha! ;D
    Brincadeiras à parte, devo concordar, afinal não é sempre que eles vêm aqui… Acho que fãs tão devotos (assim como eu) mereciam mais, sim.

  3. Parabéns pelo texto, mermão… tá show!!
    Eu, sem dúvida nenhuma, não me importaria em nada de presenciar um clichê como esse.. Bis é algo que não podia faltar em nenhum show que se preze!!! Lógico que não estou falando do chocolate, né.. hehe!!!!
    Sobre o RATM em BsAs só tenho uma coisa a acrescentar: Viva los obreros e los piqueteros (e los brasileños tanbién!!) hahaha!!!

  4. Essa tiarinha foi confeccionada por mim, é minha! Eu pedi pro meu amigo jogar, que era mais forte!!! Depois do simpatissíssimo Josh Homme colocá-la, ainda atirou de volta, e eu consegui recuperá-la, com um fio de cabelo dele! Com certeza, esse foi o melhor show da minha vida!!!

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