Mario Vargas Llosa esteve na conferência de outubro do evento Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre. (Crédito: Divulgação)

Às 19h30min dessa quinta-feira o Salão de Atos da UFRGS já estava praticamente lotado para receber o Nobel de Literatura, o peruano Mario Vargas Llosa em mais uma edição do Fronteiras do Pensamento. Olinda Alessandrini era a pianista encarregada de abrir o evento. Enquanto isso duas moças se acomodavam nas cadeiras, pulando uma pequena mureta de divisória entre o corredor e uma fila de poltronas atrás  de dois assentos vagos. Havia muita gente no Salão de Atos, entre eles a escritora Cíntia Moscovich e o ex-prefeito de Porto Alegre, José Fogaça. Depois da apresentação de quatro músicas no piano por Alessandrini, sendo uma delas dedicada especialmente ao escritor peruano, foi a vez do Secretário da Cultura de Porto Alegre, Sérgius Gonzaga, subir ao palco e fazer os agradecimentos aos patrocinadores. Só depois disso ele fez o discurso de introdução de Mario Vargas Llosa, e então o peruano apareceu, ao mesmo tempo em que boa parte do público aplaudiu de pé.

Llosa vestia um terno cinza escuro e ostentava uma expressão sisuda  agradecendo as palavras de Sergius e as palmas do público. Logo começou o seu discurso falando sobre o conceito de Cultura e de como ele se modificou com o passar do tempo. O peruano criticou o fato de que o conceito de Cultura foi amplamente significado, isto é, antigamente dizia-se que tal pessoa era inculta ou culta referindo-se a um nível de educação, ou até de classe social. Atualmente cultura são os costumes, ou qualquer outro tipo de comportamento de um povo, de um local. Para ele, “vivemos em um mundo onde tudo ou nada pode ser cultura”. Uma construção social fundida principalmente por pensamentos de antropólogos e sociólogos com boa intenção, mas “de boas intenções o inferno está cheio”, lembrou o peruano em seguida. Esse fato incidiu principalmente na área da educação, onde o comportamento negativo de um aluno é amplamente aceito, e medidas raramente são tomadas. Ele citou um exemplo sobre uma revolta em um colégio francês, “o que mais me impressionou foi a entrevista que uma professora concedeu, dizendo que estava tudo bem, e que só precisava ‘dar um jeitinho’.” A figura da autoridade se perdeu, uma vez que não há hierarquia em um mundo onde todos são culturalmente iguais a priori, ele explicou.

Segundo o escritor, vivemos também em um mundo de especialização, e nos afastamos cada vez mais do ideal de  Cultura já que especializar-se é pensar unidimensionalmente, e a Cultura seria pensar em junção com outras áreas. A literatura e as artes plásticas seriam manifestações artísticas representantes da cultura porque envolvem-se com o público de cada nova geração, se modificando e modificando o seu público. Ainda deu tempo do escritor falar sobre a missão da crítica literária, que para ele deve ser ligada a sociedade e não analisada apenas em si.

O ponto mais interessante da palestra foram justamente as perguntas realizadas pela platéia após a apresentação  do escritor, onde Llosa pode mostrar seu carisma e até se arriscar em algumas piadas. Ele acredita que o livro em papel será substituída pelas novas tecnologias de leitura, mas tem medo que algo de mágico do papel se perca nesse caminho. “Não sou do tipo anacrônico que nega a tecnologia, mas tem certo tipo de qualidade do papel, que pode se perder e se isso acabar será uma grande perda para a humanidade”. Perguntado quais são os motivos para se continuar escrevendo, mesmo apesar de já ter ganhado boa parte de prêmios possíveis como deixou evidente Sergius Gonzaga em sua pergunta, Llosa acredita que todo o escritor almeja secretamente ser um grande escritor – não almeja só os prêmios e a fama. “Essa vontade de querer ser um Vítor Hugo, um Flaubert, isso que me leva a escrever e também é isso que me deixa profundamente frustrado”, revelou arrancando risadas da plateia. Para finalizar, ele esclareceu que a sua vida influencia muito na ficção, mas deixou claro que não se trata de uma pseudobiografia, “o ponto de partida da minha ficção é sempre uma experiência pessoal”.

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