A primeira coisa que toda criança faz assim que aprende a ler: ler. Tudo. Panfletos, outdoors, placas de trânsito, rótulos de embalagens. Essa obsessão pela descoberta de que agora, enfim, conseguimos decifrar esse código bizarro e até então misterioso que são as palavras é a reação mais comum em crianças recém alfabetizadas. Lê-se de tudo a toda hora. E, é claro, dada a oportunidade (o que infelizmente nem sempre é o caso), também livros. Muitos livros.

Essas primeiras leituras marcam toda a leitura posterior que se fará pela vida, além de obviamente guiar as escolhas pelo que se lê.

No Brasil, até a década de 70, as crianças aprendiam a ler com as histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo, de Monteiro Lobato. A partir do incentivo de escolas, as histórias divertidas, educativas e que retratavam muito do Brasil eram devoradas pelos pequenos. A partir de meados dos anos 80, no entanto, o tipo de leitura dessas crianças mudou: passou-se a ler a Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa.

Não que se tenha parado de ler os clássicos de Lobato, ou que antes disso não se lessem quadrinhos. Mas o foco mudou. A professora Maria Conceição Pillon Christófoli, que pesquisa alfabetização na Faculdade de Educação da PUCRS, explica que houve, por parte dos pais e dos educadores, uma perda de preconceito em relação à imagem. “Antes, se achava que, havendo uma imagem junto com o texto, a criança ia se distrair da leitura, que isso atrapalhava”, explica ela “Hoje em dia, se sabe que a interpretação da imagem colabora com a alfabetização, com a familiarização da leitura”.

Ambas as “turmas” foram muito populares e continuam sendo até hoje. E apesar das diferenças, inclusive de mídia, têm muitas semelhanças.

O Sítio  – Desde a publicação de Reinações de Narizinho, em 1931, a popularidade e a influência da literatura infantil de Monteiro Lobato só cresceu. O livro, que é uma coletânea de histórias que Lobato tinha publicado nos dez anos anteriores, introduzia os clássicos personagens do sítio: Pedrinho e Narizinho, Emília, Visconde, Rabicó, Dona Benta, Tia Nastácia. E todos os outros. A partir daí, o autor passou a publicar diversos livros com aventuras de seus personagens.

Emília e um retrato de seu criador, Monteiro Lobato

Paraíso do campo, o Sítio era o lugar de aventuras dos dois primos Pedrinho e Narizinho, com seus amigos e inimigos, personagens que Lobato criava ou tomava emprestado. O gênio do autor unia, em histórias interessantes e atraentes, as suas próprias criações com clássicos da literatura mundial, histórias da mitologia e lendas do folclore brasileiro. Seus livros despertavam nas crianças o interesse e o gosto pela leitura de uma maneira tão natural que foram usados por décadas em escolas por todo o Brasil sem nunca perder a função. Ainda, Lobato tem o mérito de tratar de temas da escola com os personagens do Sítio, como aritmética, gramática e geografia, o que só colaborou para o uso de sua extensa obra nas escolas.

A popularidade entre as crianças (e entre os pais) era tanta que desde a década de 50 começaram a ser feitas adaptações para a TV. A mais famosa, de 1977 na Globo, foi responsável por uma revitalização do Sítio, que já vinha começando a parecer meio antiquado, em parte pela linguagem, muito marcada da década de 30. A mais recente, de 2001, também na Globo, foi igualmente responsável por uma revitalização, diversificando as mídias e trazendo as histórias para o século XXI.

A Turma da Mônica – Criada pelo cartunista Mauricio de Sousa em 1959 (acrescida de personagens ao longo dos anos), a Turma da Mônica é o maior sucesso editorial brasileiro. Inicialmente publicados em tirinhas por diversos jornais, com o tempo os personagens foram ganhando fama e, com ela, suas próprias revistas. A da Mônica em 1970, a do Cebolinha em 1973. Rapidamente virou a revista mais vendida no país. Com dezenas de personagens criados (reunidos em diversas “turmas” menores com histórias e revistas próprias), Mauricio, em seus 50 anos de carreira, é o cartunista mais influente do Brasil.

As aventuras da turma principal se dão num bairro pacato e suburbano, em que as crianças brincam na rua, sem os perigos da cidade grande. As histórias tratam das brincadeiras cotidianas de Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e seus vários amigos. Criados com base em crianças que Mauricio conheceu (muitas vezes em homenagem a seus filhos), são personagens divertidos e muito reais.

Mauricio de Sousa quando criança, lendo e imaginando o Sítio (Imagem: Mauricio de Sousa)

Mauricio de Sousa, leitor ávido do Sítio do Pica Pau Amarelo na infância e até hoje, sempre fala da importância dessas histórias na sua formação. Entre os quadrinhos, era fã (e amigo) de Osamu Tezuka e Will Eisner, e sempre leu clássicos do gênero. Atualmente, Mauricio tem equipes que criam as histórias da turma da Mônica, ele mesmo quase não mais participa, embora receba o crédito, sem dar autoria de cada história para seu respectivo criador (os nomes da equipe vêm todos juntos no fim da revista, e não no início de cada história, como é correto no gênero).

Características – Em questão de conteúdo as duas franquias não têm muito em comum. Talvez, tirando o fato de serem protagonizadas por crianças, nada. A professora Maria Conceição Pillon Christófoli aponta que, enquanto as histórias de Monteiro Lobato têm uma idéia de férias, as de Mauricio de Sousa são histórias cotidianas. De fato, a única “autoridade” no Sítio é a avó, dona Benta, de modo que as crianças saem para o mato de espingarda caçando onças. Isso não acontece na Turma da Mônica, que, embora nem sempre supervisionadas, estão sujeitas à presença dos pais.

“Há também o fato de as histórias do Sítio serem bem fantasiosas”, lembra Maria Conceição “A Turma da Mônica costuma ter histórias mais pé-no-chão, embora isso também não seja regra”. Talvez graças aos diferentes roteiristas que participam (e já participaram ao longo dos anos) da equipe que faz as histórias, seja difícil estabelecer uma regra. Até porque, a gama de personagens na Turma da Mônica é bem maior que o que se tem no Sítio.

Já a diferença na leitura está na diferença de mídia. Por ser o quadrinho uma mídia que trata imagem e texto, as gerações que cresceram lendo a Turma da Mônica são mais treinadas para isso. Mesmo os quadrinhos que existiam antes de Mauricio de Sousa nunca tiveram a popularidade que ele alcançou, e isso pode ser creditado não só à criatividade do cartunista, mas também a uma mudança gradual da sociedade. A professora Maria Conceição lembra que a sociedade tem ficado cada vez mais imagética, e hoje em dia, a criança tem muito mais contato com a leitura do que antigamente, sempre com intermédio da imagem.

Tanto que hoje já se tem quadrinhos do Sítio do Pica Pau Amarelo, uma maneira de transmitir as histórias de Monteiro Lobato para uma mídia a que as crianças já estão mais acostumadas. E mesmo outros livros infantis mais atuais têm a imagem muito bem trabalhada, aliada ao texto. “Não apenas meras ilustrações do que se está lendo, mas imagens complexas, que precisam também ser interpretadas”, explica Maria Conceição, e mostra exemplos e mais exemplos de livros nesse estilo. “Isso é bem diferente do que se tinha antigamente”.

Não se pode discutir o mérito (ou não) dessa mudança no hábito de leitura; basta, isso sim, saber como lidar com ela. E, sendo um reflexo de uma mudança maior na sociedade, mais imagética e menos textual, essa discussão perde o sentido. O que importa, no fim, não é que as crianças de hoje em dia não conheçam Pedrinho e Narizinho pelos livros, e sim que os conheçam, seja pela TV, seja pelos quadrinhos. E, se forem adaptações bem feitas da obra original, certamente terão interesse pelos livros do Sítio.

Monteiro Lobato foi único em sua obra infantil. Não porque não houvesse outros escritores, mas porque era o único que escrevia histórias para as crianças, não para seus pais. E essa é a maior semelhança entre ele a Mauricio de Sousa, que em seus 50 anos de carreira conquistou (como conquista até hoje), leitores – e não só crianças – por todo o país.

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