Palestra movimentou a Feira (Crédito: Rômulo Valente)

TEXTO Idiana Tomazelli

O analfabetismo é uma questão preocupante em países emergentes, como Brasil e Argentina (para ficar em exemplos próximos). Contudo, também é um problema a ser combatido em nações desenvolvidas. Participante da programação cultural da 56ª Feira do Livro de Porto Alegre na tarde de 02 de novembro, o alemão Peter Hubertus, membro-diretor da Associação Federal de Alfabetização e Educação Básica, indaga: “Será que na Alemanha existem pessoas que não saibam ler nem escrever?” No país de poetas e pensadores consagrados como Goethe e Nietzsche, sim, alguns adultos não sabem, ou sabem pouco – insuficiente para que tenham uma vida autônoma e uma oportunidade no mercado de trabalho. O evento foi mediado pelo presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, João Carneiro.

Após a instituição do ensino obrigatório na Alemanha, o analfabetismo primário (quando a pessoa não tem domínio algum sobre a leitura e escrita) foi erradicado do país. Mesmo assim, dos cerca de 80 milhões de habitantes, por volta de 4 milhões são considerados analfabetos funcionais, segundo a Associação (não são contabilizados os imigrantes). O mesmo número é apresentado por dados da UNESCO e do Governo Federal alemão. Essas pessoas muitas vezes frequentaram a escola e assinam o próprio nome, mas não têm total compreensão daquilo que leem e geralmente são incapazes de escrever um bilhete sequer. A desvantagem é tal que “eles não conseguem exercer sua liberdade de expressão”.

Apesar da constatação, Hubertus afirma que no país “continua sendo um grande tabu falar sobre problemas na escrita”. Até hoje, uma marca impressa por Elizabeth Göebel (que era analfabeta) em sua certidão de casamento em 1809 é repetida em vários documentos por alemães que não têm o domínio da escrita. A assinatura consiste em três cruzes, que se equivalem a “XXX”.

O especialista alemão já ministrou cursos para analfabetos funcionais durante 20 anos. Para ele, hoje em dia é impossível manter a independência sem saber ler ou escrever, mesmo que o tipo de trabalho a ser realizado não exija. “A organização e a burocracia de uma empresa tornam isso necessário”, considera. Um analfabeto funcional depende permanentemente de pessoas de sua confiança para decifrar textos, bilhetes e preencher formulários. Além disso, com poucas oportunidades no mercado de trabalho, eles passam a necessitar de suporte financeiro do Estado. “Ao longo dos anos, as exigências aumentaram, e certamente vão aumentar ainda mais”, alerta Hubertus. “Muitas vezes, essas pessoas vivem à margem da sociedade”, lamenta.

Fatores como trabalho infantil, discriminação e pobreza são condições agravantes. O preconceito é um dos principais problemas enfrentados para melhorar os índices de leitura e de compreensão dos cidadãos. Ele faz com que as pessoas se mantenham no anonimato e façam de tudo para esconder a dificuldade. Por isso, a Associação investiu em uma grande campanha, em parceria com atores, produtoras e canais de televisão, e disponibilizou uma espécie de 0800 para que as pessoas liguem e se informem sobre cursos de alfabetização. A iniciativa contou apenas com esforços voluntários, já que a Associação não tem fins lucrativos.

A educação deve ser de pais e filhos

Na opinião de Hubertus, a família também constitui parte importante no processo de formação educacional (Crédito: Rômulo Valente)

 A família também constitui parte importante no processo de formação educacional. Na opinião de Hubertus, dificilmente a escola consegue preencher a lacuna deixada pela falta de estímulo em casa. “Existe uma pobreza comunicacional na família”, destaca. Os pais precisam ler em voz alta para os filhos para reforçar o vínculo com a leitura, mas, para isso, eles também têm de saber e compreender o texto à sua frente. Adultos sem formação completa não possuem bagagem suficiente para passar o conhecimento adiante. O especialista argumenta que, por isso, também é preciso cuidar da educação dos mais velhos. “Só então será possível romper o círculo vicioso”, completa.

Atualmente, as políticas educacionais têm sido pensadas com adaptações ao contexto atual. “As competências de leitura também mudam com as novas mídias”, explica Hubertus. A Internet, por exemplo, possui uma lógica de leitura diferente da do livro – em vez de uma estrutura linear, os textos online costumam apresentar uma proposta mais dinâmica. A falta de domínio das tecnologias mais recentes pode fazer também com que a sociedade o considere um analfabeto funcional.

A plateia não deixou o assunto passar batido em termos de Brasil, e assim que se abriu a rodada de perguntas, Hubertus foi solicitado a opinar sobre o caso de Tiririca – eleito deputado federal de São Paulo com mais de um milhão de votos. “O palhaço que ganhou a votação”, como se referiu o alemão, foi objeto de discussões na Alemanha, segundo ele. E, apesar da polêmica, diz que ficariam felizes por ter um representante do analfabetismo em uma instituição tão importante. “Essa pessoa já deve ter sofrido na vida. Não merece ser rejeitada pela segunda vez”, reflete. Ainda assim, ressalva que a dificuldade para ler atas e redigir propostas pode ser um empecilho no cumprimento pleno da função.

Para o início de 2011, o especialista aguarda o primeiro estudo empírico em mais de cem anos sobre o nível de conhecimento dos alemães – incluindo imigrantes. Os resultados podem denotar uma nova realidade – maior do que os atuais 4 milhões de analfabetos funcionais –, e mostrar que mais do que nunca o país precisa de novas políticas de educação. “Uma sociedade moderna não pode se dar ao luxo de ter um proletariado do conhecimento”, finaliza.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments

Deixar um comentário

Não há comentários nessa página ainda. Vamos começar essa conversa!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *