Por Pablo Miyazawa*

Ilustração por Guilherme Machado (guiams12@gmail.com)

“Quem é o jogador de videogame hoje em dia?”

Essa é a pergunta que mais escuto quando converso sobre games com qualquer tipo de pessoa, seja o especialista, seja o leigo. As pessoas que tocam nesse tema comigo devem imaginar que eu saiba a resposta, simplesmente por trabalhar há quase 15 anos nesse mercado. Não é exatamente assim. Na verdade, acho que após tanto tempo acompanhando esse assunto de perto, essa é a única questão realmente difícil de ser solucionada. Porque a resposta é simples, até demais.

Quem joga videogame? Vejamos. É elementar, se não fosse óbvio: todo mundo. Pelo menos todo mundo que importa. Ou todo mundo que se importa. Qualquer um que não seja completamente alienado. Todos que tenham a diversão como uma das prioridades de vida. Ou seja, qualquer pessoa que valha a pena ter seu gosto discutido. Eu, você e outros caras legais (e vamos deixar os caras “não legais” pra lá).Escrevo este texto de Londres, em meio a um merecido período de férias, o primeiro em mais de um ano. Mesmo com o “modo descanso” ligado no cérebro, é praticamente impossível deixar de reparar em certos detalhes. Como por exemplo: a quantidade de pessoas que jogam games em ambientes urbanos. Confesso que o fato de estar em uma cidade estranha e ser obrigado a pegar o transporte público transforma a experiência de observação. Provavelmente o mesmo fenômeno poderia ser observado na São Paulo onde moro, mas estou muito ocupado parado no trânsito ou fechado em meu escritório para reparar. Tirando as circunstâncias da discussão, pude observar muita gente aqui jogando game no ônibus, no metrô, parado na calçada, em restaurantes. E não eram crianças. Eram adultos, marmanjões, de barba e bigode, vestidos de executivo ou com uniforme de operário. A plataforma de jogo? Obviamente, o celular. E não pensem que esses caras estavam escondendo o fato de jogarem em público. Pelo contrário: percebi que estavam se divertindo de verdade. E só digo isso porque realmente prestei atenção.

Você deve estar pensando: “O cara descobriu a roda agora: acha que os paradigmas mudaram só porque viu umas pessoas jogando com celulares”. Nada disso. É apenas um indício de algo que uma boa parte dos pensadores dessa indústria já se ligou: o alternativo está se tornando mainstream. O que significa que, em breve, o que é hoje mainstream irá se tornar… alternativo. Opa, complicou.

O que é mainstream, ou “padrão”, hoje nos videogames? Tudo o que envolve a trinca Microsoft-Sony-Nintendo. São essas empresas que determinam o modo como nos relacionamos com o entretenimento eletrônico pelos últimos dez anos. E isso significa o esquema tradicional “console-joystick-TV-jogos em caixinhas vendidos em lojas” ou, no caso dos videogames portáteis, “console de bolso-games proprietários”. Estamos à mercê dessa padronização do mercado. Para a grande maioria, videogame é, foi e sempre será aquele negócio que é conectado a uma televisão e que é controlado por um joystick cheio de botões (e quanto mais, melhor). Mas quem é mais esperto já sabe que o paradigma do controle aos poucos está caindo, muito graças ao sucesso monumental do Wii da Nintendo (e os surgimentos do Kinect da Microsoft e do Move da Sony são as provas vivas disso). Mas não é apenas isso que está mudando. Os videogames hoje em dia são caros, complexos e com mais recursos do que a maioria consegue aproveitar. Também é preciso tempo para usufruir dessas máquinas com propriedade. E os jogos, então? Alguns exigem praticamente um phD do jogador para serem finalizados. Ou seja, não é lá para todo mundo esse negócio de PlayStation 3 e Xbox 360. Convenhamos, você só tem essa facilidade toda porque joga games desde que nasceu. A geração que veio depois da nossa também não tem nenhuma dificuldade em lidar com esses maquinários. Mas o que dizer dos nossos pais? Esses sim talvez encontrem algumas barreiras. E o que dizer daquelas pessoas de nossa geração – nascidas entre o final dos anos 70 e os anos 80 – que não consumiram games quando crianças? Também não é fácil para elas entender esse mundo de teclas, conexões, jogos em rede, ambientes tridimensionais ultra-realistas.

O que não quer dizer que essas pessoas com dificuldades não se interessem por jogos. E aí retorno ao ponto inicial desta conversa: todo mundo se interessa por games, nem que minimamente. E se não se interessa, é porque há algo bem errado – com a pessoa, e não com os games.

E por games, estou considerando de tudo: desde o joguinho de corrida do celular moderno até as incontáveis horas gastas no FarmVille e no Mafia Wars. Desde aquelas sessões infinitas de Winning Eleven com a narração do Galvão Bueno até as instigantes partidas cooperativas e sangrentas de Modern Warfare 2. Das horas perdidas na internet, seja jogando pôquer online, paciência, Ragnarök ou World of Warcraft. E aquela brincadeira bêbada e de ensurdecer vizinhos que é The Beatles: Rock Band? E o que dizer daquelas pessoas que passam horas interagindo e batendo papo com os amigos pelo Facebook, Orkut e Twitter? Ou vai dizer que, essencialmente, essas redes sociais não podem ser consideradas jogos também? De certa forma, são sim. É só observá-las pelo prisma adequado.

As grandes empresas do entretenimento precisam se ligar rapidamente que há mais gente interessada em jogar para se divertir do que gente disposta a gastar bastante dinheiro com isso. Videogame não deve ser necessariamente um hábito caro. Se a pessoa quer passar seu tempo livre pressionando botões e executando ações virtuais, ela fará isso em qualquer meio possível – seja sentado diante do sofá, seja apertando as teclas minúsculas de um telefone em um ônibus lotado. E se Nostradamus me der o direito, faço aqui uma previsão baseada muito mais em achismo do que em números: em breve, esse hábito de jogar videogame em casa e com a televisão se tornará o “alternativo”. E o mainstream será todo o restante – ou o que hoje em dia é chamado erroneamente de “casual”. É o game de baralho, o joguinho de colheita, a corrida no iPhone, ou aqueles social games malucos em que nada acontece, só papo furado, mas mesmo assim, vive cheio de gente. Pergunte ao cara ao seu lado no metrô que tipo de game ele joga. A resposta poderá surpreender você. E daqui alguns anos a gente volta a conversar sobre esse assunto.

*Pablo Miyazawa é jornalista. Além de editor-chefe da revista Rolling Stone e do blog Gamer.br , ele gasta o tempo livre teorizando sobre os hábitos das pessoas que ele não conhece. Um dia, é possível que isso tudo vire um livro. Ou vários. ou não.

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Um comentário sobre “Não joga games? Bom sujeito não é

  1. Calma Pablo. Não duvido que um dia os consoles de mesa virem o contrário do padrão, os “alternativos”. Isso meio que acontece no Brasil, mas simplesmente porque estamos começando. Ainda temos todo o ciclo pra percorrer. Ciclo este que nos EUA está em seu ápice. A notícia do novo Call Of Duty ter batido o recorde da versão anterior não me deixa mentir.

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