Discos de vinil é exemplo de formato que seus fãs não deixaram cair em desuso

TEXTO Demétrio Pereira (demetrio.pereira@gmail.com) e Rafael Gloria (rafaelglloria@gmail.com)

FOTOS Rafael Gloria

LADO A

1. Intro – O sujeito se apressa a chegar em casa. Urge fazer rodar a novidade que leva na sacola. Chega, certifica-se de que está sozinho, ajeita o bolachão no prato, apaga todas as luzes e se deixa viajar. Ouvir música, para este homem, é um ritual. Seria uma espécie agonizante, em desacordo com seu tempo? Parece que não. O amante do vinil é animal que não está – e nunca esteve – em extinção.

Colecionadores como esse habitam os brechós de Porto Alegre. Lá, rumores sobre a volta do vinil são rechaçados: “Aqui, sai mais vinil que CD. Sempre saiu mais. Esse negócio de ‘retorno’ é mentira”, diz Marcos Henrique, vendedor da Eletrônica TM (ou “Brique da Terezinha”), loja próxima ao Viaduto da Conceição com um acervo de mais de 80 mil LPs usados. Marcos fala enquanto um velho barbudo examina um dos muitos toca-discos antigos do lugar. O homem conserta os aparelhos e a loja os vende, uns dois por dia. Os preços variam entre R$ 200 e R$ 300: “Para nós, vale a pena. Achamos muita coisa no lixo, e tu não sabe o que tem de zelador de prédio que ganha essas coisas e vem aqui vender”, diz Marcos.

Ali perto, no Museu do Som, a opinião é semelhante: “Vinil vai ficar. É aquela coisa que nem livro: sempre tem um saudosista”, analisa o proprietário, Antônio Xavier. Diego Lima, da LED CDs, na Galeria Chaves, concorda: “Isso aí [a volta do vinil] é coisa da mídia. Aqui, sai um vinil a cada dois CDs vendidos, e isso que trabalhamos quase apenas com CDs. Quem curte LP nunca deixou de comprar”.

Toca-discos são consertados e vendidos quase que diariamente nos sebos do centro da cidade.

 2. Pescando fetiches – Em Porto Alegre, escassez de oferta não é desculpa. Proliferam vinis e toca-discos embaixo dos viadutos da Borges, da Silva Só e da Conceição, nas ruas “afluentes” da Oswaldo Aranha, no Brique da Redenção e na Feira do Vinil, evento mensal no Mercado Público. Agulhas podem ser encontradas em eletrônicas das ruas Alberto Bins, Coronel Vicente, Andrade Neves e na Galeria Chaves. Lançar o anzol na internet é sempre uma alternativa.

Mas colecionar vinis pode ser uma paixão cara. Prensas novas desanimam: na Livraria Cultura do Bourbon Country, um LP do Fleet Foxes de 2009 custa R$ 107, um clássico do The Band sai por R$ 99 e a “Super Deluxe Edition” (CD + DVD + LP) de Exile on Main Street, dos Stones, só é arrebatada por impensáveis R$ 746.

Os usados, não sendo raridade, têm o preço de um CD novinho. Álbuns clássicos dos Stones e dos Beatles, por exemplo, custam em torno de R$ 40. Sendo raro, então, a coisa aperta. Só no viaduto da Borges, conhecido ponto de pesca dos vinileiros, o disco triplo do festival de Woodstock sai por R$ 200 (Época Som), uma coletânea de canções brasileiras da Varig está valorizada – R$ 150 (Flora Discos) – e o primeiro álbum do Roberto Carlos é estipulado como o diamante dos LPs: R$ 3 mil, se achado. Na Qopo Santo, Racional, de Tim Maia, foi comprado por R$ 200.

Nos brechós, há como encontrar caviar a preço de sardinha, mas também se esbarra com os xodós dos vendedores, discos anunciados a preços exorbitantes justamente para não vender. Cedenira Xavier, que cuida da Flora Discos enquanto o marido está no Museu do Som, guarda um álbum duplo dos Mutantes embaixo do balcão. E ela nem escuta: “Só ouço música evangélica, e olhe lá. Mas, para levar este aqui, precisa arrancar de mim. Vai ter que pagar caro”, avisa.

Extravagâncias não são exclusivas aos colecionadores de vinis. Na LED CDs, um cliente do interior gaúcho chegou a pagar R$ 250 por um CD que já tinha. O motivo: duas faixas a mais, presentes apenas na versão japonesa do álbum. “O cara movido pelo fetiche não vai medir esforços para ter o que procura”, diz Diego Lima, responsável pela venda.

O mesmo acontece com qualquer objeto com o qual se crie uma relação ritualística, como a do sujeito que abriu nossa matéria. O que ocorre é que esse processo de “sacralização do objeto” parece inerente ao vinil. Mas por quê?

“O vinil é como uma namorada que tu nunca vai esquecer. É como a primeira transa”, diz Adacir

 3. Sagrado – “O vinil é como uma namorada que tu nunca vai esquecer. É como a primeira transa”, diz Adacir José Flores, entre goles de chá na Qopo Santo. Numa época em que a música é abundante como o ar e a internet deixa qualquer canção a um par de cliques, são mesmo um tanto mágicos os motivos que explicam a vida eterna do LP. Compõem o rol de explicações o peso, o tamanho, o encarte, o “chiado” e o “charme”.

O seu Rubem Prates, atendente da seção de jazz, blues e música erudita da Livraria Cultura do Bourbon Country, é um dos defensores do vinil. Com quase seis mil discos na sua coleção, ele lembra da qualidade sonora superior do bolachão: “O vinil tem presença, o CD é seco. O mp3, nem se fala. O processo de compressão de dados faz perder muita coisa nesses dois formatos. No vinil, há calor. Sem falar na peça gráfica trabalhada mesmo – a capa já era totalmente parte do conjunto musical, era pensada”, considera.

O músico e radialista Arthur de Faria observa uma tendência no modo de se escutar música. Dono de um acervo com mais de dois mil discos, entre eles dois álbuns de Elis e Tom (para ambos os artistas terem um LP alocado em seus respectivos espaços), Arthur acredita que fidelidade acústica é uma exigência de poucos: “Para quem pilha nessa coisa de áudio, o MP3 é um lixo, mas quem pilha é 0,5% das pessoas que ouvem música. Cada vez mais existe uma audição dispersa. Tu ficas três horas achando um som do bumbo na gravação do disco, e o cara vai ouvir em caixinhas ruins no computador ou com fones de ouvido na rua. A música está virando um pano de fundo”, constata.

O debate não é novo e remete à reflexão de Walter Benjamin sobre a “aura” da obra de arte. Para o filósofo frankfurtiano, a reprodutibilidade técnica das obras já as aleijariam de seu caráter transcendente. O problema é outro, mas a preocupação é a mesma: o que acontece quando o sagrado se torna mundano e trivial? Nesse caso, a devoção ao vinil é uma trincheira, um bunker em que a música ainda é algo a ser contemplado.

LADO B

Andréa Avila e seus xodós. Dentre os mais de 4 mil LPs da Garota Vinil, 200 vão para a noite porto-alegrense.

 1. Garota Vinil – É sexta-feira à noite no bar General Street, na rua Lima e Silva. Andréa Avila reveza entre dois pratos e posiciona as agulhas nos sulcos com destreza. O público passeia dos 1950 aos 1990 enquanto a Garota Vinil puxa mais um de seus 200 LPs de dentro de uma imensa caixa de plástico: “Lógico que dá trabalho carregar caixas de LPs, mas é uma maneira de transferir a sala da minha casa para os lugares onde trabalho. É a essência. O disco de vinil não é uma opção, é uma realização”, diz Andréa, dona de mais de quatro mil discos.

A realização se tornou festa há 11 anos, quando Andréa decidiu comemorar o Dia do Amigo colocando uns vinis para rodar. Desde o início, o repertório foi vasto, não respeitando limites temporais, geográficos ou de estilo: “Não existe um critério na seleção musical. Não me tornei DJ somente pelo amor à música, mas pelo amor ao disco de vinil – às capas, à sonoridade, aos encartes, às imagens, à história da música, à poesia que tudo isso proporciona”.

A heterogeneidade é confirmada pelo que vai nos caixotes. Ali vão, organizadinhas, discografias inteiras de artistas como Smiths, Nei Lisboa, Paralelo 30, Carlinhos Hartlieb, Almôndegas, Hermes Aquino, Janis Joplin, Bob Dylan, Beatles, Erasure, Nelson Coelho de Castro, Walter Franco e Tim Maia. A despeito dos gostos, o importante é a magia dos bolachões.

2. Sagrado II – Na Sinthonia Musycal, cheiro de incenso. O odor escapa à loja, chega ao corredor principal da Galeria Chaves, no centro de Porto Alegre. As prateleiras são coloridas por artigos esotéricos: astrologia, tarô, mandalas, estátuas religiosas, flores e agulhas para toca-discos. O último item pode parecer intruso, mas suscita tanta mística quanto seus colegas de loja. Todos os dias, ao menos seis pessoas aparecem procurando agulhas, e há uma venda diária de no mínimo quatro. Os clientes encontram o modelo adequado em um catálogo gigantesco que inclui agulhas já fora de produção. Entre as mais difíceis de encontrar, estão as Frahm e as Sansing: “Não é Samsung, viu?”, a vendedora faz questão de notar. Os preços variam de R$ 15 a R$ 55, dependendo de raridade ou de acompanhar cápsula.

Apesar de a agulha ser uma das responsáveis pelo poderoso som do vinil, qualquer mínimo problema com o objeto pode resultar em danos irreparáveis ao disco. Nem isso tira o entusiasmo dos seus apreciadores, que defendem a pureza e a integridade sonoras no bolachão, enquanto o CD e principalmente o MP3 não registram todas as nuances do som. Sabe-se que o áudio digital, ao contrário do vinil, pega amostragens da gravação, isto é, não capta todo o envoltório da música. Mas são cortes tão rápidos que a pessoa com um ouvido normal não percebe. É como se o CD formasse uma linha a partir de pontos minúsculos separados, enquanto o vinil forma uma linha sem nenhuma interrupção. Nenhuma questão de magia ou esoterismo, portanto. A superioridade do formato não é capricho de ouvidos e olhos, mas decorrência natural da gravação analógica. Soa retrô, mas a produção de vinis é um negócio que continua contemporâneo. 

A fábrica Polysom voltou ao mercado, fabricando, também, vinis brasileiros

 3. Direto do forno – Depois de ouvir a história de sucesso  de um camarada que havia iniciado uma loja especializada em peças para Fuscas, João Augusto teve certeza de que faria um bom negócio ao comprar a Polysom, então quase falida fábrica de vinil do interior do Rio de Janeiro. “Havia poucos Fuscas rodando por aí, e nenhuma loja especializada em peças para reposição. A loja do amigo bombou, porque os proprietários de Fuscas só tinham a ela para recorrer. O mesmo acontece com a Polysom”, explica. Desde novembro de 2009, depois que foi comprada por sócios da gravadora DeckDisc, entre eles João, a Polysom foi reestruturada, e agora tem capacidade de produzir 28 mil LPs e 14 mil compactos por mês, se estabelecendo como a única fábrica de vinis da América Latina.

Muitos artistas apoiaram a proposta de reativação da fábrica, entre eles Lenine, Cachorro Grande e Pitty – a maioria com trabalhos também lançados em vinil. João diz que o bolachão nunca deixou de ser importante e que, mesmo depois do surgimento dos CDs, continuou comprando LPs e manteve o toca-discos. “Quando a gente topou entrar nessa verdadeira cruzada que é a volta da Polysom, não tínhamos muita ideia do quanto o vinil ainda era cultuado. Agora, a sensação é a de que o formato acordou de repente. Todo mundo fala em vinil e, ao que tudo indica, todo mundo quer vinil”.

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Bônus – Memória ameaçada

Sabe-se que o Viaduto da Borges é um lugar histórico da cidade. Ali há um comércio tradicional, sebos, conserto de calçados, barbearias. Há 10 anos, o bar Qopo Santo foi interditado pela Prefeitura para reformas. Banheiros e azulejos de origem portuguesa foram retirados. Havia o receio de que as pessoas fossem “morar ali”. Sem os necessários WCs, a Qopo Santo virou mais um estabelecimento de venda de vinis, CDs e livros usados. Agora, a Prefeitura quer mandar os empreendimentos históricos da Borges para o Camelódromo, a fim de deixar as locações para uma empresa privada. Isso teria a ver com a reformulação de parte da cidade para o recebimento da Copa do Mundo de 2014. A medida causou a revolta dos comerciantes e moradores, tanto que, em apenas dois meses, já foram reunidas cerca de três mil assinaturas contra a proposta. A Arccov, Associação dos Comerciantes do Viaduto, com a ajuda da Associação de Moradores do Centro, está organizando a defesa do comércio e da preservação do patrimônio histórico e cultural que forma esse importante espaço geográfico. Mais informações podem ser encontradas no blog da associação: http://arccov.blogspot.com/.

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Jornalista, mestrando em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras e nas pessoas. Twitter: @rafaelgloria
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