Ieve Holthausen, 25 anos, cinco deles dedicados à fotografia. (Crédito: Sérgio Guidoux Kalil)

TEXTO Fernanda Botta

FOTOS http://www.flickr.com/photos/ieve/

Antes mesmo que eu dê início à entrevista, ela dispara: “Não tenho nada pra dizer”. Mas é difícil acreditar. Há poucos minutos, recebeu-me sorridente no corredor do prédio. Vestindo jeans, camiseta e tênis, esperava na porta do elevador, carregando no colo um grande gato laranja. “Esse é o Maru?”, perguntei. Ela assentiu, com outro sorriso. Maru é o novo habitante do apartamento que divide com o marido, Sérgio. Então falamos sobre o calor insuportável de Porto Alegre; as últimas de amigos em comum; a nova decoração da casa. Ela me ofereceu água. Eu era uma visita qualquer, em uma tarde preguiçosa.

É só agora, que está sentada na sala de estar, esperando que eu comece,  que lhe faltam as palavras. Mãos sobre os joelhos, olhos baixos, parece constrangida pela ligeira formalidade da ocasião. Embora eu a conheça há alguns anos, estou aparelhada com bloco, caneta e gravador, pedindo que me conte sobre a sua vida e o seu trabalho. Compreensivelmente, as circunstâncias lhe roubam a espontaneidade. E assim, entre silêncios, ela procura responder às minhas perguntas.  Busca descrever aquilo que percebe com o olhar.

Porque, na verdade, o olhar é a sua voz. É através dele que ela melhor se expressa. Ieve Holthausen, 25 anos, cinco deles dedicados à fotografia, entre mercado e formação acadêmica – graduou-se em agosto no curso de Design, com ênfase em marketing, da Escola Superior de Publicidade e Marketing (ESPM-RS), e estudou retrato na St. Martins College, durante sua estadia em Londres-, capturava momentos antes mesmo de empunhar uma câmera e decidir que ela seria o seu instrumento de trabalho. “Eu acho que sempre tirei fotos visuais, só não pensava que podia guardar isso, fazer disso uma foto”, conta. Foi influenciada por um amigo, o também fotógrafo, músico e escritor Douglas Dickel, que pensou em registrar o que via com a câmera: “Eu vi as fotos dele e pensei “bah, eu vejo essas coisas também”. Então comecei a produzir num estilo bem parecido, a fotografar esses detalhes da vida que passam despercebidos. Coisas que tu encontras no chão, coisas estranhas assim”.

E assim pode ser percebida a fotografia de Ieve: como o registro das pequenas coisas, estranhas  e bonitas, que  povoam o seu cotidiano. De insetos  e bolhas, em escala aumentada, a placas de rua, passando por detalhes de velhos livros de botânica e retratos de amigos, ela imprime seu olhar sobre o que a cerca.  De forma mais experimental no Flickr que leva seu nome, “ieve”, e outra mais intimista, no “sweettuidowhome”, perfil em que coleciona fotografias de viagens, do marido, dos amigos, da casa.

Mas o olhar é sempre o mesmo. “Só fotografo o que gosto. Faço fotos para outras pessoas, faço o meu melhor, mas o que compartilho é meu, são coisas com as quais me identifico, que acho bonitas”, revela. Mas seria então uma busca pelo belo? “Não é bem isso, porque o sofrimento também pode ser bonito. Mas eu não fotografaria alguém bêbado ou vomitando, alguém se dando mal. Não sei como explicar… É complicado”, responde.  De certa forma, entendo o que ela quer dizer.

Ieve é delicada. Baixinha, miúda, de fala mansa, volta a rir com facilidade quando deixamos a sala para ver alguns de seus trabalhos no escritório. Está mais à vontade, e se diverte ao recordar um primeiro contato com a fotografia que havia esquecido de me contar, com a família. Na sua página, mostra algumas fotos feitas pelo pai: “Meu pai fotografava com uma câmera muito simples, mas mostrava coisas da vida dele e da minha mãe. A história dos meus pais é incrível, e quando eu era pequena adorava essas fotos, carregava comigo na agenda. Pensava que a fotografia era incrível, porque podia transportar as pessoas para dentro daquele momento”.

São fotos típicas da juventude dos anos 1970, vivendo a última onda de paz e amor.  Ela conta: “Minha infância foi muito estranha, ia ao Santo Daime com meu pai, passava as férias fazendo ioga com a minha mãe…”. A mãe, Denise,  é professora da prática indiana. O pai, Rogério, nas horas vagas pintava quadros e os vendia no no Brique da Redenção. Para aproximar-se dele, Ieve fazia uso de outro talento seu, o desenho. “Eu desenhava para ganhar a atenção dele, porque ele adorava, do tipo, eu estava seguindo os passos dele”, ri. Alguns desses desenhos ganharam um álbum no seu perfil “ieve”.

Ela provavelmente ainda relembra esse tempo quando mudo bruscamente o rumo da conversa para um outro: o futuro próximo. Ieve ainda descarta uma exposição: “Acho que o trabalho não está pronto. Eu não faço muito séries. Falta uma unidade, que é essencial para uma exposição”. Mas deseja, sim, voltar a publicar material nos seus perfis no Flickr, cujas últimas atualizações foram feitas entre junho e julho. “Eu vou voltar, só estou nessa fase de me desconhecer para me conhecer de novo, saber o que vou postar agora”, conclui.

Também está nos seus planos deixar o Brasil por mais tempo do que os seis meses que esteve na Europa no ano passado, quatro deles em Londres, os outros dois viajando pelo continente. Mas sua decisão nada tem a ver com oportunidades profissionais: “Sinto saudade dos parques, das ruas, dos pubs, da facilidade de viajar para outras cidades incríveis pagando pouco, das diferentes pessoas e culturas, da tranqüilidade, voltar de madrugada caminhando na rua, relaxada…”. Ainda penso em sugerir que essa seria uma boa oportunidade para concluir a sua reciclagem, mas me calo. A tarde já foi muito cansativa. Para quem não tinha nada a dizer, Ieve  já disse muito.

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