Público é o responsável pela evolução do evento e da arte

TEXTO Luana Fuentefria

FOTOS Mariana Gil

Há quem defenda que em Porto Alegre não há praia. E não há, de fato. Há 12 anos, no entanto, a capital apresenta aos olhos sedentos por distração cenários que, se não substituem a areia e o mar, preenchem as sensações dos gaúchos durante o verão – os levando, muitas vezes, a lugares além do litoral. Tudo com a vantagem do conforto do ar condicionado.

O Porto Verão Alegre – que realiza sua 12ª edição em 2011, entre 11 de janeiro e 16 de fevereiro – desvia a rota da freeway nos meses mais quentes do ano. No lugar de carros correndo unicamente ao leste em busca do refresco das praias, a praia de muitos gaúchos é permanecer por mais dias na metrópole para viajar por outras paisagens a um custo pouco mais elevado que o de um pedágio. Os mais de trinta graus do verão úmido da metrópole são ignorados por aqueles a quem somente importa chegar antes que o espetáculo comece.

Zé Victor Castiel e Rogério Beretta (no espetáculo Homens de Perto) acreditam que produzir teatro os faz ainda mais artistas. (Crédito: Divulgação)

“O público sabe que o calorão que passamos durante o dia pode se transformar em algo muito agradável pela noite”, atribui um dos criadores do evento, Zé Victor Castiel, que até hoje dedica os 12 meses do ano a fazer que, pelo menos, uma noite em uma das salas de espetáculo da capital seja tão confortável quanto um fim de semana na praia. Para isso, ele, juntamente com o também ator e produtor Rogério Beretta, alia a atuação nos palcos – ambos protagonizam o sucesso de bilheteria Homens de Perto – à produção de peças do Porto Verão Alegre. Com esse esforço, de quem objetiva exercer a profissão sem sair da terra natal, ambos realizam um ciclo de desenvolvimento do teatro gaúcho.

A cada ano, o público sente com mais frequência e intensidade o conforto de permanecer em Porto Alegre, ao menos durante as noites. E é perceptível que a lotação dos teatros vem aumentando nas últimas edições do evento, fato que indica que deve-se melhorar a estrutura a cada edição para que os espaços continuem a ser preenchidos. Zé Victor lembra que o festival foi criado justamente para ser um diferencial do que havia no circuito. Por isso, é imprescindível que o público não se acotovele para comprar ingressos e assista às peças com ar condicionado. A comodidade também inclui o bolso. Pelo quinto ano seguido, os ingressos não tiveram aumento, permanecendo entre R$ 10 e R$ 20.

Além das melhorias, que beneficiam artista e espectador, a principal novidade desse ano é a conquista de incentivo fiscal, por meio da Lei Rouanet. Graças a isso, pelo menos 20% dos artistas receberão um cachê. Para o próximo ano, os organizadores pretendem captar recursos para todo o evento, ainda que, conforme Zé Victor, o pensamento mercantilista nunca tenha passado pelas suas mentes. “O Porto Verão nasceu para ser um evento de camaradagem cooperativada. E tem muita gente que pensa que o evento é para ganhar dinheiro no verão”, defende, lembrando que esse é o maior evento cooperativado de teatro da América Latina.

Cerca de 20% dos artistas já recebem cachê pela Lei Rouanet

Seguindo o seu objetivo inicial, de estabelecer um momento do ano para a divulgação do teatro gaúcho, o uso de possíveis recursos extras sempre é pensado em favor da arte. O próximo passo, depois da melhoria já realizada nas salas existentes, é a construção de um espaço próprio, para que as temporadas de sucesso não sejam reduzidas por falta de locais para sua permanência. E para que o público possa seguir ansiando por mais paisagens que não os do litoral gaúcho.

Incentivado pelo público, evento é mais um braço para a manutenção do teatro gaúcho

Ainda que não prescindam da iniciativa privada, a ideia é que o festival se sustente graças ao público. O que não é difícil, considerando-se as cerca de 70 mil pessoas que lotam os teatros a cada ano. “Não temos vontade de conceber um trabalho para não ser visto. O melhor reconhecimento é a venda de ingressos, e não o vender projetos e fazer espetáculos para serem apresentados em uma só semana, garantindo a remuneração com dinheiro público. Não é a nossa intenção”, defende Zé Victor, que lembra que muitos artistas abrem mão do público em prol do rótulo de “clássico”. “Acredita-se que teatro que tem muito público é ruim. Que bom mesmo é teatro clássico”, observa.

Salas tem recebido melhorias para maior conforto do público

O evento, que iniciou com seis espetáculos em cartaz, chegou a ter 120. Muitos deles, montados somente para a participação no Porto Verão, o que fez cair a qualidade do circuito. Atualmente, as peças estão no evento por convite. A triagem é feita da maneira mais ampla possível – “sempre garantindo a qualidade”, lembram os organizadores – para que não haja discriminação. Afinal, quem realmente seleciona é o público. As que anualmente voltam aos teatros em função da aceitação se tornam clássicos do circuito gaúcho. Beretta observa que o festival tem de tudo, peças ruins e boas. Porém quem manda, e quem faz que o evento não se desintegre, mesmo sob o insuportável calor porto-alegrense, é a fiel plateia.

Público esse que possibilita aos organizadores do evento, Zé Victor e Beretta, que também produzem e atuam em espetáculos, viverem da arte no estado. “Gosto de fazer teatro, e teatro aqui”, garante Beretta. Por isso para ele é ainda mais importante essa autossustentação. Zé Victor lembra que um artista poder viver da própria profissão em uma cidade como Porto Alegre é compensador. Para ele,o fato de trabalharem como produtores, viabilizando a manutenção do teatro e da cultura porto-alegrense em uma época antes improvável, os torna ainda mais artistas.

Confira a programação do festival aqui: http://www.portoveraoalegre.com.br

Fotos do Espetáculo “Larissa não mora mais aqui” em cartaz no Porto Verão Alegre:

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