127 horas demonstra alguns exageros técnicos de Danny Boyle (Crédito: Fox Filmes)

É difícil classificar os filmes de Danny Boyle. Todos eles têm um pouco de cada gênero em um seu enredo, por exemplo, é o que vemos em Quem Quer Ser Milionário?: há espaço para aventura, suspense, fantasia, cenas de fortes tragédias e, é claro, o amor.  Que, no final, é o porquê de toda a trama. É mais ou menos como funciona também em 127 Horas, um filme que pode facilmente ser classificado como de sobrevivência, ou erroneamente comparado ao longa de Sean Penn, Na Natureza Selvagem. Diferente deste, em 127 Horas não há um grande questionamento sobre a sociedade, ou o comportamento do ser humano. O que se vê aqui é um filme esforçado focado na busca pela sobrevivência com toques de fantasia e de amor, típicos de Danny Boyle.

É importante lembrar que é uma história real, ainda que pareça, por si só, uma peça de surrealismo. Acompanhamos Ralston, engenheiro por formação e um aventureiro perspicaz . Ele passa finais de semanas escalando montanhas e, até então, nenhuma tragédia havia acontecido a ele. Logo no início da trama seu caminho se cruza com um par de garotas que têm pouca experiência e não conhecem bem a região. Elas não são muito importantes para o filme, então a câmera de Boyle não se ocupa muito tempo com elas. São importantes, isso sim, como símbolo icônico, como uma imagem que Ralston vai procurar mais tarde em seu desespero físico e real. Ele resolve mostrar para elas um pouco do lugar e acabam se divertindo em uma piscina natural, dentro de uma caverna. Lá tiram fotos, filmam os mergulhos, a câmera digital de Ralston, essa sim, se ocupa com elas. Após isso, ele segue sozinho com a sua exploração.

Então durante o início da sua trilha Ralston acaba se acidentando, após derrapar em uma trincheira – na realidade, um acidente bem banal. Ele acaba caindo em uma fenda e uma grande pedra prende o seu braço direito, tornando o incapaz de se locomover. É a partir daí que de fato as 127 horas começam, o longo e solitário processo de encarar o problema. Na verdade é no modo de encarar isso que o filme se prega uma armadilha, ou melhor, Boyle faz isso porque ele não consegue apenas mostrar o que está acontecendo.

A partir daí a trama se conduz para um clima existencialista uma vez que ele começa a repassar a sua vida. Arrepende-se de não ter dado mais a atenção aos seus pais, ou de não ter se dedicado s a encontrar algo pelo que realmente goste de trabalhar. Todas essas lembranças são construídas a partir de flashbacks, por vezes coerentes, por vezes não. É aqui que o filme deixa a desejar porque acaba caindo no modo mais simplista de lidar com a situação: Danny Boyle não mostra a beleza que está em tentar se retratar, e se arrepender do que acontece, embora James Franco, que interpreta Ralston, se esforce o máximo para isso. Quero dizer que a simples narratividade crua do que está acontecendo teria mais efeito do que os apelos que Boyle recorre como aparições de lembranças como “fantasmas”, dividir a câmera em três partes como se fosse um videoclipe, etc.

Ele acerta com a poder da imagem representada pela câmera digital de Ralston. Durante boa parte do tempo o personagem conversa com ela, deixando recados para os parentes, contando história, revendo as gravações das garotas e do mergulho na piscina natural que fizeram. É engraçado como essa câmera digital é também de certa a única ligação que ele possui com um passado recente e, por muito tempo, a única coisa que ele poderia deixar para o futuro, caso morresse. Mas depois de quase cinco dias, depois de muito tentar escapar sem sucesso, já sem água e sem mais nenhum alimento, Ralston depois de uma série de ilusões, incluindo aí seu caso amoroso que não deu certo e pelo qual se arrepende –  e mais uma vez aí observamos o amor, como combustível nos personagens de Boyle – ele decide fazer o improvável necessário. Amputar seu braço direito com um pequeno canivete quase sem fio. Não havia outra solução. A cena é mostrada em enlaces, não se observa todo o trabalho de açougueiro sendo feito, mas pode chocar os mais sensíveis. E imaginar que isso realmente aconteceu…

127 Horas é um dos filmes mais razoáveis da carreira de Danny Boyle, e apesar de o filme mostrar um James Franco mais adulto e inspirado não deve abocanhar nenhum prêmio da Academia.

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Jornalista, mestrando em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada – Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras e nas pessoas. Twitter: @rafaelgloria

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