Colin Firth tem reais chances de levar o Oscar de Melhor Ator (Crédito: Weinstein Company)

Agoniante e rigoroso consigo mesmo, esse é o filme O Discurso do Rei de Tom Hooper. A premissa poderia afastar algumas pessoas do cinema, porque pode ser muito fácil categorizá-lo como classicista, ou um filme de época centrado na família real britânica (afinal, quantos e quantos filmes sobre o tema já foram realizados?). Ok, é um filme sobre a família real britânica, mas não é ela o centro das atenções e sim um dos monarcas e seu conflito que, analisando de fora pode parecer fraco, mas graças ao ótimo roteiro de David Seidler se torna estupidamente atraente.

A trama de O Discurso do Rei gira em torno de uma nota de rodapé da história da família real inglesa. A época que o filme se passa é particularmente dramática – a declaração de guerra à Alemanha nazista. O que, todos tinham consciência, levaria a Europa a mais um longo conflito. E nessas condições é necessária a liderança de uma personalidade forte – no caso da Inglaterra nada mais natural que o seu rei – para guiar o país. Aí que entra a trama do filme, um dos sucessores do trono e protagonista do filme, Albert Frederick Arthur George , o Duque de York, sofre de problemas emocionais graves, e o pior deles é a sua gagueira. Um problema que vem desde a sua infância, assim como as fortes dores no estômago. Acontece que as circunstâncias também estão contra ele: seu pai, o rei George V falece, e o seu irmão mais velho, naturalmente o próximo a assumir o trono, abdica porque decide se casar com uma plebeia norte-americana.

Naquela época começava a surgir às transmissões de rádio, e, cada vez mais, ganha importância esse tipo de comunicação. É hora de ele encarar o microfone, o verdadeiro antagonista do filme e vencer o seu transtorno, e, assim, também virar o comandante capaz de liderar seu país contra a onda nazista. O longa traça um pequeno paralelo – ainda que tímido – com a gigante eloqüência com que Hitler fazia os seus discursos, um contraponto ao gaguejo e a baixa autoestima de Albert.

Trata-se de um filme de diálogos, e diálogos excelentes justamente na figura dos dois personagens principais: o futuro rei Albert, papel de Colin Firth, e o seu fonoaudiólogo Lionel Logue, um ótimo Geoffrey Rush. Quer dizer: explorar como um cidadão e membro da família real podem conviver a ponto de conseguirem manter uma amizade muito próxima é o que carrega o filme. E isso nasce justamente das consultas médicas em que o problema da gagueja diminui gradativamente. No começo, os métodos de Lionel de tratar o transtorno não são bem recebidos por Albert, mas, com o tempo, o carrancudo duque vai conseguindo se abrir cada vez mais, uma vez que percebe que o tratamento realmente está dando efeito.

O olhar oblíquo de Lionel (Crédito: The Weinstein Company)

Lionel é um personagem muito interessante, uma vez que possui uma obliqüidade que só traz mais dignidade ao filme. Ele tem algumas qualidades que faltam a Albert, e talvez a maior delas seja a ambição. Nota-se, ele não é apenas um fonoaudiólogo, gosta muito de atuar e tentou inúmeras vezes entrar em algumas peças, mas nunca obteve sucesso. É ele que planta a ideia de que Albert poderia ser rei, e que ele deve almejar isso. É um coadjuvante que gostaria de estar mais a frente, logo ele também  está deslocado. Assim como sente-se Albert, que nunca se viu como rei. O ator Geoffrey Rush consegue traduzir isso muito bem principalmente pelo modo de olhar à Albert, e em suas reticências quanto ao trato diferenciado com o monarca. Mas ele entende o limite que essa amizade impõe, apesar de a última cena ser categórica: depois que ajudou Albert a  fazer um ótimo discurso inflamado e anunciando a guerra contra a Alemanha, ele observa o rei e sua família abanando para os seus súditos, como se quisesse, ou como se achasse que merecesse estar ali também.

A fotografia torna essa obliqüidade muito interessante. Muitas vezes a câmera está deslocada, focando Albert e Lionel em planos fora do enquadramento normal. Trazendo essa sensação de desconforto que permeia todo o filme. Mas sensações de desconforto e de agonia gostosas e necessárias para um drama tão competente e elegante como O Discurso do Rei.

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Jornalista, mestrando em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras e nas pessoas. Twitter: @rafaelgloria
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