Inverno da Alma é o filme "indie" da vez. (Crédito: Roadside Attractions)

O que seria Inverno da Alma? É o filme de baixo orçamento que chamou a atenção do público e dos críticos depois de estrear no início do ano passado no Festival de Sundance nos Estados Unidos. É também um filme de “nicho”, como gosto de falar, pois a academia vem preenchendo os dez indicados ao oscar de melhor filme por categorias. É nessa de filme de baixo custo, e com uma temática mais sombria que “Inverno da Alma” participa. Falo categorias, porque desde 2007 há esses filmes mais independentes presentes na cerimônia e a partir de 2009 também começou a tendência de animações serem indicadas ao oscar de melhor filme. Talvez por isso o aumento no número de filmes indicados ao maior prêmio.

Inverno da Alma tem o mérito de ser um filme que se fez sozinho. Como foi escrito no primeiro parágrafo, é uma produção de baixo custo com nenhum grande ator conhecido, mas que recebeu reconhecimento da crítica e também do público. Foi conquistando o seu lugar. É baseado em um livro do famoso escritor americano Daniel Woodrel que praticamente inventou um gênero, o Country Noir. Isso porque seus livros remetem a um thriller normalmente ambientados no interior dos Estados Unidos.

E é o caso aqui, nessa adaptação, onde acompanhamos uma adolescente de 17 anos, Ree, responsável por seus dois irmãos menores e sua mãe doente, que vive em um estado de constante desequilíbrio mental. A situação se agrava mais quando a moça é procurada pela polícia para entregar seu pai, um traficante que vem cumprindo a pena em condicional. O problema é que ele usou a sua casa como garantia para a fiança e desapareceu tornando-se, assim, um procurado. Ree, não vê outro jeito do que encontrá-lo para permanecer com o único bem que a sua parca família possui: a casa.

A premissa do filme apesar de ser clichê torna-se interessante uma vez que a busca de Ree atrás de seu desaparecido pai também nos proporciona conhecer o tipo de sociedade em que ela está inserida. Trata-se de uma comunidade chamada Ozark Mountain dominada pela produção de droga e pelo patriarcalismo. A palavra e a família são os que formam as verdadeiras leis da região. É por essa ótica que pode se perceber que o que realmente chama a atenção em Inverno da Alma: as mulheres e a sua capacidade de lucidez . A maioria dos homens presentes no filme são violentos, drogados e descontrolados. O personagem masculino mais próximo de Ree e que lhe ajuda nos piores momentos é Teardrop, mas que, como a própria personagem diz, “lhe dá calafrios”.

Não que as mulheres sejam melhores, mas elas são mais decididas a dar fim aos problemas. Boa parte do filme acompanhamos Ree atrás do seu pai, que na verdade já está morto, e percebemos que os homens, esses sim, são os mais viciados e confusos, totalmente sem noção da realidade que os envolve. Mesmo Teardrop, o mais lúcido deles, tenta ajudar Ree, mas não tem muito sucesso. Somente quando outras mulheres que conheciam o paradeiro do pai de Ree resolvem dar cabo a questão, o problema é resolvido. Inverno da Alma consegue prender o espectador porque é fiel ao seu roteiro e a sua premissa desde o início. A fotografia cinzenta azulada só traz mais força a atmosfera decadente que permeia toda a trama de Ree.

Detalhe para a cena em que as mulheres – incluindo aí, a Ree – ajudam a protagonista no encontro do corpo do seu pai que estava debaixo de um lago. Para provar que ele estava morto e conseguir a casa para ela, Ree tem que cortar as duas mãos do corpo já apodrecido de seu pai e entregar a polícia. É uma cena fortíssima e muito bem conduzida, uma vez que a atmosfera decadente já está estabelecida desde o início do filme. Essa cena é melhor que o filme em todo em geral, e talvez por causa dela, seja o principal motivo para assistir Inverno da Alma.

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Jornalista, mestrando em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras e nas pessoas. Twitter: @rafaelgloria
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