A dubiedade narrativa em Cisne Negro (Crédito: Fox Searchlight Pictures)

Há uma coisa curiosa em Cisne Negro* e que me lembrou uma passagem do filme Adaptação de Spike Jonze. Na cena de Adaptação, o protagonista, um roteirista desesperado para concluir um script, pedia dicas para um professor renomado na área. Então, o professor revela que para uma trama funcionar ela não precisa necessariamente prender o leitor desde o começo do filme: basta que a cena final seja arrebatadora. “Tenha isso em mente e você vai conquistar o público”, ele diz. É essa impressão que tive de Cisne Negro. O filme tem um final apoteótico e uma bela conclusão do seu conflito – no caso o problema da protagonista Nina – tão bem amarrado que a impressão que se tem é que o filme todo foi assim.

Verdade seja dita: poucos diretores atualmente conseguem falar tão bem sobre as vicissitudes do ser humano do que Darren Aronofsky. Normalmente em seus filmes acompanhamos a trajetória de um personagem que sofre de problemas conscientes, isto é, relações conturbadas, vícios, trajetórias de vidas mal resolvidas, conflitos internos. Vide O Lutador, Réquiem para um SonhoPi… todos personagens com alguma obsessão, lutando para, enfim, encontrar uma espécie de lugar no seu mundo.

Com Cisne Negro não é diferente. Aqui observamos a trajetória de Nina, uma bailarina já não tão jovem assim que se agarra com unhas e dentes a uma grande oportunidade: dançar os dois papéis principais na montagem do Lago dos Cisnes, Odette, Cisne Branco e o de Odile, Cisne Negro. Acontece que a moça interpreta muito bem o papel de Cisne Branco, mas encontra dificuldades na hora de se entregar à personagem de Odile.

O que se vê após isso é uma ótima paranóia cinematográfica que evoca filmes como Repulsa ao Sexo de Polanski, e até metamorfoses ambulantes traçando um parâmetro literário com Kafka e sua Metamorfose ou, para ficar no cinema mesmo, com A Mosca de Cronenberg. O problema de Nina é que sua obsessão em ser perfeita também não lhe permite a entrega que é tão necessária na dança, ainda mais no papel do Cisne Negro. Nina tem uma vida regrada, cercada por uma mãe superprotetora e também pode se inferir que tem certos problemas psicológicos, afinal, causa machucados em si mesmo sem ter consciência disso. E é justamente no modo como Aronofsky faz para “mostrar o que não é mostrado” que traz à tona o suspense psicológico do longa. É verdade que, algumas vezes, chega a forçar um pouco nos delírios de Nina principalmente nos excessos de machucados que muitas vezes parecem não ter sentido. Ele é mais feliz nas partes em que a imagem da “outra” Nina se sobrepõe em outra pessoa, justamente quando começamos a acompanhar sua “transformação” em Cisne Negro. Uma das cenas chaves é aquela em chega a “fazer sexo” consigo mesmo projetando-se na sua rival, a bailarina interpretada por Mila Kunis. As alegorias são o ponto forte do filme.

Natalie Portman demonstra forte carga emocional como Nina (Crédito:  Fox Searchlight Pictures)
Natalie Portman demonstra forte carga emocional como Nina (Crédito: Fox Searchlight Pictures)

Transtornada e obsessiva pela perfeição, Nina resolve encarar o próprio problema entrando de cabeça na história do Lago dos Cisnes, ainda que inconscientemente. É por isso que falando em termos práticos o filme possui essa perseguição da própria Nina em encontrar seu Cisne Negro, finalmente domá-lo e vencê-lo. Acontece que para Nina não basta conseguir domar a sua “outra” parte, tão necessária para dançar o espetáculo. Ela precisa dar a sua própria vida para acabar o espetáculo com perfeição. Tudo isso acontece nos quinze minutos finais do filme em que ela finalmente encara o Cisne Negro, como se também domasse uma outra parte do seu ser, o que nunca esteve presente fisicamente, mas se anunciava durante toda sua trajetória.

Sobre a Natalie Portman reservo-me a dizer que esse filme provavelmente será um divisor em sua carreira. Completamente amadurecida, ela encarou a personagem de modo a encarar a si mesmo. Além dos componentes físicos necessários que teve que passar (emagrecimento, aulas de ballet), mostrou forte carga emocional para encarar personagem tão dúbia e tão fascinante psicologicamente.

*Indicado a cinco Oscar, entre eles Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Atriz.

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Jornalista, mestrando em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras e nas pessoas. Twitter: @rafaelgloria
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