TEXTO Daniel Sanes e Leila Ghiorzi

FOTOS Wagner Cardoso

Aos 50 anos de idade – começando a carreira, como ele mesmo diz – Tiago Flores, regente da Orquestra de Câmara da Ulbra, aceita um novo desafio para 2011: assumir a direção artística da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. O bom filho à casa torna, diriam os mais antigos: Tiago já foi diretor artístico e maestro titular da Ospa entre os anos de 1999 e 2001.

Tiago Flores comenta sobre as dificuldades da gestão

Depois de dez anos, a volta à instituição mudará a rotina do maestro. Ele precisará dividir o tempo entre as duas orquestras, mas garante que isso não será tão difícil quanto parece. Com energia de um menino e coragem para falar sobre assuntos delicados, como o atual estado de abandono da Escola da Ospa e a dificuldade de formação de músicos no Rio Grande do Sul, o regente planeja diversificar o repertório das apresentações sem que isso altere o perfil da organização.

Pelo menos durante seu primeiro ano de gestão, o cargo de regente será exercido por maestros convidados. Para o início da temporada, a convidada será a maestrina Ligia Amadio. Ela comandará os músicos no concerto de estreia, marcado para o dia 22 de março no Teatro Dante Barone. Para os próximos eventos, grandes nomes nacionais e internacionais já estão confirmados, como Federico Garcia Vigil, Roberto Tibiriçá, Cláudio Cruz, Roberto Duarte e Enrique Ricci.

Tiago Flores é formado em regência pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (fundação que elogia nesta conversa) e fez especialização em regência orquestral em São Petersburgo, na Rússia. Apesar de reservar as manhãs para estudo, ele abriu uma exceção e recebeu a equipe do Nonada na sede da Ospa, onde concedeu esta entrevista.

Nonada – O que significa, para a Ospa, a separação dos cargos de diretor artístico e regente titular?

Tiago Flores – Muitas orquestras do mundo inteiro já se organizam desta forma. Algumas sequer têm regente titular, apenas o diretor artístico, e trabalham com regentes convidados. As orquestras vão construindo um modo de trabalhar; algumas também possuem uma comissão artística, como é o caso da Ospa, formada por músicos que assessoram o diretor artístico. Cada uma se arruma do jeito que funciona melhor. A Ospa já funcionou de várias maneiras. Agora, ocorreu um pedido dos músicos para o secretário de Cultura (o escritor Luiz Antônio de Assis Brasil) para que se tentasse trabalhar dessa forma, com o cargo de diretor artístico dissociado do de regente titular, sem que tivesse obrigatoriamente que ter um regente titular. Essa é uma ideia que será construída ao longo desse ano. O diretor artístico é a pessoa que cuida da parte da programação artística. Além do gerenciamento junto à orquestra, ele estabelece as linhas da programação durante o ano, em termos de repertório, até quantos concertos serão feitos, que tipo de séries a Ospa vai fazer. Já o regente titular vai lá, faz o concerto e vai embora, não tem um envolvimento com a programação.

Nonada – Então a ideia é a Ospa trabalhar com regentes convidados, em vez de ter um titular?

Flores – Sim, em 2011 teremos regentes convidados. Já estamos selecionando os convidados, e a maioria foi indicada pelos próprios músicos. Alguns regentes já tiveram passagem pela Ospa e foram muito bem, acabaram voltando duas, três vezes. Aceitar as sugestões dos músicos também é uma forma de valorizá-los e estimular a participação deles.

Nonada – Se esse sistema der certo, ele pode se estender pelos próximos anos, além de 2011?

Flores – Aí já não depende só de mim, mas do presidente da Ospa e também do secretário de Cultura. Eu acho que vai dar certo. Os nomes que já temos confirmados para este ano são muito bons. A primeira convidada é a maestrina Ligia Amadio, que é paulista e já tem uma carreira internacional consolidada. Pela primeira vez a Ospa terá uma maestrina à frente dos músicos.

“A Escola da Ospa está quase parada. Não é simples recomeçar o trabalho, exige contratação de pessoal. Pra começar, mais uns 12 ou 13 professores. Isso, no estado, não é tão simples.”

Nonada – Quais são os planos para a Ospa em 2011?

Flores – Concertos no interior e aqui em Porto Alegre, em igrejas e no Salão de Atos da UFRGS. Esses são os que integram a série oficial, mas também faremos concertos didáticos em escolas públicas. Nos domingos de manhã, os concertos para a juventude ocorrerão na UFRGS, com um repertório mais leve, adequado para toda a família. Pretendemos também fazer alguns concertos populares.

Nonada – Como vocês estabelecem os repertórios?

Flores – O repertório tem que ser adequado ao local físico, seja uma igreja ou ao ar livre ou a um teatro. Cada lugar tem sua característica e cada repertório tem que se adequar a isso também, e à comunidade para a qual você está tocando. No domingo de manhã, por exemplo, como o público é mais família, pais e filhos, tem que ser algo mais dinâmico, sem sinfonias muito longas. Cada local tem uma especificidade de repertório e de regente.

Nonada – Em uma recente entrevista, você disse que pretende modernizar a Ospa. Como isso será feito? Pretende acrescentar ao repertório canções populares, a exemplo dos Concertos Dana, com a Ulbra, ou irá utilizar compositores eruditos contemporâneos?

Flores – Cada orquestra tem um perfil bem claro, e não podemos desvirtuar esse perfil. Vamos diversificar um pouco, mas não mudar totalmente. A Ospa é a única orquestra sinfônica que nós temos aqui no estado, então, vamos aproveitar para montar um repertório sinfônico, que é muito vasto e diversificado. Isso não impede que se façam concertos populares, mas a frequência é menor. Vamos fazer concertos populares para atrair novos públicos? Vamos, temos que fazer. Mas não com a mesma regularidade com que eu faço na Ulbra, por exemplo.

Nonada – Existe algum projeto de melhoramento da Escola da Ospa?

Flores – Sim. A Escola da Ospa está quase parada. Não é simples recomeçar o trabalho, exige contratação de pessoal. Pra começar, mais uns 12 ou 13 professores. Isso, no estado, não é tão simples. Outra coisa em que estamos trabalhando é o quadro da Ospa, que não incluía professor de música para a Escola. A ideia é que até o meio do ano a gente lance um concurso e contrate professores. Aí o trabalho será a longo prazo.

“A UFRGS recebeu conceito máximo pelo MEC, é a melhor escola de música do país. No entanto, faltam músicos em Porto Alegre. Os integrantes da orquestra tocam em duas ou três outras, simplesmente porque há escassez de pessoal. “

Nonada – Você acha que será possível encontrar professores com a formação necessária aqui no estado ou será preciso trazer profissionais de fora?

Flores – Essa é uma questão bem complicada, que rebate, inclusive, na UFRGS. Como a exigência para entrada no bacharelado é muito alta, muitas vezes não se preenchem as vagas. A universidade recebeu conceito máximo pelo MEC, é a melhor escola de música do país. No entanto, faltam músicos aqui em Porto Alegre. Os integrantes da orquestra tocam em duas ou três outras, simplesmente porque há escassez de pessoal.

Nonada – Por que acontece isso? O público não se interessa por se formar em música?

O regente da Ospa faz observações sobre o futuro da música no ensino

Flores – Se interessa, sim, mas o acesso é muito difícil. De cada mil crianças que começam a estudar violino, provavelmente umas dez gostarão de ser profissionais, não mais do que isso. Não só no Brasil, no mundo inteiro é assim. Muita gente tem que estudar música, como todo mundo estuda matemática, português, biologia, na escola, para que algumas dessas crianças sejam profissionais. Os outros todos serão apreciadores de música, serão plateia. O ensino da música é muito importante também para a formação do ser humano, para que ela abra os horizontes.

Nonada – Você concorda com a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas?

Flores – Sim, mas o problema é que não temos professores suficientes. Vai demorar muito tempo para termos professores licenciados de música. Não é de uma hora pra outra que uma lei vai fazer com que se tenham aulas de música nas escolas. A questão financeira também dificulta a formação em música. A pessoa tem que pagar um professor particular, comprar e manter um instrumento. Até ela entrar na faculdade, deverá ter estudado muito durante seis ou sete anos, com horas diárias de ensaio.

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2 comentários em “Ospa busca renovação com um velho conhecido”

  1. Flavio,

    Conforme o Tiago Flores, a Ligia Amadio será a primeira mulher a reger um concerto oficial da Ospa, contratada para tal. As que já estiveram à frente da Orquestra estavam participando de um concurso, chamado Jovem Regente, do qual o próprio Tiago também participou.

    Mesmo assim, obrigada pelo comentário.

    Abraço, Leila Ghiorzi

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