A normalidade de uma família diferente (Crédito: Imagem Filmes)
A normalidade de uma família diferente (Crédito: Imagem Filmes)

Não há como falar de Minhas Mães e Meu Pai* sem comentar sobre como é tratada a temática GLS no cinema americano recente. Nesse sentido, é um filme que se aprofunda na questão uma vez que não trata o assunto de modo pejorativo, ou, como ainda vemos em algumas produções, como se o personagem gay fosse especial, ou “diferente”. A começar pela normalidade da história: aqui não é explorado o nascimento do amor entre duas pessoas do mesmo sexo já apresentado com beleza em O Segredo de Brokeback Mountain de Ang Lee. Acompanhamos sim o resultado de uma união já consolidada entre duas mulheres de meia-idade com todos os problemas que normais de qualquer relação. O casal formado por Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne Moore) tem dois filhos gerados em cada uma delas por inseminação artificial. A trama da história começa quando as “crianças” já estão na adolescência e secretamente armam um encontro com o pai biológico deles.

Paul, papel de Mark Ruffalo, acaba se dando bem com “filhos” e então começa a freqüentar a casa com certa frequência. Ele é um cara também de meia idade, ainda solteiro, e que gosta de aproveitar a vida, é uma pessoa mais prática e tende a encarar os problemas do jeito dele. Esse estilo despojado de lidar com as situações acaba marcando um bom contraponto ao modo sisudo e perfeccionista da médica Nic – a “patriarca” da família. E logo eles se tornam opostos dentro da história: Paul seria uma espécie de estranho no ninho que desejaria roubar os filhos e a família de Nic. E, embora fique evidente que a trama evite ao máximo caracterizar Paul como vilão, é essa impressão que acabamos tendo com o desenrolar dos fatos.

Fora isso também há muitos problemas acontecendo na família de Nic e Julie, sua filha mais velha, Joni, recém completou 18 anos e está indo embora de casa rumo a faculdade. E o mais novo, o jovem Laser, tem problemas com seu melhor amigo, na realidade uma péssima influência. Procurando aprender a lidar com os filhos as mães não sabem exatamente como agir. Nic é quem parece ter mais dificuldade ainda mais com a presença de Paul, como uma sombra pairando sob seu lar.

É essa sombra, esse medo de Nic que não deixa o filme cair para aquela dramaticidade banal de apelo familiar. Isso unido a direção de Lisa Cholodenko, lésbica assumida ela consegue levar o assunto para as telonas com seriedade, ao mesmo tempo mantendo o compasso do drama, apesar de haver momentos cômicos ótimos. O grande mérito da diretora está em não cair no mais fácil, no senso comum. Buscou a universalidade no que ainda é taxado como incomum e conseguiu isso através de personagens reais, seres humanos lidando com problemas, sentimentos e emoções.

Paul, invariavelmente, acaba ficando como uma espécie de vilão da história porque se envolve com Julie. Essa estava em uma crise de meia idade, acreditava que Nic não a achava mais atraente e começa a se envolve com o pai de Joni e Laser. Infelizmente essa parte da trama não convence e tudo parece se resolver rápido demais, simplesmente jogando-se boa parte da culpa para o “estranho no ninho”.

*Indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante, entre outros.

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