v. Spy v. Spy: pop/rock declaradamente surf music

Texto:

Paulo Finatto Jr. (paulofinattojr@hotmail.com)

Fotos:

Denis Azevedo (denisma@gmail.com)

No seu último show antes do recesso de verão, os caras do Opinião trouxeram dois conceituados nomes para uma noite musicalmente única e interessante. A sonoridade das duas bandas – típica para o calor e para a época do ano – uniu referências do surf music australiano e do reggae jamaicano. O espetáculo de cerca de duas horas proporcionado pelo v. Spy v. Spy e pelo Inner Circle agradou o razoável público que permaneceu em Porto Alegre mesmo em época de férias.

Por um problema qualquer ainda desconhecido, a abertura da noite – que ficaria a cargo da Harold Caribbean – não aconteceu. De qualquer forma, às 23h30 (mais de uma hora depois da abertura da casa) uma boa quantidade de pessoas já ocupava a pista do Opinião para a primeira atração da noite. Na plateia, curiosos e um número contável de fãs devotos do v. Spy v. Spy recepcionaram David Alan Wilkins (vocal/violão), Michael Weiley (guitarra), Neil Beaver (baixo) e David Bennett (bateria). A banda, que foi fundada no início da década de oitenta na periferia de Sidney (Austrália), iniciou o show com “Clear Skies”, uma das mais imponentes músicas do seu pop/rock.

As letras do grupo, comprometidas com uma visão política bastante crítica, em pouco tempo tornou o v. Spy v. Spy (na época Spy Vs. Spy) uma das bandas mais importantes do rock australiano, juntamente com o Midnight Oil e o Hoodoo Gurus. Na década de noventa, o movimento aussie – como ficou conhecido no resto do mundo – projetou os australianos nas rádios brasileiras com um impacto bastante considerável. A música dos caras, que nitidamente aborda toda a sensibilidade da vida, caiu no gosto dos surfistas. O v. Spy v. Spy assumiu o surf music com naturalidade.

Embora conte com apenas um integrante da sua formação original nos dias de hoje – o guitarrista Michael Weiley –, a inconsistência da carreira do v. Spy v. Spy prejudicou por demais a carreira da banda. Depois de muitos anos de inatividade, o retorno do quarteto australiano vem acontecendo lentamente. Como o último disco dos caras, “The Honey Island Project” (1998), é suficientemente datado e não há nenhuma novidade recente para mostrar nos shows, o que resta para o grupo é investir no seu repertório antigo. As músicas “Trash the Planet” e “Hardtimes” vieram na sequência da apresentação e mostraram como o v. Spy v. Spy conseguiu dar uma rearranjada na sua sonoridade – excessivamente oitentista para os padrões atuais. A voz de David Alan Wilkins se encaixou perfeitamente à (nova) proposta da banda.

Não há dúvidas de que a experiência conta extremamente a favor do v. Spy v. Spy. “Sallie-anne” e “Take It or Leave It” manteram o alto nível da apresentação. Por outro lado, músicas como “All Over the World” e “Harry’s Reasons” mostram que os australianos sempre mantiveram em sua sonoridade um apelo mais comercial. De qualquer modo, “Credit Cards” e “Clarity of Mind” – talvez o maior clássico do quarteto (e que contou com um pequeno trecho de “Should I Stay or Should I Go, do The Clash) – convenceram a plateia de que a banda vive, por que não, um dos seus melhores momentos.

A receptividade ao v. Spy v. Spy foi incrível. O show, que encerrou com “Don’t Tear It Down” arrancou palmas e um discurso sincero sobre o quanto os brasileiros são importantes para o sucesso e para a continuidade da banda até hoje. Em uma hora exata de show, os músicos deixaram o Opinião contentes por mais um ótimo espetáculo e os curiosos – que claramente formavam a maioria do público – extremamente satisfeitos pela oportunidade ímpar de ver, pela primeira vez, o até então desconhecido v. Spy v. Spy.

Inner Circle: um dos percussores do reggae jamaicano

Na sequência, os jamaicanos do Inner Circle subiram ao palco do Opinião para cerca de uma hora de reggae. A banda, que é um dos nomes percussores do estilo, surgiu em 1968 através das mãos de Jacob Miller e dos irmãos Ian e Roger Lewis. O sucesso do grupo na década de setenta se traduziu no disco “Everything is Great” (1979), o primeiro do gênero a figurar no Top 20 do Reino Unido. No entanto, a banda enfrentou um período de ostracismo nos anos oitenta após a morte do vocalista Jacob Miller em um acidente de carro.

Embora a banda não possua uma proximidade com o rock relativamente pesado do v. Spy v. Spy, os fãs dos jamaicanos compareceram em peso no Opinião. Junior Jazz (vocal/guitarra), Roger Lewis (guitarra), Ian Lewis (baixo), Bernard Harvey (teclado) e Lancelot Hall (bateria) iniciaram a sua apresentação exatamente à 1h. No repertório do quinteto, os maiores sucessos que impulsionaram o Inner Circle ao Grammy de Melhor álbum de Reggae em 1993: “Bad Boys” e “Sweat (A La La La La Long)”.

As músicas do seu mais recente álbum, intitulado “State of da World” (2009), também estiveram presentes no espetáculo. “Dis Life” e “Gun Ting” compuseram a primeira metade do show – faixas praticamente desconhecidas até mesmo para os fãs mais fiéis do Inner Circle. De qualquer modo, sucessos antigos como “Stop Breaking My Heart” e mesmo os mais recentes, como “Not About Romance” e “Games People Play” (ambos da década de noventa) apareceram intercalados na apresentação. A plateia, que parecia pouco se importar com quais músicas que o Inner Circle executava (de modo muito competente, diga-se de passagem), simplesmente curtia a noite ao som de um reggae ou outro.

Em uma hora de show, a banda – capitaneada atualmente pelo excelente Junior Jazz após a saída nada amistosa de Kris Bentley tempos atrás – mostrou que trinta anos de experiência sempre irá contar a favor em cima do palco. O público deixou o Opinião contente após o último evento antes da temporada de férias da casa.

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