O Segredo dos Seus Olhos foi o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010 (Crédito: Divulgação)

Por Aline Duvoisin*

Comentários que buscam justificar a superioridade do cinema argentino atual em relação ao brasileiro são bastante comuns, principalmente no Brasil.  Porém, antes de dar por encerrada a ideia de que os hermanos se desenvolveram de forma mais eficaz nesse ramo, parece mais sensato justamente transformar essa aparente certeza em pergunta para depois partir às reflexões que podem nos direcionar a uma possível resposta. Afinal, a Argentina está realmente à frente do Brasil nesse campo artístico?

Dados recentes sobre o mercado cinematográfico demonstram que em termos de quantidade os dois países estão bastante próximos.  Em 2009, houve 77 estreias nacionais na Argentina, enquanto no Brasil foram registradas 75.  No ano anterior, nós tivemos um pouco de vantagem, com 84 estreias nacionais, contra 71 da Argentina. Assim, as duas nações se revezam, ao lado de México, no topo do ranking do mercado latino-americano.  Porém, no passado as posições ocupadas eram mais estáveis e o Brasil costumava ter mais destaque, mantendo-se quase sempre na segunda posição, perdendo somente para o México.

Ao contrário da quantidade dos filmes produzidos, o número de espectadores varia bastante de um país para o outro. Enquanto em 2009 pouco mais de 16 milhões de brasileiros foram às salas de cinema para ver títulos nacionais, na Argentina eram apenas cerca de 5,3 milhões os espectadores.  Além disso, o Brasil arrecadou neste ano quase R$ 131 milhões pelos filmes nacionais. Na Argentina, o valor alcançou somente 72,6 milhões de pesos argentinos.  Porém, não é possível desconsiderar nesta avaliação a diferença de tamanho dos dois países. Pensar que um país tão pequeno como a Argentina, apesar de não alcançar a mesma bilheteria do extenso Brasil, ainda assim consegue produzir quantidade semelhante de filmes parece um paradoxo.  Se consideramos, então, a atual superioridade econômica brasileira em relação a seu vizinho, torna-se ainda mais difícil compreender por que razões as diferenças não são favoráveis ao Brasil em maior medida.

A História Oficial, primeiro filme argentino a ganhar o Oscar, em 1985 (Crédito: Divulgação)

Por outro lado, a qualidade dos filmes argentinos deveras parece superior aos brasileiros, pelo menos analisando de forma genérica. No Brasil, a aproximação do cinema comercial ao meio televisivo, a fim de tirar proveito deste para dispor de mais recursos e ter mais evidência no mercado, resultou na convergência estética e de linguagem, que outorgou às produções cinematográficas maior importância ao espetáculo que ao conteúdo, empobrecendo suas temáticas. Se existem exceções, elas se encontram na produção independente, que têm poucas condições mercadológicas para competir com os que estão associados às grandes emissoras. Certamente não se pode dizer que não há associação alguma entre cinema e televisão na Argentina, onde muitos cineastas recebem apoio de conglomerados multimídia.

Porém, essa aproximação se consolidou de forma que provocou poucos reflexos na linguagem e estética cinematográficas e, menos ainda, em suas temáticas. Além disso, a produção independente está mais consolidada no país vizinho, o que permitiu que alguns cineastas se tornassem híbridos, ou seja, seguem atuando independentemente em alguns projetos, mas recebem financiamento de companhias de produção maiores para outros. A situação brasileira se agrava ainda mais em termos de qualidade quando nos damos conta de que muitas de suas produções cinematográficas são adaptações de programas televisivos, enquanto a Argentina passa bem longe disso.

Para entender o panorama atual é preciso considerar os aspectos divergentes registrados ao longo de suas trajetórias cinematográficas e que ajudaram a formá-las. Em geral, as crises envolvendo o cinema foram vivenciadas de forma igualitária em todos os países latino-americanos.  Porém, em alguns momentos a Argentina soube tirar proveito de situações aparentemente catastróficas, demonstrando certo ímpeto criativo e desenvoltura para driblar situações inesperadas em favor de um movimento artístico.

Ainda na época do cinema mudo, em Buenos Aires as projeções eram acompanhadas de orquestras típicas que tocavam tango para musicar filmes de qualquer gênero e nacionalidade. A situação mobilizava o público a ir às salas às vezes mais pela música do que pelas imagens, visto que o tango era relegado pelas rádios, que priorizavam outros estilos de música. Ao contrário de outras nações que viram a chegada do cinema sonoro como um problema, pois teriam que reaprender suas tarefas em função dos novos equipamentos e da nova linguagem, na Argentina a situação foi vista com bons olhos, o que levou os produtores nacionais a correrem atrás da solução dos problemas técnicos. O objetivo era levar às telonas os destaques do tango da época, que geraram filmes melodramáticos musicais de tremendo sucesso em todo o mundo. Este cenário já revelava uma preocupação com a cultura local e com a busca de uma identidade em detrimento da tentativa de cópia do estrangeiro.

O Brasil também apostou na música, mas a uniu a outro gênero cinematográfico. Durante a década de 30, a recém criada produtora Cinédia experimentou, sem sucesso, investir na comédia musical, tanto em sua forma carnavalesca como na chanchada. O problema da primeira é que o samba nesta época ainda era visto com preconceito por ser feito pelos negros e não costumava ser muito aceito fora do período de carnaval. Por outro lado, as chanchadas se apresentavam timidamente nesta época e só conquistariam o público na década seguinte.

No início dos anos 1990, com a criação do Instituto Nacional de Cine y Artes Visuales (Incaa) foram inauguradas salas alternativas de cinema que buscavam exibir exclusivamente a produção nacional. Seu objetivo não era criar um impasse à entrada e exibição de filmes estrangeiros, mas contar com um espaço opcional onde não vigorassem as regras dos exibidores comerciais que diziam que o cinema nacional em geral dava pouco lucro.  Aos poucos, ao longo da primeira década dos anos 2000 também foram abertas salas públicas em outros países a fim de difundir a produção argentina a nível internacional.  O Brasil parece que foi na direção contrária, justamente buscando meios de competir com a produção hollywoodiana que dominava as salas e estava muito longe do seu alcance. As tentativas de ajudar o cinema nacional a competir com o estrangeiro se sustentam através de quotas de tela, em que os filmes brasileiros têm que competir lado a lado com os de Hollywood, seja por disputarem as mesmas salas, por estarem em salas próximas de um mesmo complexo ou por suas entradas terem preços semelhantes.

Outro momento de destaque para o cinema argentino foi a crise de 2001, que gerou as grandes manifestações conhecidas como panelaços. A lei que havia criado o Incaa foi cancelada e todos os fundos do instituto confiscados pelo tesouro depois da aprovação da Ley de Emergencia Económica.  Apesar disso, os cineastas não baixaram a cabeça e continuaram produzindo filmes de boa qualidade e baixíssimo orçamento, demonstrando um interesse maior em manter o espaço cinematográfico que haviam conquistado do que em arrecadar lucros.  Além disso, os exibidores baixaram nesta época os preços dos ingressos num esforço para atrair o público.  Se a medida reduziu as receitas, pelo menos salvou a indústria cinematográfica de se afundar na crise junto com a maioria dos outros setores.  Para ver as diferenças entre profissionais brasileiros e argentinos, basta lembrar da crise cinematográfica vivida no Brasil durante o governo de Fernando Collor, quando a produção brasileira se extinguiu quase completamente.

Além disso, a Argentina recebeu muito investimento estrangeiro na área de cinema durante a primeira década dos anos 2000, pois a situação econômica do país tornou a produção mais favorável para as companhias do exterior.  A situação aumenta a coprodução entre países da Europa e a Argentina, além de incrementar o intercâmbio cultural e profissional na área audiovisual. Somado a isso, o surgimento de uma tendência a formação de profissionais em escolas de cinema suscita uma geração com interesses mais artísticos que comerciais.

No Brasil, se percebe algo oposto. Mesmo nas próprias escolas de cinema surge uma tendência a explorar toda a vida útil do produto audiovisual, apresentando-o em todos os suportes possíveis, a fim de aproveitar todas as possibilidades de lucro.  Investigações acadêmicas também se dirigem neste sentido,  questionando-se sobre os prós e os contras dessa tendência. O certo é que ela gera uma produção massificada, que se preocupa mais com o mercado do que com o artístico.

Se isso é positivo ou negativo? Depende de seus objetivos.  Se é utilizar as novas mídias para produzir mais lucro, certamente o cinema brasileiro está na frente.  Os profissionais argentinos já demonstraram ao longo dos anos que preferem perder em preço e não pecar em qualidade.  O Brasil também conta com profissionais suficientemente capacitados para seguir a mesma linha.  Incentivos que já existem e outros que podem surgir visando à coprodução entre países, a exemplo do Ibermedia (que promove parcerias entre as nações ibéricas e latino-americanas) e de estímulos criados dentro Mercosul à produção audiovisual podem ajudar tanto um lado como o outro.  Porém,  seu futuro depende da direção para a qual se guiam suas políticas de Estado,  como em todos os países da América Latina, visto que nosso continente já demonstrou ser incapaz de sobreviver economicamente sozinho.

*Aline Duvoisin é jornalista e faz mestrado em Teatro e Cinema Latino-Americano na Universidade de Buenos Aires. (alineduvoisin@hotmail.com)

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2 comentários sobre “Divergências cinematográficas entre Brasil e Argentina: interesses econômicos X expressão artística

  1. ESTE ES UNO DE LOS ARTICULOS MAS CLAROS QUE ENCONTRE SOBRE EL TEMA.

    ESPERO PODER VER MAS TEMAS RELACIONADOS, Y PRODUCIDOS CON TANTO PROFECIONALISMO.

  2. Interessante análise. Só achei inadequado considerar Argentina “um país tão pequeno”. Afinal, é o segundo maior país da América Latina e 8º do mundo em extensão, ou seja, é um país grande, mas claro, significativamente menor que o Brasil.

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