Festival no Opinião trouxe bandas de vários países da América Latina a Porto Alegre (Crédito: El Mapa de Todos/Petrobras/Divulgação)

Texto: Daniel Sanes

Fotos: Fernando Halal (www.flickr.com/photos/fernandohalal)

O gaúcho valoriza muito as coisas de sua terra e é reconhecido Brasil a fora por isso. No entanto, às vezes o orgulho demasiado de suas origens acaba impedindo-o de valorizar coisas interessantes feitas bem longe dos pagos. É o que se pôde constatar durante a realização do festival El Mapa de Todos, durante os dias 12, 13 e 14 de abril, no bar Opinião, em Porto Alegre.

Ok, culpar o malfadado bairrismo pela não lotação de um evento que engloba atrações distintas de países os quais não estamos acostumados a prestigiar culturalmente pode parecer um argumento raso diante das profundas explicações que poderíamos obter de um antropólogo. Porém, como crer que não se trata disso quando um festival proporciona a oportunidade de ouvir artistas de países como Chile e Venezuela a uma média de R$ 2 por banda e, mesmo assim, não tem lotação esgotada em nenhuma das noites? Daí só se pode concluir que o pessoal é muito acomodado (bunda mole mesmo) ou a situação financeira dos porto-alegrenses está mais difícil do que se imaginava.

Primeiro dia

Xoel Lopez (Espanha), Pablo Dacal (Argentina) e Franny Glass (Uruguai) fizeram um show acústico beirando o folk

No dia de abertura, havia pouquíssima gente no Opinião. O que chamou a atenção não só nesse dia, mas em todos os outros, é que uma única atração – geralmente gaúcha – é que atraía o público. As outras eram prestigiadas por tabela e, se tivessem sorte, acabavam conquistando novos fãs. Uma das que provavelmente angariaram novos admiradores é a Reino Elétron, de Passo Fundo, que chegou ao El Mapa de Todos com o mérito de ter vencido o festival PampaStock, promovido pelo curso de Sociologia do Rock da Unipampa. Influenciados por rock clássico e melodias marcantes com forte presença de teclados, eles foram uma escolha acertada para abrir os trabalhos. Arthur de Faria e seu conjunto vieram a seguir, fazendo um som tão inclassificável como agradável de ouvir. O veterano músico fez uma boa apresentação, mas a essa altura ainda havia pouca gente no Opinião e o coro em “Água podrida” acabou encontrando poucas vozes na plateia.

Frank Jorge apresentou sucessos solo, com a Graforréia e covers

O chileno Gepe é um reconhecido músico pop de “primeiro escalão” em seu país. No entanto, no Brasil, é praticamente um desconhecido. Sua mistura de ritmos eletrônicos e regionais com um quê de anos 80 é bastante acessível, mas o fato de quase ninguém ter ouvido o grupo antes mostrou que o El Mapa de Todos veio em boa hora para combater nossa ignorância musical a respeito do que acontece nos países vizinhos.

A atração que mais simbolizou a integração proposta pelo festival, sem dúvida foi a parceria entre Xoel Lopez (Espanha), Pablo Dacal (Argentina) e Franny Glass (Uruguai). Cada um trouxe as influências de seu país, unificando-as em canções acústicas com belas harmonias vocais e arranjos acústicos próximos ao folk.

Apesar das atrações internacionais, quem levantou o público na primeira noite foi Frank Jorge. Mesmo com o tempo reduzido – e democraticamente distribuído entre todas as bandas –, o músico conseguiu fazer um bom apanhado de sua carreira solo, incluiu sucessos da Graforréia Xilarmônica e ainda homenageou ídolos como Beatles e Roberto Carlos. O show foi completado pela presença de um conjunto de metais que enriqueceu bastante os  (já excelentes) arranjos originais do compositor.

Segundo dia

No segundo dia de El Mapa de Todos, o público foi maior, mas ainda tímido perto do que se esperaria em um festival desse nível. O cast continuou eclético, contemplando especialmente o rock, mas cedendo um bom espaço a outros estilos. A noite começou com a Sociedade Bico de Luz, de Guaíba, cujo pop rock alegre e por vezes romântico serviu como um bom aquecimento para uma noite em que outras atrações também viriam a falar de amor sem medo de soarem bregas.

Do Amor: mistura de rock com ritmos bregas empolgou

Nessa esteira, os cariocas da Do Amor proporcionaram um dos melhores momentos do festival. Sua mistura de guitarras com ritmos “calientes” como o carimbó botou a galera pra dançar. Pena que, a exemplo de apresentação que fizeram recentemente em Porto Alegre, tocaram para um público aquém do esperado. O show foi encerrado com o oportuno cover de “Lindo Lago do Amor”, de Gonzaguinha, que ganhou roupagem mais moderna, quase eletrônica.

O Contra Las Cuerdas foi, possivelmente, a banda mais inusitada do festival. Afinal, quantas vezes você ouviu uma banda de hip-hop do Uruguai? No entanto, como ocorre com várias das bandas do país, eles não se limitaram ao popular ritmo das ruas, utilizando-se de vários elementos de música folclórica uruguaia. O público, mais curioso que entusiasmado, limitou-se a assimilar a mistura.

Wander Wildner realizou um dos shows mais lotados

E como definir o Los Mentas, da Venezuela? Limito-me a reproduzir o que o site do festival diz: um grupo de Caracas de “polka-rockabilly-punk”. Certamente uma das bandas mais pesadas do festival, o Los Mentas fez um show empolgante e, se depender da recepção da plateia, pode retornar a Porto Alegre num futuro não tão distante.

Assim como ocorreu na primeira noite, o encerramento coube a um medalhão do rock alternativo gaúcho. A exemplo de Frank Jorge, Wander Wildner fez um show que contemplou seu passado com os Replicantes, a bem-sucedida carreira de punk brega e ainda mandou ver em alguns covers – entre eles um de autoria de Frank, “Amigo Punk”, que encerrou uma apresentação pra lá de energética.

Terceiro dia

Na quinta-feira, dia 14, os porto-alegrenses finalmente entenderam a oportunidade que estavam perdendo e compareceram em quantidade mais expressiva. E deram sorte: a terceira noite do El Mapa de Todos foi a melhor de todas. A ser lamentada a ausência do grupo mexicano Los Negretes, cuja presença era anunciada na programação oficial do evento, mas que acabou cancelando sua apresentação.

El Mató a un Policía Motorizado: argentinos foram uma das bandas de fora com melhor receptividade

Ao contrário das bandas de abertura dos dias anteriores, a brasiliense Watson teve a sorte de tocar para um Opinião relativamente cheio. Mantendo a tradição de que o Distrito Federal sempre apresenta novos bons nomes no cenário pop rock, o grupo fez bonito com seu som cadenciado e guitarras bem trabalhadas – uma característica das bandas dessa noite, aliás.

Quando a Superguidis pisou no palco, a pista ficou abarrotada. Com o público na mão, a banda fez um show intenso, e seu som influenciado por grunge e guitar rock e com letras de temática adolescente empolgou até mesmo quem não era muito fã da banda. Enquanto o frontman Andrio Maquenzi canta um hit atrás do outro, o guitarrista Lucas Pocamacha é o responsável pela fúria da Superguidis no palco, dando espaço, inclusive, para alguns papos de bêbado com a plateia. Reclamações? O velho sucesso “O Banana” ficou de fora.

Entre as bandas estrangeiras, El Mató a Un Policía Motorizado era uma das mais aguardadas. Os argentinos, que já haviam tocado em Porto Alegre antes, parecem ter dado uma guinada em seu som, mais melódico do que antes, mas ainda privilegiando a guitarra. Tiveram uma performance excepcional, e, surpreendentemente, algumas músicas foram cantadas pelo público, mesmo que em um enrolado portunhol.

Macaco Bong encerrou o El Mapa com show destruidor

Pode-se discutir qual foi o melhor show do El Mapa de Todos, o pior etc. Mas não há dúvidas: o mais pesado deles foi o da banda mato-grossense Macaco Bong. O rodado power trio de Cuiabá provocou uma catarse raramente vista em apresentações de música instrumental, com direito a galera se jogando do palco e rodas de mosh. Pudera: o som feito por Bruno Kayapy (guitarra), Ney Hugo (baixo) e Ynaiã Benthroldo (bateria) beira o heavy metal de tão intenso. Com a presença de Andrio, da Superguidis, ainda tocaram duas músicas do Nirvana no final.

O El Mapa de Todos cumpriu sua proposta de integrar culturas de diferentes países, em seminários realizados durante o dia e três noites de shows a preços extremamente baratos. O público é que não fez sua parte, praticamente ignorando o festival na primeira noite, começando a entender a situação na segunda e, finalmente (antes tarde do que nunca), comparecendo em massa na última. Felizmente, mesmo com algumas adversidades, o curador do festival – o jornalista Fernando Rosa, mais conhecido como Senhor F – já avisou que a ideia é manter Porto Alegre como sede na próxima edição, em 2012. Até lá, espera-se que o pessoal entenda o quanto o El Mapa de Todos é relevante para a América Latina. E, se esse argumento não for suficiente, que lembre-se de um princípio básico do rock’n’roll: a diversão. Porque isso, sem dúvida, o festival proporcionou, e quem esteve lá dificilmente dirá o contrário.

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4 comentários sobre “El Mapa de Todos: uma bela ideia, um público omisso

  1. Fernando, valeu pelo comentário. Infelizmente, por uma questão logística, não pudemos cobrir os seminários, mas acho que eles tão importantes quanto os shows. Tomara que nas próximas edições o pessoal prestigie o festival ainda mais, pois seria um vacilo muito grande de Porto Alegre se o El Mapa se mudar de cidade… hehe Abraço

  2. Caro Daniel, brinquei no twitter que o El Mapa de Todos também foi uma espécie de “batalha de Porto Alegre, em 3 atos”. Ou seja, um primeiro dia de enfrentamento, um segundo de aceitação ainda um pouco passiva e um terceiro de entendimento, relaxamento e diversão… Tínhamos consciência da dificuldade, especialmente em relação ao primeiro dia, por algumas circunstâncias que ficaram explícitas nos debates realizados na Casa de Cultura Mário Quintana. Da nossa parte, ficamos tão contentes e felizes quanto as pessoas que foram até o Opinião e assistiram shows geniais, criativos e enriquecedores. Mas, também sabemos que atualmente o conteúdo virtual gerado pelos eventos são tão importantes quanto a presença física, o que você e os teus leitores poderão conferir no site do festival – http://www.elmapadetodos.com.br. Imagens belíssimas, informação sobre os artistas e as cenas dos diferentes países e um registro dos shows com qualidade de disco de estúdio. Por fim, ressalto que produzimos um evento com a qualidade profissional que Porto Alegre merece e precisa resgatar em sua vida cultural.

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