Por Dani Tagen*

A cultura chinesa é muito presente na arte de Ai Weiwei, como na exposição "Sunflower seeds" (Crédito: Tate Modern/Divulgação)

Acabo de visitar as duas mais recentes exposições de Ai Weiwei em Londres, onde moro. Quanto mais eu tenho contato com sua obra e leio sobre sua vida nos jornais, mais fascinada fico em ver como ele consegue produzir trabalhos de apelo tão popular enquanto exerce seu papel de porta-voz de um povo sem voz.

Ai Weiwei é um artista que acima de tudo é um intelectual, uma personalidade multifacetada: arquiteto, editor, designer, artista conceitual e performático, poeta, escritor, blogger. Ele se interessa pela materialidade dos objetos à sua volta. Geralmente usa a linguagem formal tradicional e métodos clássicos de artesanato ou produção em massa da cultura chinesa para aumentar ou gerar discussões no âmbito geopolítico, questionando o valor cultural dos objetos.

Círculo de Animais/Cabeças do Zodíaco é uma das atuais exposições de Weiwei (Crédito: Marcus Ginns/Divulgação Somerset House)

Com a escultura Círculo de Animais/Cabeças do Zodíaco, instalada no pátio histórico de Somerset House desde 12 de maio, ele toca num ponto fundamental: “Meu trabalho está sempre lidando com questões de verdadeiro e falso, autenticidade e valor e como o valor se relaciona com atuais entendimentos políticos e sociais. No entanto, como Círculo de Animais/Cabeças do Zodíaco é composta por cabeças de animais, é um trabalho que todos podem entender, incluindo crianças e pessoas que não estão no mundo da arte. Eu acho que é mais importante mostrar meu trabalho ao público. Isso é o que realmente me interessa”, diz o próprio artista. A instalação ao ar livre consiste em 12 cabeças de animais de bronze recriando as tradicionais esculturas do zodíaco chinês que existiam no relógio d’água de Yuanming Yuan – um retiro real do século 18 perto de Pequim saqueado em 1860 por tropas francesas e inglesas. A obra já foi apresentada na Bienal de São Paulo em 2010 e está também no Central Park de Nova Iorque, no momento.

Em outra exposição, na Lisson Gallery, aberta dia 13 de maio, Ai Weiwei mostra seu filme “Segundo Anel”. Ele registra 31 viadutos em Pequim numa câmera estática que filma por um minuto o dia-a-dia desses viadutos. De início, a impressão é de que nada vai acontecer. Mas no passar de carros, ônibus e motos, de repente aparece uma bicicleta na contramão, em plena autopista, e tudo continua a fluir. O tradicional e o contemporâneo encontram-se, harmonizam-se, e tudo caminha bem.  É um filme que pede tempo para ser visto e um olhar atento ao detalhe.

Em “Vigilância” – uma reprodução de uma câmera de vigilância em mármore – a ironia da escultura é clara. A peça é muito elegante e está colocada num pedestal de um metro de altura em frente a uma grande janela. Ela aponta para a rua, dando as costas para o público da galeria, podendo ser escrutinada de perto numa clara inversão de papéis. Quando se tem conhecimento de que o artista foi vigiado por câmeras como essa, instaladas em frente a sua casa/estúdio por um período de 3 anos, a peça se torna mais fantástica, muito mais inteligente, e a linguagem do artista muito mais clara.

A instalação "Sunflower seeds" é a melhor obra de Weiwei, segundo Dani Tagen (Crédito: Tate Modern/Divulgação)

Contudo, para mim é com a instalação “Sunflower seeds” (Sementes de girassol), que ficou em exposição no Turbine Hall da Tate Modern em Londres de outubro de 2010 a maio de 2011, que o artista produziu sua melhor obra até hoje. A instalação era composta de mais de cem milhões de sementes de girassol feitas de porcelana, pintadas à mão, que davam a ilusão de terem sido fabricadas industrialmente. À primeira impressão, as sementes parecem idênticas, mas num olhar mais apurado, percebe-se que de fato são únicas, que possuem uma individualidade própria numa linda alusão ao seu povo. A obra atraiu-me por combinar a íntima relação espacial do lugar com uma refinada habilidade do fazer: uma instalação verdadeiramente imersiva e sensorial idealizada para ser tocada, ouvida e sentida.

Este trabalho de Ai Weiwei tem direta associação com a cultura chinesa. Para o povo chinês as sementes de girassol são alimento, sinal de camaradagem e símbolo do próprio regime comunista. Elas são sempre oferecidas como gesto de amizade ou confraternização, presentes em todas as conversas entre amigos, em bares, em casa… Elas estão em toda a parte. Representam também o próprio povo nos cartazes de propaganda política, pois o Sol é sempre associado aos chefes de estado e o povo são girassóis que se voltam para ele. Sem contar com o fato de que as sementes foram muitas vezes a única fonte de alimento em épocas de grande dificuldade econômica.

Numa leitura mais aprofundada a obra traz outras camadas interpretativas. Ela foi feita para ser pisada, caminhada, para ser tocada, mas devido à fina poeira que essa interação produz, foi vetado pelo Ministério da Saúde o contato dela com público. Ainda assim, a sutil conotação de que o ocidente pisa no povo do oriente, ou que está acima – se julga superior – permanece latente.

No dia 3 de abril, Ai Weiwei foi detido pela polícia quando embarcava no aeroporto de Hong Kong, acusado de “crimes econômicos”, e ficou desaparecido até o dia 15 de maio, quando foi dada à sua esposa, Lu Qing, permissão para visitá-lo. Ainda não se sabe onde ele está preso. Lu Qing foi levada até ele mas diz que o lugar da reclusão não parece uma prisão. Ai não estava algemado e vestia as suas próprias roupas, ao invés de um uniforme de detento. A barba, sua marca registrada, não havia sido raspada. Porém, ainda assim, ele “parecia nervoso, contido, seu rosto estava tenso.” – disse a mulher. O artista, que sofre de pressão alta e diabetes, disse à esposa que é levado para caminhadas longas todos os dias, tem a sua pressão arterial verificada sete vezes por dia, e que ele come e dorme muito bem. Liu Xiaoyuan, advogado e amigo de Ai que se encontrou com Lu para discutir a visita, disse que soava como se Ai estivesse sendo mantido sob vigilância residencial em algum lugar fora de Pequim.

Poster afixado na Lisson Gallery de Londres em protesto à prisão do artista (Crédito: Andrew Winning/Reuters)

A lei chinesa permite à polícia impor vigilância residencial por até seis meses antes de tomar uma decisão sobre como proceder com um caso, ao contrário dos 30 dias permitidos por detenção penal, disse Joshua Rosenzweig, um gerente de pesquisas da Fundação Dui Hua – um grupo de direitos humanos de Hong Kong com base nos EUA.

Visitas familiares raramente são permitidas para os suspeitos sob investigação criminal até que sejam formalmente acusados. O Ministério do Exterior disse que Ai está sendo investigado por crimes econômicos, mas a sua detenção ocorre em meio a uma repressão aos dissidentes, aparentemente provocada por temores de que rebeliões como as do mundo árabe poderiam também irromper na China. Ai estava mantendo um registro informal no Twitter das dezenas de blogueiros, escritores e outros intelectuais que foram detidos ou presos na campanha antes de ele ter sido levado preso.

O caso de Ai Weiwei mais uma vez revela a essência do estado chinês para o mundo todo ver. Esta é da China hoje e o seu sistema jurídico: o Estado de direito para as autoridades, em vez de o Estado de Direito para o povo.

No dia 20 de maio, o governo declarou que a empresa que o artista representa cometeu sérios desvios fiscais. Lu Qing afirmou apenas: “a empresa está em meu nome”. O caso Ai Weiwei é um exemplo perfeito de como a escolha da linguagem, seja ela verbal ou visual, é fundamental no modo de se expressar do povo chinês. Num país onde aprender a ficar calado é uma forma de sobrevivência.

* Dani Tagen é artista em Londres, com mestrado em arte-educação pela Goldsmiths College. Desenvolveu atividades educacionais junto à Tate Britain e foi professora de fotografia na Panamericana Escola de Arte e Design. www.danitagen.com

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