*Por Clarice Passos

Vencedor do prêmio de melhor direção no Festival de Cannes do ano passado, Tournée é o primeiro filme dirigido por Mathieu Amalric, mais conhecido por seu trabalho de ator em filmes como O Escafandro e a Borboleta e Quantum of Solace. Bem, essas foram as informações básicas que li sobre o filme antes de ir ao cinema. Lembrava-me de Amalric. Sabia que havia visto vários filmes com ele, reconhecia o seu rosto, no entanto o nome era desconhecido. Algo como aquela pessoa que você encontra na rua e tem certeza que conhece, só não se lembra de onde ou seu nome.  Fiquei com pé atrás no primeiro momento, essa coisa de ator que vira diretor não costuma dar mundo certo, mas Amalric se sai muito bem na função.

A história não tem nada de muito inovadora. Joachim Zand, personagem de Amalric, é um ex- produtor da televisão francesa, que caiu no ostracismo e se mudou para os Estados Unidos. Lá ele monta companhia de New Burlesque e leva o show para a França, numa tentativa de reavivar seu nome.  Apesar da segurança inicial de Zand, vemos aos poucos que a turnê é uma confusão: apresentações em cidades pequenas (as bordas da França), falta de dinheiro e, para completar, ter que lidar com a trupe de dançarinas que não dão folga.

Para quem não sabe, o New Burlesque é aquele tipo de “entretenimento” adulto que faz um revival dos shows burlescos do começo do século vinte, em que o tirar a roupa não é o mais importante, mas toda a sedução que vem antes, além de uma gama incontável de apresentações musicais. Uma das características mais interessantes desse movimento é a valorização de todas as expressões da beleza feminina. É só dar uma conferida nas musas de Amalriac, nenhuma se enquadra no padrão vigente. Elas são mais velhas, tatuadas e acima do peso, mas mesmo assim lindas e seguras. Como uma das personagens fala durante uma entrevista que a trupe dá durante sua turnê francesa: “o new burlesque é entretenimento para mulheres, feito por mulheres”. Não existe a tentativa de enquadrar as dançarinas no que é esperado como um estereótipo estético.

Não sei se o diretor já tinha algum conhecimento do universo do New Burlesque, mas as cenas são construídas muito bem visualmente. O que o filme tem que pobre no enredo, Amalric compensa com as apresentações do show e atuações extremamente divertidas das dançarinas. Claro que fica a dúvida se elas realmente tiveram uma boa direção ou se somente estavam sendo elas mesmas, já que todas são dançarinas do new burlesque. Fica como ponto positivo para Amalric o final do filme. Em vez de uma solução redentora, com uma volta triunfal de Joachim Zand ao show businnes numa grande apresentação em Paris, Amalric deixa o final em aberto. No meio da festa que se instala no hotel abandonado em que o grupo se abriga, Zand coloca uma fita K7 em um velho aparelho de som, empunha o microfone e dá um grito histérico. Mais o show must go on impossível. Não sabemos como essa história termina, no entanto, fica claro que eles não irão parar.

* Clarice Passos é estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atualmente faz intercâmbio na Universidade do Porto.

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