Roger Chartier deu palestra no último dia de Congresso de Jornalismo Cultural (Crédito: Reprodução/ Site Revista Cult)

No último dia do III Congresso de Jornalismo Cultural que ocorreu em São Paulo, o Nonada acompanhou a palestra “O Jornal e o Livro na Era Digital” do historiador e escritor francês Roger Chartier com mediação de Marta Raquel Colabone, também historiadora e gerente de Estudos e Desenvolvimento do SESC-SP. Muito simpático, Chartier começou explicando que desenvolveria o debate falando francês, uma vez que seu português é limitado.

Para dar início falou do papel dos grandes livros, e, juntamente a isso, a função que eles exercem. “O passado está sempre presente”, referindo-se que as grandes obras sempre refletem livros passados ou tendências, mas adaptando-as a seu devido período. É assim que nasce um grande livro, como “Dom Quixote”, ele diz. Para ele a responsabilidade de uma grande obra é dar subterfúgios para as próximas gerações entenderem essa sua época e aí entra o papel do crítico também que deve traduzir isso para o grande público. Chartier lembra que é um acadêmico que já escreveu para jornal, fazendo resenhas, logo isso lhe dá certa propriedade para refletir sobre o espaço da crítica em um jornal e também o que acarreta essa escrita. “No jornalismo a temporalidade da escrita é imediata, diferente do acadêmico, onde se leva mais tempo”, diz. Ele acredita que o espaço da crítica está ameaçado pela redução do espaço tipográfico que os jornais estão realizando. “Pelo menos na França é o que está acontecendo”. E acrescenta que os livros resenhados sempre são os de autores mais ‘visíveis’, o que proporciona uma redução também à nível de reconhecimento de novos autores.

Falando sobre as tecnologias ele lembra que no mundo impresso há um pacto de confiança entra o leitor e o historiador, “agora as pessoas tema acesso aos dispositivos digitas essa relação muda, pois é outra lógica, até na forma de ler”, diz. Primeiramente há muitas informações no digital, e ele pode acumular novas informações e até atualizações – diferentemente do livro ‘normal’. “A escrita na era digital é fragmentada, antológica. Deve-se fazer a passagem de livros normais para essa plataforma pensando na lógica dessa plataforma, adaptar”, afirma. Chartier diz que há uma espécie de resistência ao fetichismo do livro clássico em consonância ao livro na plataforma digital por parte de alguns historiadores e sociólogos mais tradicionais. Mas não é o seu caso. “Acredito que é necessário pensar em políticas de digitalização que respondam a inevitável digitalização de livros, etc.” Ele crítica a digitalização imposta pelo Google, que não respeitou o Copyright. Algo que será importante e que aposta no futuro da era digital é a escrita colaborativa, como já acontece com a Wikipedia. “Pode parecer uma difícil realidade agora, mas na Idade Média os monges escreviam em conjuntos os livros para a posteridade”, lembra. Mais uma vez, o passado iluminando o futuro.

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Jornalista, mestrando em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada – Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras e nas pessoas. Twitter: @rafaelgloria

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