Fotos: Júlia Schwarz (http://www.flickr.com/photos/juli_schwarz)

Aos 63 anos, cantora segue cativando o público com um repertório cheio de clássicos

Há certos shows que a gente tem que ver pelo menos uma vez na vida. No caso de quem curte rock, presenciar uma apresentação de Rita Lee é quase uma obrigação. Não interessa que ela já está mais pra vovó do que para tia Rita; não importa que o repertório contemple basicamente os hits radiofônicos: se quem é rei nunca perde a majestade, porque as regras seriam diferentes para a rainha do rock brasileiro?

Todos os anos, um fiel séquito de súditos marca presença nas apresentações da cantora em Porto Alegre. No sábado passado, 28 de maio, não foi diferente, e diversas gerações se reuniram no Teatro do Bourbon Country para reverenciá-la. Sem disco novo na praça, Rita preparou um repertório recheado de sucessos (poucos artistas têm tantas músicas em trilha de novela como ela) em um show intitulado ETC…

Pouco depois das 21h, a banda sobe ao palco. E com um desfalque: Beto Lee, filho de Rita, que anda atarefado com o reality show Geleia do Rock. Assim, coube ao maridão Roberto de Carvalho dar conta sozinho – com a competência habitual – dos solos e riffs de guitarra, enquanto Brenno di Napoli (baixo), Edu Salvitti (bateria), Danilo Santana (teclados) e Débora Reis e Rita Kfouri (backing vocal) formam o respeitável background.

A abertura não poderia ser mais adequada: “Agora Só Falta Você”, do fundamental Fruto Proibido, de 1975. A voz de Rita continua soando cristalina, ao contrário de muitos cantores que já passaram dos 60 anos (ela tem 63). É verdade que os efeitos no microfone e as competentes backing vocals a ajudam um pouco, mas não há dúvidas quanto à boa forma da ex-mutante.

Depois de “Vírus do Amor”, ela cumprimenta o público com um espanhol forçado e debocha: “Estive em turnê pela América do Sul e voltei com este sotaque. Sabe aquela pessoa que passa uma semana num lugar e já pega o sotaque?” Gargalhadas gerais. Logo depois, queixa-se de dores nas costas, comparando seu estado físico ao de Ozzy Osbourne (“acho que somos irmãos”). “Ficar velho é uma merda”, resume, antes de cantar “Saúde”. “Pagu” vem a seguir, com sua letra feminista (não panfletária) empolgando principalmente as mulheres, em maioria na pista.

“Ti Ti Ti”, “Bwana” e uma versão arrastada de “Hard Day’s Night” (de quem?) antecedem o número de Nick Goulart, cover gaúcho de Michael Jackson. A despeito da perfeita coreografia para “Bad” e de as semelhanças serem impressionantes, a performance parece um pouco deslocada no show de Rita. Mesmo assim, a plateia vibra. Detalhe: o número não é utilizado para dar uma folga à cantora, já que ela segue no palco, mas ao fundo, junto às backing vocals.

Em show no Teatro do Bourbon Country, Rita lembrou da amiga Elis Regina e se emocionou durante a execução de "Ovelha Negra"

Após a saída do MJ cover, Rita retoma seu lugar no centro do palco e manda dois clássicos oitentistas: “Banheira de Espuma” e “Chega Mais”, emendadas em um pequeno medley. Mas o melhor momento do show vem logo depois, quando a roqueira empunha um violão em “Doce Vampiro” e “Ovelha Negra”, certamente sua canção mais emblemática. A música, aliás, é uma minibiografia da cantora, ilustrada no telão com vídeos e fotos antigas dela. E também um momento de reflexão e homenagens à amiga Elis Regina, que, segundo Rita, foi uma ovelha negra como ela. “Não posso chorar”, diz, mas acaba não contendo a emoção e as lágrimas. Emendando um assunto no outro sem perder o fio da meada, declara seu amor a Roberto de Carvalho, seu “ovelho negro” há 35 anos.

Como é habitual nas apresentações da cantora na capital, ela teceu louvores ao Inter, seu time – ao menos no sul. Chegou a aparecer no palco carregando uma camisa do clube, o que provocou muitos aplausos e vaias. “Lança Perfume” encerra a primeira parte do show em clima de festa, com Rita apitando a torto e direito, assim como na gravação original.

De volta ao palco após um pequeno intervalo, a banda emenda a romântica “Desculpe o Auê”. “Ando Meio Desligado” é a única da época dos Mutantes, e nota-se que, entre os mais jovens, é uma canção pouco conhecida – alguns, inclusive, pensaram que se tratava de um cover do Pato Fu, que gravou a música há algum tempo. Mais dois hits dos anos 80 são apresentados no esquema “minimedley” (“Mania de Você” e “Flagra”), e cantados em coro pelo público. O espetáculo termina com “Erva Venenosa”, e a impressão de que faltaram muitas, mas muitas músicas. De fato, o show foi curto – cerca de 80 minutos, tempo de duração de uma boa coletânea em CD. Mas mesmo na melhor das coletâneas sempre fica a sensação de que poderia ter entrado alguma outra música. No caso de uma artista como Rita Lee, com décadas de carreira e dúzias de hits, só um show de três horas poderia resolver esse (bom) problema. E olhe lá…

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