Werner Herzog fez conferência no primeiro dia do III Congresso de Jornalismo Cultural com mediação do crítico de cinema Luiz Zanin (Crédito: Nelson Mello)

Conheci o Maurício Svartman na fila da credencial para o III Congresso Internacional de Jornalismo Cultural da Revista Cult. Em 2010, o evento foi no tradicional Teatro da Tuca, ao lado da PUC de São Paulo. Esse ano, entretanto, o Teatro do SESC na Vila Mariana foi o escolhido. Sozinho, logo puxei um papo com o colega jornalista e, logo, a conversa seguiu em rumo ao cineasta Werner Herzog. Seguiu facilmente, afinal, o alemão era primeira grande atração da semana e estava programado para abrir o congresso. A conversa também foi por esse caminho porque descobri que o Maurício, além de jornalista, estuda direção na Academia Internacional de Cinema em São Paulo e escolheu a obra de Herzog para estudar.

“Já vi cerca de 40 filmes e dá para observar algumas constâncias na obra dele, como o fato de todos os protagonistas terem traços de loucuras, ou acabarem loucos”, ele me explica. Maurício também trouxe uma câmera de mão, para filmar a palestra do cineasta. Quando pergunto se ele vai utilizar o material para fazer algum documentário ou curta, ele diz que não. “É só para o youtube mesmo”. Ele escolhera estudar a obra de Werner Herzog porque não a conhecia o suficiente, mas o que já havia visto achava fascinante. A verdade é que com mais de 60 filmes no currículo, incluindo-se aí documentários, longas, curtas, Herzog é um dos cineastas mais prolíficos do planeta. Alem disso já dirigiu peças, óperas e atualmente tem se enveredado também pelo campo da música.

Algo difícil de imaginar para aquele menino alemão que cresceu num país devastado pela segunda guerra mundial. Quando criança ele mesmo tinha que inventar as usas brincadeiras. “É a mesma coisa no cinema, tenho que inovar com as câmeras, sempre descobrir um jeito diferente de fazer um filme”, ele diz para uma plateia lotada às dez horas e pouco da manhã. Maurício já está distante de mim, em cadeiras mais próximas do cineasta, tentando captar toda a apresentação. A mediação da conversa é de Luiz Zanin, crítico de cinema do Estado de São Paulo. Herzog parece já ter uma espécie de discurso pronto para apresentações em congressos, sabe falar muito bem e com propriedade sobre suas inspirações. Uma história interessante é quando ele conheceu e conviveu com Glauber Rocha – homenageado dessa edição pelo congresso. Disse que Glauber representava a essência do Brasil, pois observava a alegria na tragédia, e sabia retratar a realidade. Da sua convivência com ele lembra da intensidade e do espírito intelectual do autor brasileiro e também a certa “desorganização no quarto”, como comentou.

Característica que divide com Glauber é essa intensidade no trabalho. Herzog é conhecido por tirar de seus atores o melhor, nem que tenha que passar pela mesma situação do ator. Caso emblemático lembrando na conferência foi a sua relação tumultuosa e, ao mesmo tempo, respeitosa com o ator Klaus Kinski. Comentou que foi um ator que ele aprendeu a “domesticar”. “Tivemos várias brigas, uma vez, inclusive, falei que ia atirar nele – sorte que não havia uma arma no momento”, revelou. O ator também não era fácil, excêntrico, costumava gritar nos sets, agir estranhamente, o que gerava só mais problemas. Mas, segundo o autor, “se você não sabe lidar com atores malucos não poderá ser diretor”, em uma espécie de conselho para futuros cineastas.

O melhor diretor de animais do cinema 

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Herzog diz que nunca fará uma continuação de um dos seus filmes (Crédito: Nelson Mello)

Se Herzog se apresenta um tanto que previsível e objetivo em grandes conferências, na coletiva que ele deu um pouco mais tarde, estava mais solto e mais assuntos foram explorados. Inclusive sua espécie de fetiche com animais em filmes. Maurício havia me explicado essa história um pouco antes do próprio Herzog comentar, enquanto estávamos a caminho da coletiva. “No documentário ‘Encontros do Fim do Mundo’ há uma cena emblemática em que ele filma um bando de pingüins e um deles se afastando do coletivo para subir a montanha e morrer”, disse. É o que Herzog gosta de fazer em seus filmes: utilizar os animais em uma espécie de metáfora da ideia central do filme. O cineasta alemão confirma a tese quando diz na coletiva que ama dirigir animais tanto quanto pessoas. “Aliás, acho que sou o melhor diretor de animais”, acrescenta. Ele corrobora a tese que os animais são uma metáfora e diz que eles também servem para criar um elo entre o protagonista que normalmente percebe que a manifestação do animal na história é importante e a plateia que se dá conta disso ao mesmo tempo que o ator.

Há dezesseis dias estreou nos Estados Unidos o novo documentário do cineasta, intitulado “Cave of Forgotten Dreams”, onde ele filmou cavernas com antigas pinturas rupestres. A surpresa, para o tradicional filmmaker Herzog é que foi filmada em 3D. Ele diz que não acredita nesse formato, que seria uma questão biológica até, o cérebro não se acostuma com essa visão durante muito tempo. Porém para esse filme foi importante, porque já que o documentário mostra muitas imagens em cavernas antigas além do próprio formato das rochas ser um dos atrativos principais, o 3D caiu como uma luva. “Eles não dizem: ‘você viu o filme?’, e sim ‘você viu aquela caverna?’. É uma forma diferente de encarar o documentário”, explica. Aliás, a história que o levou a dirigir o “Cave…” revela as motivações que levam o diretor a escolher seus projetos. Para conseguir dirigir o filme precisava passar pela aprovação de um conselho de cientistas. Ele então contou uma história que quando era criança ficou fascinado por um livro de paleontologia  que trazia desenhos rupestres na capa. Então, desesperadamente, fez tudo para comprar o livro, “como se só houvesse aquela cópia”, disse sorrindo. Os cientistas gostaram da empolgação. “Eu só posso fazer filmes se eu me apaixono pelos personagens”, confessa o alemão. Os dinossauros agradecem.

 Herzog é simpático, mas está com pressa. Precisa voltar para os Estados Unidos, mais precisamente no estado do Texas, onde está editando o seu documentário “Death Row”, sobre os prisioneiros condenados a morte nos Estados Unidos. Apenas um dos cinco projetos que toca atualmente. Nós ficamos aqui no Brasil esperando que os filmes do cineasta cheguem até nós e que sua obra seja mais difundida pelo país.

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Jornalista, mestrando em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras e nas pessoas. Twitter: @rafaelgloria
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