Texto e fotos: Paulo Finatto Jr. (paulofinattojr@hotmail.com)

Na década de sessenta, o jornalista norte-americano Hunter Thompson (1937-2005) conviveu por um ano com o ousado grupo de motoqueiros Hells Angels. O resultado da experiência foi relatado nas páginas de Hell’s Angels – Medo e Delírio sobre Duas Rodas (com apóstrofo no título, embora o sinal gráfico não seja utilizado no nome do grupo de motoqueiros), o retrato mais completo sobre o fenômeno das gangues de motociclistas e o seu envolvimento com a contracultura da época. Ao escrever o livro, que é considerado um clássico do new journalism – mais especificamente do jornalismo “gonzo” -, Thompson nunca imaginou a possibilidade de que, quase 50 anos depois, o movimento ainda conquistasse adeptos mundo afora.

Inaugurado em dezembro de 2010, o Cantil 64 é referência para os fãs de rock’n’roll que moram em Igrejinha e arredores

O pacato município de Glorinha – distante cerca de 40 quilômetros de Porto Alegre – é a prova de que a tradição de grupos de motoqueiros transcendeu a época. O bar Cantil 64, inspirado nos estabelecimentos de beira de estrada da famosa Route 66, é um espaço distinto e dedicado exclusivamente ao público que aderiu à filosofia das motocicletas e do rock’n’roll dos anos 70. A ideia nasceu a partir de um antigo sonho de Iver Daneo, 47 anos. “Sempre curti esse negócio de motocicleta e rock’n’roll. Ou seja, nada mais natural do que ter um bar desses como meu hobby”, revela o proprietário.

Para concretizar o sonho de muitos anos, Daneo investiu cerca de R$ 100 mil na reforma do imenso casarão, construído praticamente na beira da rodovia Free Way (BR-290), principal acesso que liga a capital gaúcha às demais cidades da região metropolitana.  Como o Cantil 64 não nasceu com a ambição de ser a principal atividade de seu proprietário (um restaurador artístico reconhecido inclusive internacionalmente), não existe por trás do bar a necessidade do retorno financeiro imediato. “Espero o prestígio de quem curte essa filosofia de vida. O bar está em ascensão e se o negócio for autossuficiente já é o bastante para mim”, define Daneo. Na inauguração do estabelecimento, em dezembro de 2010, cerca de 800 pessoas visitaram o Cantil 64 para assistir ao show do renomado grupo gaúcho The Travellers.

De certo modo, a pequena cidade de Glorinha (que não possui mais do que sete mil habitantes) precisava de um lugar que pudesse servir como referência para o público aficionado não apenas pelas motocicletas, mas principalmente pelo rock’n’roll. Sem nenhum estabelecimento semelhante na região, o Cantil 64 almeja conquistar o título de point obrigatório para o movimento em todo o estado. “Existia a necessidade de um lugar assim por aqui. Quem está na estrada, com a sua moto, provavelmente gostaria de encontrar um bar no estilo norte-americano e dedicado ao rock’n’roll”, afirma Daneo.

Sem Remorso

Visitantes do Cantil 64 podem jogar sinuca sem custo nenhum

Não é só do rock e das bebidas alcoólicas que vive o Cantil 64. A casa, onde por anos funcionou um restaurante de comida italiana e passou mais de uma década com as portas fechadas, serve como sede do grupo de motociclistas Sem Remorso, do qual Daneo faz parte. Certamente, a relação íntima com a moto foi fundamental para que o marceneiro concretizasse o sonho de um dia abrir um bar como o Cantil. “Esse público, mais do que nunca, aproveita um momento econômico aquecido. A prova é o encontro que realizamos para os fãs de Harley-Davidson, que reuniu mais de 80 pessoas.”

A filosofia old school do Sem Remorso, comprovada a partir do estilo customizado das motos ou através do modo característico que os seus integrantes se vestem, vem aproximando o grupo de outros apaixonados por motocicletas, sejam eles membros de motoclubes ou não. O ódio e a violência não representam o dia a dia do Sem Remorso, constituído atualmente por 11 membros. Pelo contrário: o que se percebe é uma amizade forte e praticamente rara nos dias de hoje. “Recentemente, acolhi três viajantes. Eles dormiram, tomaram banho e se alimentaram aqui no bar”, conta o proprietário.

A segurança do local – com estacionamento próprio e fechado – assim como da região (que possui índices de criminalidade baixíssimos) permite uma tranquilidade ímpar para os que estão de passagem pelo bar. Não há dúvidas de que os motociclistas que veem o Cantil 64 na beira da estrada ficam empolgados e se apaixonam pelo estabelecimento.

Rock’n’roll e muitas outras coisas no cardápio

Em funcionamento às quintas e às sextas, a partir das 19h, o bar possui uma proposta diferenciada aos sábados. Nesses dias, a casa abre às 11h e oferece duas ou três opções de almoço por um valor de, em média, R$ 12. A experiência de colocar bandas ao vivo à tarde e à noite vem funcionando satisfatoriamente e agradando o público, principalmente o de meia-idade. De acordo com o proprietário, os mais velhos não costumam ficar no Cantil 64 pelas madrugadas adentro. “Isso acontece porque Glorinha ainda tem características interioranas. No entanto, estamos trazendo um público seleto, já que a gente sabe que a cultura do rock’n’roll não é para todos”, observa.

Se o repertório semanal da casa parece bem definido – o Cantil 64 não abre precedentes para gêneros populares como o sertanejo universitário ou até mesmo para o pop rock (apesar dos constantes assédios) –,Daneo ainda se mostra aberto ao que deve formar o cardápio definitivo da casa. “Além dos petiscos, nossas cozinheiras estão capacitadas para preparar o que os clientes quiserem, como carreteiro de charque, feijoada, mocotó e até mesmo aquele sopão para os dias mais frios do ano”, garante.

Para atender ao público, rotulado de “muito exigente” pelo proprietário da casa, o Cantil possui uma completa carta de vinhos e uma imensa lista de destilados e cervejas, praticamente de todos os tipos e marcas. Além disso, “se um grupo grande programar e quiser vir para cá, temos a estrutura para fazer churrasco e até pratos especiais, como peixes e saladas variadas”, complementa Daneo.

Decoração e objetos do bar foram construídos na marcenaria de Iver Daneo

A verdade é que os frequentadores do Cantil 64 experimentam uma viagem única dentro do bar. É como se entrássemos em um túnel do tempo e resgatássemos toda a cultura dos anos 70, tanto na música como no visual do estabelecimento. O bar temático segue a estética das motocicletas e das pin-ups, além de ser uma espécie de showroom para o trabalho de Daneo, que construiu em seu ateliê cada objeto decorativo encontrado dentro do estabelecimento, com capacidade para mais de mil pessoas.

O público fiel do bar, que possui uma cultura musical bem definida, vem em busca do rock clássico, que costuma ser executado por bandas novas e alternativas. Grupos de rockabilly e blues se apresentam frequentemente no bar, e assim o repertório é verdadeiramente amplo, variando de hits do Creedence Clearwater Revival até DVDs mais recentes de nomes como Black Label Society e Mötley Crüe.

No caminho para virar uma referência

Mesmo que ainda esteja em processo de fidelizar o público e cobrir os custos – que giram em torno de R$ 3 mil a R$ 4 mil por mês – o Cantil 64 certamente já cravou o seu nome em Glorinha como um lugar não só para os motociclistas, mas para os que amam ama a essência do rock. “A ideia é que o Cantil seja mesmo um ícone no Rio Grande do Sul e, por que não, no Brasil. Tanto é que no fim do ano queremos fazer um encontro sul-americano para os apaixonados por Harley-Davidson”, antecipa Daneo. Acima de tudo, o Cantil 64 é uma iniciativa que satisfez os desejos pessoais de seu proprietário. “Ver que isso faz um monte de gente feliz não tem preço. Estou tranquilo e feliz porque todos vêm aqui querendo voltar. Acredito que fiz a minha parte.”

Atualmente, Daneo passa mais tempo no Cantil 64 do que em sua própria casa e não esconde que, se um dia o estabelecimento virar a sua atividade principal, será algo bem-vindo. “A repercussão do bar está incrível. Já recebi duas propostas de empresários de Porto Alegre e de Florianópolis para levá-lo para as cidades. Realmente encanta as pessoas, mas não surgiu com a pretensão de virar um grande negócio. Se acontecer, ótimo”, reflete. O retorno financeiro não é a prioridade do Cantil 64, ao ponto de Daneo ainda não ter se preocupado com a divulgação do local. Porém, a programação completa encontra-se disponível no site do estabelecimento, que ainda pode se reservado para eventos fechados e encontros empresariais.

Em contrapartida, o bar ainda sofre com o preconceito de uma cidade tipicamente interiorana e pouco acostumada com o cotidiano roqueiro. “Os moradores de Glorinha olham para esse espaço como um lugar sinistro. Tem gente que vem só espiar e vai embora, com medo. Eles possuem ainda aquele estereótipo do rock’n’roll relacionado com as drogas, do motociclista com a agressividade. Ficam chocados”, revela. Porém, o proprietário do Cantil 64 conta que nunca enfrentou maiores problemas por causa da filosofia de vida adotada pela casa e pelos integrantes do Sem Remorso. “Tanto que realizamos um encontro de motocicleta em parceria com a prefeitura. Os políticos daqui sabem que o Cantil é hoje uma referência para Glorinha, que traz pessoas de fora para cá. É uma das poucas atrações culturais da cidade”, argumenta.

Não há dúvidas de que o Cantil 64 não é um boteco qualquer. Os moradores de Glorinha, sobretudo os mais jovens, estão descobrindo o rock’n’roll e retirando o “tapa-olho” do preconceito cultural a partir do que Daneo vem fazendo pelo gênero e, ao mesmo tempo, pelos motociclistas. Se os mais novos estão deixando de frequentar os tradicionais bailes de música sertaneja da região para se aprofundar nas raízes mais viscerais do rock, o público mais velho também marca sua presença, sobretudo às quintas. No entanto, para o proprietário, “ainda é muito cedo para dizer que existem frequentadores assíduos. São pessoas que estão conhecendo uma cultura rica, que se contagiam e que quase sempre voltam”.

Com todo um leque de facilidades oferecidas pela casa, como o sistema informatizado para o uso de cartão de crédito/débito e o estacionamento gratuito, o Cantil 64 quer agora ampliar a sua programação, sobretudo musical, com shows de bandas conhecidas pelos fãs do gênero. O espaço físico de quatro mil metros quadrados pode ser ampliado, mas por enquanto essa não é a prioridade. “Queremos agora realizar grandes eventos, sem deixar de valorizar as bandas que estão nos apoiando e a ajudando a manter o bar”, ressalta.

Da sacada do Cantil 64 é possível ver duas imensas chaminés que, mesmo durante a noite, não param de funcionar. Elas são de uma fábrica que produz painéis em MDF, utilizados na criação de diversos móveis e pisos domésticos. No entanto, Daneo vê a paisagem ao redor com outros olhos e faz questão de passar adiante o seu inusitado ponto de vista. “Digo para as pessoas que são os navios ancorados no porto do rio Mississippi”, brinca.

O show

Mr. Breeze, banda cover do Lynyrd Skynyrd, em ação no palco do Cantil 64

Por volta da meia-noite, a banda Mr. Breeze entra em cena no palco montado ao fundo do Cantil 64. O espaço, relativamente amplo se comparado com as casas da capital gaúcha, proporciona uma disposição mais inteligente e menos apertada dos nove integrantes de um dos principais tributos ao Lynyrd Skynyrd do país. Homero Oliveira (vocal), Pedro Leão, Robson Rodrigues e Gabriel Dau (guitarras), Guilherme Borsa (baixo), Guilherme Mittmann (teclado) e JP (bateria), que ainda contam com as vozes de apoio de Flávia Moreira e Julia Lucas, iniciam o repertório da noite com “That’s How I Like It”, uma das mais potentes faixas do álbum Vicious Cycle (2003).

Embora a plateia do Cantil 64 não seja expressiva – em razão da chuva que caiu durante todo o dia ou pelo fato de o bar ainda estar conquistando o seu público – os poucos presentes deixam transparecer o seu carinho pelo rock setentista e, principalmente, pelo Lynyrd Skynyrd. Na sequência, os anos de Ronnie Van Zant com a banda são abordados através das clássicas “Whiskey Rock-A-Roller” e “Saturday Night Special”. Entretanto, as duas faixas são intercaladas com “Simple Man” – que é sempre um momento ímpar nas apresentações da Mr. Breeze – e pela aplaudida “On the Hunt”. Em seguida, “Gimme Back My Bullets” e o hino “Sweet Home Alabama” vêm antes de “Call Me the Breeze” e de uma pequena pausa para descansar.

Na volta da Mr. Breeze ao palco, pequenos problemas técnicos – que à medida que um amplificador foi queimado acabaram ficando cada vez maiores – prejudicam a sequência do espetáculo. Depois de “The Needle and the Spoon” e “Don’t Ask Me No Questions”, o grupo passa a atuar com apenas dois guitarristas. O som da casa, regulado de modo inconstante, varia demais e compromete um pouco a performance dos caras. Mesmo com os contratempos, o grupo consegue dar a volta por cima e mostra consistência técnica. Na sequência, “Gimme Three Steps” e “I ain’t the One” conquistam os mais fanáticos, ao mesmo tempo em que “I Know a Little” e “That Smell” agradam os mais saudosistas.

Os funcionários da casa – assim como os motociclistas do Sem Remorso – são os mais empolgados com a apresentação. Porém, os poucos frequentadores do local se surpreendem com a impactante versão de “Tuesday’s Gone” assinada pelos gaúchos, provavelmente um dos destaques da noite. Depois de “Travellin’ Man”, a Mr. Breeze comprova o quanto domina a discografia da banda homenageada: a “nova” “Still Unbroken” (de God & Guns, de 2009) e “Red White and Blue” são executadas antes da derradeira despedida com a épica “Free Bird”. O encerramento é certamente o ápice do show: os mais bêbados e os mais exaltados se concentram em frente ao palco (pela primeira vez durante todo o espetáculo) e vibram com cada solo da música.

Depois disso, a banda retorna ao palco para uma pequena brincadeira com os motociclistas. Com a ida de Robson Nunes para a bateria e com um corajoso membro do Sem Remorso no posto de vocalista, a Mr. Breeze emenda “Born to Be Wild” (Steppenwolf) e “Rock and Roll All Nite (Kiss). Em uma performance visceral, o grupo deixa o Cantil 64 com a certeza de ter proporcionado mais uma grande noite ao público de Glorinha e arredores. Antes de ir embora, por volta das quatro e meia da manhã, uma cortesia oferecida pela casa aos músicos e a ao repórter: uma magnífica feijoada e um ótimo carreteiro.

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4 comentários sobre “Cantil 64 – motocicletas & rock’n’roll no interior gaúcho

  1. Citando a primeira foto da matéria com referência a localização “não é Igrejinha e arredores” e sim “Glorinha e região metropolitana”. Fica aí também a minha retificação ao redator da matéria, no mais o Cantil64 agradece a sintonia de todos que somam de forma positiva para difusão do Rock and Roll e da cultura Biker.
    # Iver Daneo – Sem Remorso M.C.#

  2. Sou amigo do Iver Daneo, morador de Santa Vitória do Palmar e na inauguração fui o responsável pela seleção de repertório. Rolou de tudo, de Johnny Winter a Buddy Guy, passando por Creedence e terminando no bom e velho Rocanroll dos Stones.
    Foi uma noite espetacular e o CANTIL 64 é tudo o que se diz dele e mais um pouco.
    Vale a pena conhecer.
    Um abraço

  3. O texto seria interessante se não tivesse cometendo um grande erro. Hells Angels existe, e nunca esteve em queda, pelo contrário, é hoje o maior clube do Mundo, e a cada dia inaugura novas Chapter pelo mundo a fora. Acho que falta um pouco de informação para o redator, que não sabe oque fala, pois não deve conhecer a cultura Biker. Fica ai minha retificação.

    Terceiro- President
    Prospect 81

  4. Pô,valeu mesmo pela matéria fico muito boa,precisamos de pessoas assim pra falar essas coisas e ver que só estamos ai pra se divertir e escutar um bom rock and roll…

    Abraços,Daiano Dalmina……SEM REMORSO M.C

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