Paulo Finatto Jr. (paulofinattojr@hotmail.com)

Fotos: Liny Rocks (http://www.flickr.com/linyrocks)

Se a primeira geração da música popular brasileira possui representantes que escreveram os seus nomes na história da cultura nacional, já a segunda leva de compositores conquistou o seu espaço pela originalidade e pela ousadia de suas criações. Entre os principais nomes dessa “nova” safra está José Ribamar Coelho Santos, ou como prefere ser chamado, Zeca Baleiro. Em sua mais recente turnê, que resgata seus maiores sucessos e poucos hits radiofônicos, o cantor mostrou na capital gaúcha o misto de simplicidade e tranquilidade que contorna boa parte do seu repertório clássico.

É muito provável que poucos cogitavam se deparar com o numeroso público que encheu o Opinião. Por não possuir nenhum álbum novo na bagagem – ao contrário da apresentação do ano passado, que repercutia o bom “Concerto” – Zeca Baleiro entrou em cena para dar aos presentes a oportunidade de conferir mais uma vez o seus maiores hits (mas não os comerciais). De novidade, apenas a repaginada instrumental de algumas faixas e duas surpresas que apenas evidenciaram a figura harmoniosa do músico maranhense.

Por volta das 21h30, Zeca Baleiro subiu ao palco do Opinião acompanhado por Tuco Marcondes (guitarra), Fernando Nunes (baixo), Pedro Cunha (teclado) e Kuki Stolarski (bateria). O atraso, de cerca de meia hora, foi necessário devido à quantidade expressiva de pessoas que aguardavam na fila, do lado de fora da casa. Curiosamente sem mostrar muita surpresa a quantidade mais do que expressiva de pessoas no recinto, o cantor maranhense abriu o show com “Meu Amor, Minha Flor, Minha Menina”, que mistura satisfatoriamente bem as características da MPB com algumas influências do rock n’ roll mais clássico. Na sequência, o repertório eclético deu as caras. O hit “Vai de Madureira” possui, acima de qualquer coisa, o swing do samba/rock. Na plateia, os fãs cantavam timidamente junto com Zeca, enquanto poucos casais arriscavam uma ou outra dancinha.

Se alguém se sentia decepcionado pela ausência daquelas músicas mais populares do cantor, sobretudo as que foram incluídas em diversas trilhas sonoras de novelas globais, como “Samba do Aproach” e a recente “Homem com H”, não houve nenhuma prova significamente forte que pudesse comprovar isso. Por outro lado, músicas menos consagradas, como “Tacape”, conseguiram aplausos volumosos do público gaúcho. Em seguida, a cadenciada “Trova (Aonde Flores)” manteve o mesmo ambiente calmo que contornou a apresentação desde a sua abertura.

Não só a música anterior, mas a sequência do espetáculo veio para comprovar: os momentos introspectivos se sobressaíram aos mais enérgicos do show. Com uma roupagem cadenciada e instrumentos acústicos (relativamente diferente da original), “Versos Perdidos” antecedeu outro hit radiofônico do cantor, “Você é Má”, outra música lenta do repertório montado por Zeca Baleiro. Por outro lado, o compositor maranhense ainda mostrou uma versão repaginada de “Bola Dividida” que, com um swing típico do samba/rock, motivou que outras pessoas iniciassem outras dancinhas na pista. A música, que é uma das mais imponentes dessa novo set-list, chegou a ser cantada unicamente pela plateia.

Em seguida, a primeira – e provavelmente a maior – surpresa da noite. De banquinho e violão, Zeca Baleiro contou para a plateia que estava com vontade de executar músicas de compositores gaúchos naquela altura do espetáculo. A versão para “Nuvem Passageira”, da dupla Kleiton e Kledir, pode ser apontada como o ápice do show, sobretudo no quesito sintonia entre artista e público. Com a mesma estrutura intimista montada no palco do Opinião, o compositor maranhense mandou ainda a bonita “Carmo” antes de enveredar para duas faixas mais conhecidas: “Babylon” e “Quase Nada”, essa última acompanhada pelas vozes e pelas palmas da plateia.

Com o público na mão, Zeca Baleiro anunciou a segunda surpresa da noite e, certamente, a mais ousada. O duo maranhense Criolina – formado por Alê Muniz (guitarra) e Luciana Simões (vocal) – assumiu a sequência da apresentação. A mistura do reggae e do pop – contornados por um risco marcante do cancioneiro regional do Maranhão – mostrou qualidade de sobra, apesar de desconhecida por praticamente todos os presentes. De qualquer modo, “Afinado a Fogo” animou muito mais os fãs de Zeca Baleiro do que “Eu Vi Maré Encher”, antes da banda se despedir extremamente satisfeita pela oportunidade concedida por Zeca Baleiro – que chegou a ir para os bastidores para deixar a dupla mais à vontade – em solo gaúcho.

O clima introspectivo, que havia sido deixado de lado quando o Criolina entrou em cena, manteve-se ainda à parte do espetáculo, sobretudo pelo swing característico das músicas seguintes. De um lado, “Salão de Beleza” manteve o pique animado, com o público cantando junto. De outro, a cadenciada “Telegrama” – outro grande sucesso com a voz de Zeca Baleiro – trouxe uma dose extra de tranquilidade para a apresentação, que caminhava por essas duas estradas alternadamente. Antes de abandonar o palco pela primeira vez, o músico maranhense executou a bem-humorada e animada “Toca Raul”, assim como um pequeno trecho de “Óculos Escuros”, do “homenageado” Raul Seixas.

De volta para o bis, a cadenciada “Ópio” serviu como contraponto ao encerramento mais agitado programado para a noite fria do início de junho na capital gaúcha. Com o duo Criolina de volta, Zeca comandou uma interessante versão para “Mamãe Oxum” que, com o instrumental alongado no final, ganhou ares da épica “Free Bird”, do Lynyrd Skynyrd. Na sequência, os acordes densos de “Eu Detesto Coca Light” indicavam como seria a derradeira despedida, com o hit da era MTV “Heavy Metal do Senhor”. O público que deixou o Opinião – ou que ficou para a habitual festa anos 80’ da casa – se despediu de Zeca Baleiro com uma certeza após 1h45 de show: a simpatia e a simplicidade do músico criaram o ambiente perfeito para o seu repertório introspectivo e de swing ímpar.

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Um comentário sobre “Zeca Baleiro: simplicidade e swing maranhense em Porto Alegre

  1. Apesar de sua crônica elogiosa, venho aqui discordar de você. No seu modo de descrever, parece que o show foi morno e calminho. Foi um show muito feliz, com energia e sintonia a mil entre Zeca e público. Na minha opinião um show quentíssimo , agotado, com o publico cantando e pulando o tempo todo. Os vídeos mostram isso.
    Zeca cantou mesmo “Nuvem Passageira” que é Hermes Aquino, compositor ,poeta e poublicitário gaúcho e nao da dupla Kleiton e Kledir.
    Tambem nao lembro que tenha cantado Tacape. Cantou Trova, musica densa, sempre sucesso e pedida nos shows.
    Arriscou um trechinho de “Lua Caiada”, do Nelson Coelho de Castro,tambem gaúcho.
    Tamvem não cantou “Opio”: esta musica se chama “Bandeira” e é uma homenagem ao poeta Manuel Bandeira que a inspirou, com seu poema “Belo Belo.”
    Zeca ja falou que um dia muda o nome, porque todo mundo a chama de Opio mesmo,rs
    Quanto à simpatia e simplicidade, concordo inteiramente com você. Acho que é este o carisma do artista.
    Desculpe os “pitacos”, mas o show foi tudo de bom, menos introspectivo.

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