Fotos: Mariana Gil

O artista plástico Nelson Wilbert apropria-se de ícones da história da pintura na exposição "Remix"

Nelson Wilbert é, acima de tudo, um pintor. Foi para pintar que ingressou no final da década de 1980 no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e é pela pintura que dedica horas a fio de seu trabalho como artista plástico. É justamente esta proximidade com as tintas e pincéis que está à mostra na sua exposição individual “Remix”, inaugurada no dia 2 de agosto na Galeria Bolsa de Arte de Porto Alegre.

O artista recebeu o Nonada na própria galeria no dia seguinte ao da vernissagem da exposição. Feliz após um período exaustivo de produção que havia começado em janeiro deste ano, ele falou sobre a sua atual linha de trabalho e trajetória artística. Logo a inquietação maior de Wilbert, expressa nas obras expostas, evidenciou-se.

“Eu não quero parar de pintar para me inserir no meio contemporâneo, eu quero continuar fazendo pintura”, afirma. Referindo-se à época em que estava saindo da universidade, em 1993, ele constata a gradual perda do espaço da pintura na arte contemporânea, relacionada ao surgimento de novas tecnologias. “O meio artístico deixou um pouco de lado os métodos antigos e quis novidades, mídia eletrônica, mídia digital, instalações”, explica, e cita a significativa redução da presença de pinturas nas bienais como uma prova deste processo.

Tal sensação incomodou Wilbert ao ponto de fazê-lo reconhecer-se durante certo período apenas como pintor, e não como artista plástico. Ele percebeu uma guerra por valorização neste meio. E já que havia guerra, decidiu vestir a pintura nos trajes adequados para o campo de batalha: camufladas.

As Monalisas camufladas fazem parte da mostra

Camuflagens As camuflagens vêm caracterizando o trabalho do artista desde 2005. Sobrepondo em seus quadros camuflagens de exército a ícones da pintura como a Monalisa de Leonardo da Vinci, construiu uma metáfora que, segundo ele, é quase um depoimento. “Foi uma ironia, uma brincadeira, mas essa brincadeira me pegou”, comenta.

A sua produção, que já era marcada pela referência a outras obras artísticas, recuperou imagens facilmente reconhecíveis e marcantes da história da pintura. Misturando-as através de padronagens de guerra, expressou a sua inquietação em relação ao seu próprio ofício de pintor.

“Remix” é um desdobramento sofisticado desta linha de trabalho, como diz o artista Carlos Krauz no texto de apresentação da mostra. Em um primeiro olhar que se lança para as paredes da galeria, chama a atenção a beleza dos quadros e as cores vibrantes. Olhando mais de perto, o acabamento de algumas telas criado com perfeccionismo faz-nas parecerem serigrafia, não pintura, como observou a fotógrafa desta matéria.

A exposição surgiu da vontade de mostrar um trabalho que ia à galeria mas ficava escondido no acervo. Poucas pessoas tinham acesso a ele, e logo era vendido. O tempo demandado na produção também era determinante neste sentido: os primeiros trabalhos demoravam de dois a três meses para serem feitos. “Isso me fez pensar que em algum momento eu ia ter que parar, deixar um pouco de lado a venda e me esforçar para juntar uma série e fazer uma exposição, para que as pessoas efetivamente vissem as obras”, comenta. O desejo veio a se concretizar na Bolsa de Arte.

Os rostos de Monalisas e outras figuras como a Mademoiselle Caroline Rivière de Ingres, coloridos e sobrepostos a texturas como as de William Morris, um dos fundadores do movimento britânico Artes e Ofícios, mostram um artista que olha para o passado da pintura, mas sem deixar de perceber a sua conexão com a pop art. “Essas imagens não vêm como imagens do Renascimento, ou como pintura inglesa do século XVIII. Elas aparecem mais como uma referência a Andy Warhol, com as repetições, (séries de Monalisas, séries de camuflagens) e cores luminosas”, explica.

Wilbert utiliza o computador para fazer os projetos das pinturas

Tecnologia digital Contando que muitos o questionam sobre a sua autoria, já que trabalha com referências claras do passado, Wilbert explica que se identifica como autor justamente no trabalho de “DJ” da história da arte. Aí está também a origem do título de sua mostra, “Remix”. “O DJ pega uma batida do samba, uma música antiga, e mistura. Ele tem n possibilidades de ritmos, de sons, de batidas e vai trabalhando-as de forma digital até chegar em uma nova música a partir daquilo que já existe. Assim eu faço com a pintura”, comenta. A partir de referências, ele cria novas imagens.

Para além da releitura que caracterizava mais a produção do início de sua carreira, o artista foi desenvolvendo o seu trabalho através da apropriação. Ele mantém os traços originais da referência, deixando os rostos das Monalisas, por exemplo, completamente reconhecíveis. A utilização da tecnologia digital veio a calhar neste ponto, já que fazendo os seus projetos no computador ele pode manter com mais fidedignidade os contornos das imagens originais e prever seus resultados de sobreposição. Esta é mais uma das ideias que o fizeram pensar no conceito de “remix”.

Wilbert começou a utilizar o computador logo após a sua exposição “Intersecção”, realizada em 2004, em que se apropriava de imagens de Van Gogh redefinindo-as com pregos. Não era o processo de pintura, e sim uma forma particular de lidar com a oxidação. Unindo os recursos digitais à vontade de voltar a pintar, ele começou a brincar no Photoshop com as imagens de referência. “Descobri o recurso de transparência, que pra mim era bárbaro: eu podia vislumbrar o que antes eu só podia saber fazendo”, conta.

Este recurso interferiu inclusive na busca da cor ideal, fazendo-o entrar em contato com novas possibilidades dentro do próprio universo das tinhas. A cor-luz, característica do ecrã do computador, é muito diferente da cor-tinta. “Comecei a perceber aquela cor, e fui buscar as tintas que eram mais luminosas. Assim entrei contato com tintas mais fluorescentes, muito mais claras do que normalmente eu usava”, explica. Algumas das Monalisas camufladas da exposição são compostas por formas preenchidas com cores tão vivas que fazem o artista pensar nas balinhas e jujubas da sua infância.

Questionado sobre porque de não fazer das imagens digitais o seu trabalho, ele esclarece que essa não é a sua história, e nem o seu objetivo. “Este trabalho nasceu da minha vontade de pintar. E tem uma coisa que acho bonita: a Monalisa é uma pintura, o William Morris fez estamparia, ou seja, foi tudo feito manualmente. Isso vai pro meio digital, é misturado ali, e depois volta pro recurso da pintura. Não enxergo poesia, e nem o meu trabalho, se não existe essa volta”, comenta.

Ao fundo, uma das pinturas feitas sobre papel

Diferentes suportes Além das telas, estão expostas na galeria cinco obras em papel. A opção por este inusitado suporte foi feita devido à agilidade que ele permite na produção. Wilbert já havia feito este tipo de trabalho na faculdade, mas não o imaginava em exposição. Ele considera a nova experiência muito válida, e acredita que os trabalhos em papel não entram em conflito com as telas, que exigem muito mais paciência na execução.

Sobre o suporte tela, com que ele está mais acostumado, Wilbert comenta que “não pode aparecer a pincelada, tem que ter limites definidos, não pode haver transparências”. São quatro ou cinco camadas da mesma cor necessárias para chegar ao ponto ideal. “O trabalho em papel é muito mais gestual e expressivo, em duas tardes eu termino uma obra”, completa. Wilbert pretende continuar utilizando este suporte daqui para frente para ampliar a sua produção, pensando também em termos comerciais.

A exposição “Remix” pode ser visitada até o dia 3 de setembro de 2011. Mais informações no site da galeria Bolsa de Arte. Para saber mais sobre Nelson Wilbert, visite a página oficial do artista:  nelsonwilbert.com

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2 comentários em “Remix – a pintura vai à guerra”

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