Fotos: Mariana Gil

Fernando Anitelli encantou o público gaúcho com seu Teatro Mágico

Misturando artes cênicas, música e outros elementos que encantam o público, O Teatro Mágico se apresentou no sábado, dia 27 de agosto, no Opinião, em Porto Alegre. À frente da trupe, Fernando Anitelli – na sua característica roupa de couro vermelho, preto e branco com franjas – encerrou a turnê do segundo disco do grupo, O Segundo Ato, e apresentou o novo CD, A Sociedade do Espetáculo.

Formado em 2003, o grupo paulista – que não quer ser chamado de banda, pois prefere a denominação trupe – teve seu nome inspirado no livro O Lobo da Estepe, do escritor alemão Hermann Hesse. Na obra, a expressão “Teatro Mágico” era utilizada como eufemismo para uso de entorpecentes. A proposta, além de lutar pela popularização da arte, era criar uma espécie de sarau amplificado, onde diversas correntes da expressão humana encontram oportunidade.

Como não poderia deixar de ser, a abertura aconteceu de forma apoteótica, com direito a dupla com malabares de fogo, com “Abaçaiado”. A composição foi inspirada em uma lenda tupi, segundo a qual Abaçaí é o espírito que se apossa do índio, preparando-o para a luta. O guerreiro que recebe o espírito fica, portanto, abaçaiado.

A explicação, contudo, não apareceu no show, mas nem precisava. Quem estava lá e gritou a letra do início ao fim certamente já conhecia a história, reproduzida nos vídeos da internet. Continuando a festa, “Camarada D’água” fez os observadores dançarem e lembrarem a cantiga infantil “Peixe vivo”. “Como pode um peixe vivo viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua companhia?” transportou os espectadores de volta às rodas de brincadeira de criança. Em “Pratododia”, os seis músicos congelaram no meio da interpretação, dando lugar a um palhaço, que arriscou, inclusive, o solo de “Cai cai balão” na flauta.

Com citação de Arnaldo Antunes, Anitelli introduz “Xanéu nº 5” afirmando que a TV o deixou burro e levantando a bandeira da democratização dos meios audiovisuais do Brasil. Na platéia, aplausos e comentários contra a família que domina a comunicação no Rio Grande do Sul. No palco, o discurso político dá lugar à crítica cantada e aos elogios à internet.

Elementos de circo e teatro engrandeceram a apresentação da trupe em Porto Alegre

“Sonho de uma flauta”, uma das faixas mais esperadas da noite, ganha a complementação de uma acrobata no tecido instalado na estrutura do bar. As atenções, nesse momento, ficaram divididas entre os músicos e a bailarina, que exibia a coreografia poucos metros acima das cabeças dos observadores atônitos.

A parceria com Daniel Santiago foi exaltada por Atinelli, ao chamar o instrumentista e apresentá-lo oficialmente aos presentes como novo integrante do grupo. Além da sociedade com Santiago, a colaboração com os fãs foi homenageada na primeira música de A Sociedade do Espetáculo, “O que se perde enquanto os olhos piscam”, escrita com ideias dos usuários do Twitter.

Antes do início, uma explicação sobre a importância do processo de trabalho do conjunto, que disponibiliza as canções para os interessados na “nuvem” antes de lançar o CD completo. O Teatro Mágico faz uso da licença creative commons, que protege o direito autoral das empresas que queiram utilizar o material comercialmente, mas libera a obra para uso particular. Com isso, as pessoas em geral podem baixar livremente e compartilhar o trabalho de forma gratuita.

“Entrega” e “Eu não sei na verdade quem eu sou” também integram o novo CD, intitulado com o nome do livro de Guy Debord. Com lançamento previsto para 6 de setembro, o álbum traz composições mais maduras e temas diferentes dos dois discos anteriores. Completando a triologia prevista inicialmente por Anitelli, idealizador d’O Teatro Mágico, a obra lança uma dúvida sobre o futuro do grupo. O fundador garante, no entanto, que seu desejo é continuar se divertindo com o conjunto e refere-se a, quem sabe, uma trilogia de seis partes, como Star Wars.

A questão linguística também é tema d’O Teatro Mágico, em “Zazulejo”, que lista os erros mais comuns de pronúncia de certas palavras. O questionamento das regras impostas fica claro no verso “Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz”. No final, o vocalista sugeriu um embate entre o lado esquerdo da plateia, que gritava “Omovedor” e o lado direito, que respondia com “Carijangrejo”. A composição “Nas margens de mim”, parceria entre Anitelli, Santiago e Leoni (aquele das novelas e ex-Kid Abelha), foi mostrada pela primeira vez ao vivo. O público, que já conhecia a música da internet, acalmou-se e cantou baixinho: “quando o sol acena, bate em mim, diz valer a pena ser assim, que no fundo é simples ser feliz, difícil é ser tão simples”.

Violino também integra a musicalidade do grupo

A calmaria durou pouco. “A pedra mais alta” ganhou arranjo mais animado e acrobacias em um arco acima do palco. “O Novo testamento” que também estará no novo álbum da trupe, uma releitura de “Beat It”, de Michael Jackson, com semi strip tease de Anitelli, e “Pena” vieram a seguir, e o show o começou a se encaminhar para o final.

Ao perguntar o que os presentes desejavam ouvir e receber “Ana e o Mar” como resposta unânime, o vocalista declarou que aquela era a história de amor mais ridícula que ele havia escrito. Tirou sarro daqueles que, quando apaixonados, fazem “vozinhas e besteirinhas românticas” para, nos primeiro acordes, admitir que também as faz – e tem orgulho disso. Um solo de saxofone, digno das músicas bregas de amor, e os gritos igualmente bregas do pessoal da primeira fila no começo da letra fizeram parte do clima propositalmente brega criado pelo líder d’O Teatro Mágico.

A composição mais aguardada da noite encerrou o show. “O anjo mais velho”, escrita por Anitelli para seu irmão. A canção, que tem sua força nos versos “só enquanto eu respirar vou me lembrar de você. Só enquanto eu respirar”, crescia e recuava conforme a vontade dos artistas, e os espectadores acompanhavam em êxtase. A apresentação terminou com os artistas abraçados na cena, agradecendo a participação dos fãs.

Ao todo, nove pessoas interagiram com o público no Opinião. Sete músicos, todos impecavelmente maquiados, se revezaram entre bateria, baixo, guitarra, violão, percussão, tambores, violino, teclado e instrumentos de sopro. Até uma sanfona apareceu no espetáculo, tudo rigorosamente em seu lugar. Dois artistas circenses pontuaram o show com piruetas e atuações regadas a humor e alegria. Esse era o espírito geral ao fim da noite.

Apesar da execução de quase 20 músicas e uma hora e meia de show, canções como “Realejo”, “Cuida de mim”, “Eu não sou Chico mas quero tentar” e “Durma medo meu” ficaram de fora do repertório, que também apresentou pouca poesia, uma das propostas iniciais do grupo.

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