Fotos: Mariana Gil

Menos de quatro meses após estrear nos palcos de Porto Alegre, Julieta Venegas, a atual queridinha do pop latino, voltou à cidade. O sucesso das duas primeiras apresentações repetiu-se: o show do dia 31 de agosto lotou o Teatro do Bourbon Country, assim como as edições de maio. Além de apresentar as canções de seu mais recente álbum, Otra cosa (2010), Julieta interpretou hits de sua trajetória, que já completa praticamente duas décadas.

Sim, ainda que não pareça, a cantora do México tem 40 anos. Apesar de seu aspecto delicado e as temáticas quase inocentes de suas canções, ela tem uma vasta experiência que se comprova em números: Julieta acumula cinco Grammys Latinos e um Grammy, além de ter mais de cinco milhões de discos vendidos. O reconhecimento no Brasil começou lento, mas vem ganhando forma.

Ao longo da 1 hora e 45 minutos de apresentação e das 25 músicas, Julieta mostrou-se completamente à vontade no palco, ensaiando passos de dança e arriscando o portunhol na comunicação com o público. O vestido preto com detalhes artesanais coloridos combinou com o clima de suas canções: a latinidade das sonoridades não tardou a aparecer, remetendo às paisagens mexicanas principalmente pelos acordeões.

Foi com a simpática “Amores platónicos” que ela abriu o show, mostrando a sua habilidade ao teclado – este que seria apenas o primeiro dos diversos instrumentos que ela viria a tocar ao longo da noite. Logo na sequência, emendou a sua composição de maior sucesso, “Limón y Sal”, do disco homônimo (2006), levantando o público. A batida pop de “Otra cosa”, a terceira canção do setlist, ditou o tom alegre que predominaria no início da apresentação.

Foi antes da canção “Original” que Julieta admitiu sentir vergonha de seu portunhol. A timidez da cantora ficaria quase oculta durante toda a apresentação por trás dos cabelos soltos e lisos, não fosse esta afirmação e o riso sem jeito depois de algum engraçadinho da plateia gritar “gostosa”. A sua voz é tão doce quanto segura, chegando a ser forte em diversos momentos. Falando do que tratava a música que cantaria, ela explicou que qualquer mensagem torna-se original quando é dedicada de uma pessoa a outra – mesmo que já tenha sido dita várias vezes por milhares.

Depois de tocar “Tiempo suficiente”, “Algun día” e “Canciones de amor”– e, nestas alturas, já tendo pegado o acordeão e o violão – Julieta interpretou o single do novo trabalho: “Bien o mal”. A canção que fala da magia das novas paixões ficou famosa pelo ousado videoclipe, que mostra garotas de Tijuana, a cidade em que a cantora foi criada, comendo com as mãos e soltando “pedos de mariposas” – uma referência ao lado animal que qualquer um tem, e que pode se tornar até mesmo poético por ser tão natural.

O ponto alto do show veio com a romântica “Lento”, tocada por Julieta ao teclado logo após “Duda”. A plateia fez coro para acompanhar a cantora nos versos de amor. Coro que viria a se intensificar na música “Ilusión”, composição resultante de parceria com Marisa Monte, de quem a mexicana é fã declarada. O convite aos fãs para cantarem em português enquanto ela cantava em espanhol findou no momento de maior participação do público ao longo do espetáculo.

Outro momento marcante da noite foi a interpretação de “Jaula de Oro”, composição da banda mexicana Los Tigres Del Norte sobre a migração dos mexicanos para os Estados Unidos. A trajetória de um personagem estabelecido ilegalmente há 10 anos no país ianque, narrada em primeira pessoa, foi cantada com a tradicional delicadeza de Julieta sem perder a força de sua mensagem: “De que me sirve el dinero / Si estoy como prisionero / Dentro de esta gran nación?”. O acordeão marcava mais ainda a cultura e a regionalidade às quais a cantora insiste em referir-se, mesmo galgando o seu lugar no cenário internacional da música pop e tratando de temas universais quando fala de amor.

E se Julieta é multi-instrumentista, a sua banda não fica para trás. Os integrantes impressionaram pela variedade de instrumentos que dominavam, trocando entre si de posições. Músicos visivelmente em sintonia, ainda que na aparente diferença de estilos. Um conjunto variado assim como o público da apresentação, que tinha pessoas de todos os tipos. “Gente quente”, como definiu Julieta tentando explicar a sua admiração pelos fãs porto-alegrenses.

Já no final da apresentação ela emplacou mais dois sucessos do disco Limón y Sal: “Me Voy” e “Eres para mi”. A segurança de Julieta na interpretação desta última foi notável principalmente no trecho que na versão gravada é cantando pela rapper chilena Anita Tijoux. Sem perder o domínio sobre a voz, ela transitou pelo rap arrancando aplausos dos fãs. “El presente” fechou a apresentação antes do bis. Destaque ainda para “Amores perros”, “Debajo de mi lengua” e “Revolución”.

Foi um show inegavelmente vibrante pela pegada pop, mas também suave como a voz de Julieta. Um clima leve foi o que restou depois que os músicos deixaram o palco, e os comentários na saída do teatro de “se ela vier outra vez pra Porto, eu venho de novo”. A delicadeza da cantora, que não deixa de ser o seu diferencial no cenário da música pop latina, conquistou de uma vez por todas os porto-alegrenses.

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Um comentário sobre “Julieta Venegas conquista Porto Alegre pela delicadeza

  1. Excelente texto! Um relato perfeito dessa delícia de show. Eu estive lá e posso dizer que Mariana Sirena passeou por todos os momentos lindos vividos – por cada um – na prsença de Julieta Venegas, na noite de 31 de agosto.

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