O sorriso de Serapião é o sétimo livro de Antônio Calloni (Crédito: Divulgação)

Por Edgar Aristimunho*

A oportunidade de se comentar livros ou autores pouco conhecidos tem lá os seus atrativos, mas tem também os seus riscos – e são muitos. O atrativo de comentar um livro como O sorriso de Serapião (Bertrand Brasil, 2005, 112 pg.), de Antonio Calloni, está no inusitado de seus contos e no pouco usual desse escritor, normalmente um nome ligado à dramaturgia. Quanto aos riscos de se escrever sobre uma obra única dentro do cenário recente está no “pavor, com sua anestesia brutal” de uma prosa que se constrói aparte de tudo e de todos. Para quem quiser exercitar o prazer de uma leitura que surpreende, de uma escrita onde “a palavra tem som esdrúxulo”, o caminho é seguir os rastros de Serapião e outros personagens. Dono de uma obra relativamente curta (sete livros), no entanto curiosa, Antonio Calloni parece escrever como se estivesse dentro de seus contos: um “Relatório dentro de uma onda”. A imagem é perfeita.

Diferente de outras propostas narrativas curtas em efervescência na literatura brasileira contemporânea, a escrita de Antonio Calloni passa à margem. Sem grandes estardalhaços narrativos e sem deixar de lado a inventividade, Calloni combina bem texto, imagem, ritmo e música. Não é pouco.  Os contos de O sorriso de Serapião possuem uma força primitiva, algo que proclama as relações ali estruturadas para um tipo de condução que extrapola o razoável e torna imprevisível a conclusão dos contos. A escrita de Calloni tem essa mágica folclórica, essa qualidade visual que vem da poesia e nos produz a toda hora belas frases incidentais como esta: “Tive pouco tempo para tanto susto”. Frases que são uma espécie de dança das palavras e que acabam por cortar a narrativa, arremessando-nos do mundo naturalista da narração para o espaço do imponderável, da imaginação, da criação pura.

De todas as formas que se veja, contudo, a prosa de Antônio Calloni surpreende. A princípio de difícil catalogação, esta é uma obra versátil em suas opções de formato (poesia, novela, contos), como também versátil nas suas aproximações do ser humano que enfoca. Ora beirando o realismo, ora conversando frente a frente com o delírio das atitudes que são narradas, ocorre muitas vezes que os contos aproximam-se do fantástico – tão reais são. Quase sempre, contudo, há conversa muito próxima com o grotesco. De qualquer modo, estamos diante de um autor ciente do ofício da escrita.  A secura da escrita de Calloni de contos como “O homem objetivo” contrasta, muitas vezes, com os lapsos das personagem (“Sonhando com papai e mamãe”), com o deslocamento do narrador para dentro do que é narrado (“Relatório escrito dentro de uma onda”), chegando-se até mesmo a negociar com a própria forma da mensagem (“Um bilhete para Mary”). Como bem definiu João Gilberto Noll na apresentação do livro: “Logo se percebe que esse autor, de escrita musical, apresenta mais do que uma reconstituição das tortas relações ‘primitivas’. Pois o que realmente está em questão aqui é uma certa dormência no ato de viver, uma flutuação sem destino aparente, vivida por criaturas à beira de um idílico estado demencial”.

"De todas as formas que se veja, contudo, a prosa de Antônio Calloni surpreende". (Crédito: Divulgação)

Ao propor uma aparente conversa mansa com o leitor , Antônio Calloni em verdade nos captura. Inicialmente por um naturalismo, logo em seguida percebemos que os personagens não são apenas o que dizem (e fazem) ser. Sem dúvida, há alguma coisa que está fazendo barulho lá dentro das cabeças dessas criaturas que povoam os contos de Antonio Calloni. Seja pelo ritmo pautado, seja pela passagem abrupta e sem fim que vai do real naturalismo para o nonsense, em ambos os casos os contos estão sempre brincando nos abismos da loucura. Por essa razão, não há razão nenhum para o leitor procurar um sentido único para esses personagens entregues à própria sorte (a sorte que eles mesmos construíram a partir de seus atos), pois que estão misturados a essa espécie amorfa de mal-estar contemporâneo, ali contido, e que vai se alternando com visões deformadas e deslocadas de um tempo passado. Esse tempo em que “o amor começava a evitar fronteiras” e que agora “é plural e incorreto”. Como a boa literatura.

* É escritor e revisor, com pós-graduação lato senso em Letras pela UniRitter. Tem publicado pela Editora Dom Quixote o livro de contos “O homem perplexo” (2008) e participou da antologia “Ponto de Partilha”. Escreve no blog O Íncubo (http://oincubo.blogspot.com).

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