Fotos: Fernando Halal

Erasmo Carlos renovou seu repertório com dois bons álbuns de inéditas

Envelhecer com dignidade, eis uma missão difícil para aqueles que se arriscam a tocar rock’n’roll na famigerada terceira idade. Nem todos conseguem, é claro, e alguns até causam vergonha alheia. Felizmente, este não é o caso de Erasmo Carlos. Comemorando 70 anos de vida e 50 de carreira, o Tremendão voltou a Porto Alegre neste sábado, 18 de dezembro, para uma vibrante apresentação no Teatro do Bourbon Country. Na plateia, de adolescentes a senhores que viveram o auge da Jovem Guarda.

É inegável que os dois últimos discos de Erasmo foram fundamentais para lembrar o quanto ele contribuiu com a música brasileira e recolocá-lo na mídia. Seguindo um caminho distinto do amigo e parceiro de composição Roberto, ele mantém a veia rocker dos anos 60. Com Rock’n’Roll (2009) e Sexo (2011), ele renasceu como cantor e compositor.

Ver um setentão cantando uma música chamada “Kamasutra” (em que pergunta constantemente “em que posição”, ao referir-se a algumas das sugeridas pelo famoso livro do sexo) só é estranho para quem se acostumou à comportada carreira do Rei, marcada nas últimas décadas por baladas românticas pueris e cantos religiosos. O disco Sexo, aliás, é o fio condutor do show, desde o cenário, com manequins nus, ao discurso gravado pelo Tremendão no início, ressaltando a importância dos prazeres carnais.

Depois das antigas “Sou uma Criança, Não Entendo Nada” e “Mesmo que Seja Eu”, Erasmo se apresenta ao público. Com boas tiradas e um humor sacana, ele mostra que, a despeito de não ser um cantor brilhante, é carismático e sabe levar um show como poucos. “Amorticídio”, “Mulher” e “Minha Superstar” são homenagens às mulheres, que ele faz questão de elogiar em quase todos os momentos que para pra conversar com a plateia.

Com manequins nus erguidos sobre o palco, turnê gira em torno de Sexo, novo disco do Tremendão

Pausa para aliviar a sede. Erasmo bebe alguns goles d’água e se dirige ao público, apontando para a garrafinha: “é… os tempos mudaram”. Risadas gerais. O Tremendão já não é mais o mesmo? Bem, cantar “Roupa Suja” (“do meu amigo Arnaldo Antunes, um poeta sensacional”), que inclui o verso “me foder”, é algo que jamais veríamos Roberto Carlos fazer a essa altura. Ok, esta foi a (pen) última comparação entre os dois.

O show continua com “Panorama Ecológico” (“quando eu e o Roberto cantávamos essas músicas sobre meio ambiente, ninguém dava bola; depois vieram Bono Vox e Sting e todo mundo começou a prestar atenção. Acho que era porque cantávamos em português”, ironiza) e “Gatinha Manhosa” (“todo artista tem aquela música inevitável que precisa cantar, senão os fãs ficam tristes”). Nesta última, a voz de Erasmo dá sinais de desgaste, começando a sumir em determinados momentos, o que voltaria a acontecer mais algumas vezes até o final da apresentação. Sem vergonha das limitações, ele segue o espetáculo numa boa, mostrando que parecer perfeitinho diante do público nunca foi uma prioridade sua.

“Sentado à Beira do Caminho” é cantada em coro e seguida pela linda balada “Apaixocólico Anônimo”, que ele apresenta de forma debochada como “uma música sobre sexo oral que está na novela das 7” (Aquele Beijo). A primeira parte do show termina com “Jogo Sujo” e “É Preciso Saber Viver”, com um belíssimo arranjo do Quinteto de Cordas da PUCRS.

A banda sai do palco, deixando apenas o tecladista José Lourenço para acompanhar Erasmo no que o vocalista chama de “músicas de motel”, composições românticas que fizeram sucesso especialmente na voz de Roberto. Rapidamente, a dupla desfila trechos de “Desabafo”, “Proposta”, “Cavalgada”, “Café da Manhã”, “Detalhes”, “Eu te Amo” e “Como É Grande o meu Amor por Você”.

Antes tarde do que nunca: a banda de Erasmo, que além de Lourenço tem o veterano Billy Brandão (guitarra solo), Percy (guitarra) e os novatos Filhos da Judith –  Pedro Loppez (baixo), Luiz Loppez (guitarra) e Alan Fontenele (bateria) – merece todos os elogios. Em alguns momentos, pode parecer que há músicos em excesso no palco, mas essa formação faz com que a apresentação seja realmente pesada, com momentos inacreditáveis, como “Que Tudo Vá pro Inferno”, com um arranjo mais lento e riffs de… heavy metal!!!

Em “Cover”, Erasmo chama ao palco Robson Carlos, um perfeito cover do Rei

A sequência final é para lavar a alma daqueles que se frustram por Roberto hoje renegar alguns clássicos (ok, esta foi a última vez). Com  “Minha Fama de Mau” (apropriadamente o título da autobiografia do Tremendão), “Vem Quente que Eu Estou Fervendo”, “É Proibido Fumar” e “Pega na Mentira”, o público, até então acomodado em cadeiras, desiste de ficar sentado e começa a dançar.

“Cover”, do álbum Rock’n’Roll, é um dos momentos mais divertidos do show. Nela, Robson Carlos, um famoso e fiel cover do Rei, aparece no palco e distribui rosas para as mulheres das primeiras filas. Seria um bom desfecho, não estivesse faltando a empolgante “Festa de Arromba”. Na pista, gritos de “ei, ei, ei/Erasmo também é Rei”. Justo.

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