Não há dúvidas de que 2011 foi um ano excelente em matéria de shows no Brasil. De novatos promissores a dinossauros consagrados, foram inúmeros os artistas que visitaram o país. Outro fator importante é que Porto Alegre se consolidou como parada obrigatória (ou quase isso) para os gringos que excursionam em terras tupiniquins, ficando somente atrás de São Paulo e disputando pau a pau com Rio de Janeiro e outras capitais.

Se 2010 ficou marcado pela vinda de Paul McCartney, cuja qualidade do show é inquestionável, assim como a relevância histórica, 2011 teve Ringo Starr. E a volta do GIG Rock com força total. E o El Mapa de Todos. E Ozzy Osbourne, Buena Vista Social Club, Darwin Deez, Alice Cooper, Cyndi Lauper, Erasure, Pearl Jam, Hanson, Justin Bieber, Jack Johnson, Mr. Big, New Young Pony Club, Avenged Sevenfold, Eric Clapton, Ben Harper… Enfim, são tantos os nomes que seria perda de tempo enumerar todos aqui.

O Nonada foi atrás de alguns produtores para saber como Porto Alegre entrou definitivamente na rota dos shows internacionais. A questão da localização é relevante, mas há outros pontos a serem considerados, como você poderá ler a seguir. Antes, uma observação importante: procuramos outras três produtoras de pequeno, médio e grande porte, mas nem todas deram retorno.

A badalada cena indie

James Murphy trouxe seu LCD Soundsystem a Porto Alegre antes de aposentar a banda (Crédito: Fernando Halal)

Com sete anos recém-completados, o Beco203 passou de casa noturna a produtora cultural, contemplando a cena independente com um festival (GIG Rock) e inúmeros shows locais e nacionais. Como esse nicho de público é fiel, a ideia foi tomando maiores proporções, e hoje o Beco é responsável por trazer uma razoável parcela dos eventos internacionais que vem para Porto Alegre – especialmente aqueles que envolvem bandas que somente os aficionados por música conhecem. A proposta, segundo o empresário Vitor Lucas, continua a mesma: “trabalhar com bandas que acreditamos”.

Nonada – De casa noturna, o Beco passou a produtora cultural, trazendo, nos últimos tempos, alguns shows bem interessantes para Porto Alegre, como LCD Soundsystem, Helmet, Television, Metronomy e Primal Scream, só para citar alguns. Está mais fácil trazer bandas internacionais para o Brasil hoje em dia?

Vitor Lucas – O Brasil virou rota obrigatória das bandas internacionais. Este mercado foi descoberto há pouco, junto com nosso crescimento econômico. Então a explosão se deu a pouco e está recém no começo. As bandas querem vir tocar no Brasil e o dólar mais baixo facilita.

Nonada – O Beco tem um perfil bem alternativo e se propõe a trazer shows que dificilmente outras produtoras se arriscariam a trazer. Como é que chegaste à conclusão de que isso seria uma boa ideia?

Vitor Lucas – Na verdade, trabalhamos com bandas que acreditamos. Bandas que tocam no Beco, que fazem parte da nossa cultura. Nada mais. Às vezes nem pensamos se ela é viável financeiramente, tamanha é a emoção de levar uma banda destas para Porto Alegre.

Nonada – Chegaste a fazer alguma pesquisa de mercado?

Vitor Lucas – Não, trazemos essas bandas simplesmente porque acreditamos.

Nonada – Quais as maiores dificuldades de se fazer um show de médio porte hoje – ou seja, uma banda internacional que não vai encher um ginásio, mas que tem um público fiel?

Television, lendária banda dos anos 70, foi um dos destaques da programação do Beco203 (Crédito: Fernando Halal)

Vitor Lucas- Produzir o show. Porto Alegre é carente de lugares para eventos. Não tem empresas com grande diversidade de equipamentos para backline o que, às vezes, nos obriga a trazer de São Paulo, encarecendo mais ainda os shows. Mais ou menos assim: o show é de médio porte, mas a produção é de grande. O custo do show é, em média, 30% mais barato que em São Paulo e o preço e o público, a metade, quase. Por exemplo: se um show custa 10 para São Paulo, em Porto Alegre vai custar 7. Mas em Porto Alegre coloca X pessoas e em São Paulo coloca 4X. O certo seria pagarmos 25% do valor de São Paulo, e isto é uma ofensa para a banda! (risos) Foi este um dos grandes motivos que nos estabelecemos em São Paulo, para continuarmos viabilizando shows para Porto Alegre.

Nonada – Tu achas que o público prestigia os shows que vocês estão trazendo para Porto Alegre da forma como deveria? Ou poderia ter mais gente nas apresentações? E em São Paulo, que tem uma população dez vezes maior que aqui, como é a receptividade?

Vitor Lucas – O porto-alegrense – não todos, mas grande parte – quer um show do lado da sua casa, que ele tenha mais espaço na sua volta que a própria banda, e que ainda vá de graça. Senão, vai reclamar do preço, do lugar, da fila, do bar… Sempre vai ter uma reclamação, porque somos assim, eternos reclamões. Dadas as proporções, São Paulo não é muito diferente de Porto Alegre no quesito público. Uma cidade com dez vezes mais habitantes que Porto Alegre, como disseste, coloca três, no máximo quatro vezes mais público que nossa cidade. Deveria ser dez, né? (risos) Mas eles pagam pela atração e prestigiam o evento seja onde ele for. Este talvez seja o diferencial de Porto Alegre. Vamos prestigiar os shows que estão na rota porto-alegrense. Isso só vai encorajar produtores a trazerem mais e mais shows criando um ciclo sustentável na economia da cultura de Porto Alegre. Compareçam!

Pioneirismo no cenário musical

Um clássico do pop anos 80, a cantora Cyndi Lauper esteve na capital gaúcha no início do ano (Crédito: Liny Rocks)

Uma das mais famosas e antigas produtoras de shows de Porto Alegre, a Opus Promoções tem nada menos que 35 anos. De Ray Charles a Astor Piazzola, de B.B. King a Ravi Shankar, foram inúmeros os músicos de renome trazidos pela Opus a Porto Alegre – isso para não falar de artistas nacionais que desembarcam anualmente na capital gaúcha através dela, como Rita Lee e Roberto Carlos. Com toda essa expertise, a produtora continua se expandindo, abrindo novos espaços para shows e viabilizando apresentações para os mais diversos públicos. A coordenadora de Programação e Comunicação da Opus, Noemia Matsumoto, falou um pouco sobre o que acha do mercado atual.

Nonada – Está mais fácil trazer bandas internacionais para o Brasil – e Porto Alegre – hoje em dia? O que está facilitando?

Noemia Matsumoto – Porto Alegre, apesar de geograficamente estar distante dos grandes centros do país, como Rio de Janeiro e São Paulo, muitas vezes é considerada uma das quatro melhores cidades para integrar os roteiros das tours brasileiras. Acreditamos no crescimento do mercado neste segmento de grandes eventos não só em Porto Alegre, mas em todo o país – a Opus Promoções atua também em São Paulo (com o Teatro Bradesco) e em Natal (no Teatro Riachuelo). Consideramos a estabilização do dólar e o reaquecimento do mercado no momento de pós-crise econômica mundial, além do fato de a fonte de renda dos artistas ter se voltado para as apresentações ao vivo. Desta forma, a tendência é o aumento da frequência de grandes espetáculos, e cada vez mais em diferentes cidades, que não apenas na região central do país.

Nonada – Vocês colocam enquetes no site e nas redes sociais para avaliar o grau de aceitação de um artista que podem trazer a Porto Alegre. Como funciona isso? Vocês colocam na pesquisa nomes que já têm uma predisposição ou brecha na agenda para tocar aqui?

Noemia – Isso. Sugerimos artistas que sabemos que têm disponibilidade para fazer show em Porto Alegre. Este é um dos diversos aspectos que avaliamos antes de negociar a realização de um evento, o grau de interesse do público. Desta forma também mantemos uma relação estreita com nossas plateias. Além de participar da enquete, as pessoas podem trocar informações conosco pelo contato do site.

Nonada – Quais as maiores dificuldades de se fazer um show hoje?

Noemia – Hoje em dia, todos os grandes shows podem ser viáveis, desde que exista disponibilidade do artista para sair em tour na América do Sul. A nossa programação está sempre atenta à possibilidade de trazer grandes shows a Porto Alegre.

Nonada – Vocês acham que o público prestigia os shows que estão vindo para Porto Alegre da forma como deveria? Ou poderia ter mais gente nas apresentações?

Nova sensação da música latino-americana, Julieta Venegas tocou duas vezes em Porto Alegre este ano (Crédito: Mariana Gil)

Noemia – Ao prospectar um show sempre avaliamos o potencial de público. Entendemos que como a oferta de eventos aumentou bastante, o público muitas vezes acabe se dividindo, optando por ir a um show ou outro e não a todos. Mesmo assim, na maioria das vezes as apresentações acontecem com a casa lotada ou quase lotada.

Nonada – Ter um teatro à disposição (em Porto Alegre, o Bourbon Country) facilita nas negociações ou não tem influência? E sobre o Araújo Vianna, qual o tipo de shows que vocês pretendem levar para lá quando a reforma for concluída?

Noemia – Com certeza as casas que temos é um fator favorável à vinda de grandes shows à capital gaúcha. Muito importante na hora de agendar um evento são os espaços disponíveis e adequados para recebê-los. Desde que inauguramos, em 2007, o Teatro do Bourbon Country, abrimos uma nova porta para trazer vários tipos de apresentações artísticas. Existe ainda o Teatro Feevale, inaugurado este ano em Novo Hamburgo, e é mais um ambiente moderno e qualificado para abrigar diversos shows e espetáculos no Estado. Também estamos reformando o Auditório Araújo Vianna, que além de símbolo cultural da cidade, é um local com capacidade para cerca de três mil pessoas sentadas, posicionado no parque que é cartão postal da capital (Redenção). Nosso objetivo é reabrir o auditório sem mudar a característica histórica que ele tem de valorizar o talento local, ao mesmo tempo em que prestigia o público gaúcho ao receber nomes importantes do cenário musical brasileiro. Queremos que as apresentações lá continuem fazendo história, que fiquem marcadas na memória do nosso público.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments

Deixar um comentário

Não há comentários nessa página ainda. Vamos começar essa conversa!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *