Por Edgar Aristimunho*

Reunião de crônicas escritas ao longo da vida do escritor (Crédito: Alfaguara)

Durante sua vasta produção literária, centrada nos extensos romances, o português António Lobo Antunes jamais abandonou a crônica, gênero tão rico em terras brasileiras e tão sentimental em terras além-mar. Lançada recentemente, As coisas da vida (Alfaguara, 2011, 231 pg.) é a reunião de crônicas escritas pelo autor ao longo de diferentes e espaçados anos. Os temas são incidentais, mergulha na psicologia dos eventos, como, aliás, aí se concentra a força da obra do autor. Estamos diante de um apanhado digno de um dos últimos grandes escritores de uma geração que produziu gigantes como José Cardoso Pires e José Saramago. Este último com quem Lobo Antunes teria duelado literariamente pelo posto de maioral nas letras lusitanas – uma guerra de vaidades muito mais incitada pelos leitores do que de fato existiu – a parte disso o autor é reconhecido hoje pela profundidade psiquiátrica de sua obra e personagens, e não seria no campo da crônica que António Lobo Antunes aliviaria para o leitor.

As coisas da vida é um livro composto por 60 crônicas divididas em sete partes e que não seguem nenhum ordenamento lógico ou temporal. O leitor é atirado na doçura dos primeiros títulos que remetem à primeira infância (Descrição da infância), mas logo o erro se desfaz: mesmo ao lembrar dos primeiros anos Lobo Antunes é um cruel observador do ser humano que se forma escondido nos vãos deixados pelos adultos e seus dramas. Na segunda parte, Retrato do artista, temos o melhor do livro para quem busca conhecer o retrato do artista quando jovem que foi Lobo Antunes. Seu escárnio e desprezo pela publicidade (e aí o choque era real com a celebridade comportada em que se tornou o radical e visceral José Saramago de O evangelho segundo Jesus Cristo e Ensaio sobre a cegueira) e pelas premiações divertem o leitor. Mas para além da diversão estão também todas as angústias de quem um dia perde a inspiração (o belo texto A crónica que não consegui escrever). As outras partes do livro se alternam entre o demasiado humano que há na linha perceptiva de um escritor do porte de António Lobo Antunes e as observações absolutamente incidentais de fatos pequenos do cotidiano que neste caso, nas mãos de um artesão da palavra, viram literatura universal. A tal ponto que As coisas da vida, Esta maneira de chorar e Antes que anoiteça formarem três partes de uma sinfonia na qual o autor nos apresenta um verdadeiro “ensaio sobre o entendimento humano”. Nenhuma pretensão há quando estamos nos referindo ao carpinteiro das letras que escreveu de Os cus de Judas, Manual dos Inquisitores e O arquipélago da insônia, títulos que ao longo dos anos mostram a inquietação de um artista enquanto maduro.

Lobo Antunes é um dos grandes escritores português de sua geração. (Crédito: Divulgação)

A grande força do livro parece vir de sua segunda parte: Retrato do artista. É nesta parte desta reunião de crônicas que António Lobo Antunes consegue despir parte de suas dúvidas e ovulações quanto ao ato mesmo em si de escrever, de ser o portador de uma verdade provisória e nem sempre coerente. E ele se banha nesses pequenos entrechos a que rigorosamente chama crónicas, mas que em verdade cavalgam pelos mesmos trilhos do estilo rebuscado e profundamente psicológico de outro mestre, William Faulkner. E é como Lobo Antunes nos dissesse a todo instante – como faz na crônica Não entre por enquanto nesta noite escura – que o oficio do escritor é doloroso porque é trabalho operário de quem constrói sua escrita por finas camadas de pensamentos, pela alternância de narradores, pelas mudanças bruscas de tempo-espaço, qualidades que são capazes de deixar o leitor no seu melhor ápice: na dúvida.

As coisas da vida é um livro de incertezas, sim, mas todas elas falam sobre a nossa capacidade de olhar e ao mesmo tempo capturar no cotidiano trivial do dia-a-dia o sentido maior não só de uma obra literária que já produziu obras fundamentais da literatura de língua portuguesa, mas da vida em si mesma. Daí o título. Daí a leitura atenta que não se deixa levar pela aparente suavidade das ondas de um gênero “leve”, como a crônica, pois António Lobo Antunes produz excelente literatura em nos colocar diante da humanidade em poucas laudas. Sim, as narrativas são curtas e possuem uma intensidade assustadora, sem jamais abandonar o leitor ao desconforto da descoberta. É uma literatura que nos mostra que o desconforto está tanto nos atos e nos fatos, como nas pessoas e experiências. Como bom psiquiatra de formação, de quem viu os horrores da guerra colonial em África, António Lobo Antunes nos ensina isso.

*É escritor e revisor, com pós-graduação lato senso em Letras pela UniRitter. Tem publicado pela editoria Dom Quixote o livro de contos O Homem perplexo (2008) e participou da antologia Ponto de Partilha”. Escreve no blog O Íncubo (http://oincubo.blogspot.com)

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