O Nonada segue a sua cobertura do Oscar 2012 com o filme A Árvore da Vida. Acompanhe-nos para ficar por dentro dos filmes que têm (ou não) chance de levar alguma estatueta para casa.

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A Árvore da Vida de Terrence Malick divide opiniões (Crédito: Brace Cove Productions)

Por Fernando Costa*

Antes de mais nada, esclareçamos algo: o sucesso de um filme não se deve nem à desenvoltura de suas partes, nem à combinação mecânica ou arbitrária delas. Um filme – ou qualquer forma de arte – é a síntese de seu todo. Sem esse pressuposto, não há solo comum para acordo (ou mesmo para um desacordo consciente) com o que pretendo apresentar. É bem sabido que as produções que sucedem apenas pela parte (uma grande atuação ou uma sequência famosa) se tornam reféns dela: o filme inteiro como apêndice ou pretexto para um mérito individual. É partindo dessa consideração, óbvia para qualquer crítico, que se pode  precisamente refutar o pretenso êxito estético de um filme consideravelmente elogiado em 2011 tanto por críticos quanto por cinéfilos – A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011).

Desmembrado em seus detalhes individuais, o filme mais recente de Terrence Malick é irretocável. Antes de mais nada, temos um trabalho artesanalmente conduzido pelo diretor por mais de três anos – quase dois anos passados só num processo de montagem que mobilizou nada menos que cinco montadores sucessivos (um dos quais o brasileiro Daniel Rezende, o mesmo que montou Cidade de Deus). Há também a fotografia esplêndida e extremamente cuidadosa do mexicano Emmanuel Lubezki que emprega apenas iluminação natural. Some-se a isso um conjunto muito competente de efeitos especiais, uma narrativa dissolvida repleta  digressões sobre a origem e o destino da vida, e um punhado de boas atuações.

Sean Penn e Malick já haviam trabalhados juntos em Além da Linha Vermelha (Crédito: Brace Cove Production)

Em termos de realização, A Árvore da Vida está inegavelmente à altura da imensa pretensão de Malick com este projeto fílmico de reflexão existencial. É um erro, porém, julgar o filme, essencialmente em termos da desenvoltura extraordinária com que se dispõe de recursos técnicos e estilísticos (um tipo de juízo que é o lugar-comum para além do qual muitos críticos não conseguem avançar) – limitar-se a tais comentários em nada contribui para entendê-lo e antes significa já se render ao seu encanto sem investigá-lo. O que está realmente em questão é própria ambição de Malick: o que, afinal, sua meditação cinematográfica tão – francamente espetacular quanto profundamente sincera – efetivamente nos propõe?

Quando se tenta responder seriamente a tal pergunta, quando se pretende buscar os pressupostos que sustentam o todo da obra, não será difícil notar que  A Árvore da Vida não é de fato um filme nem tão profundo, nem tão original, nem tão artístico quanto sua fachada aurática nos promete. Desfeito o encanto da maestria técnica e expressiva, pouco resta de contundente na visão de mundo que Malick apresenta com uma sinceridade que beira a auto-indulgência.

Antes de mais nada, A Árvore da Vida nos propõe uma costura tênue, pretensamente antinarrativa, das vicissitudes de uma família qualquer dos Estados Unidos da década de 1950 – os O’Brien – com a totalidade do destino do universo e da vida na Terra.  A história da família é rememorada pelo filho mais velho, Jack (Sean Penn), já adulto e bem-sucedido, porém desesperado à procura de um sentido ulterior para sua tediosa existência. É nessa insignificante busca do significado profundo que o filme não hesita em incorrer em toda a sorte de clichê new age: a representação estereotípica do mundo moderno com sua monotonia asséptica; o desejo de contato com as origens como via de transcendência do mundano;  a procura por um refúgio dos males da civilização avançada e alienante – em suma, a busca de respostas profundas para sabe-se lá quais perguntas. Nada novo no front, no cinema e na ideologia.

A polaridade da trama reside na relação entre o pai autoritário e...(Crédito : Brace Cove Productions)

A polaridade principal do enredo se dá entre os pais de Jack: o pai (Brad Pitt) como semblante de autoriadade e disciplina que encerra uma vida de medianidade frustrante e a mãe (Jessica Chastein) como figura acolhedora e intensamente amorosa, uma variação do gigantesco clichê da pureza angelical feminina. Já no princípio do filme, tal oposição é apresentada como aquela entre a natureza (imponente, material e competitiva) e a graça (humilde, espiritual e redentora). A Árvore da Vida não oferece nenhum insight muito mais complexo que esta metáfora diferencial, nem apresenta qualquer meta mais original que a da reconciliação dessas oposições. A morte inesperada do irmão caçula de Jack, ainda nas primeiras cenas, já antecipa a coincidentia oppositorum que pautará todo o filme: a busca de articulação do evento traumático da morte de uma criança dentro do esquema maior do universo. O que está pressuposto nessa ânsia universal pela redenção e pelo sentido nunca vai além  metanarrativa mistificante da reconciliação absoluta: sujeito e do objeto, espírito e natureza, no mesmo tecido constitutivo do cosmo, um sentido maior que acomoda todas as catástrofes e alegrias e com o qual podemos nos engajar. Exigir mais do filme que este esquematismo primário é falsear seu próprio conteúdo.

... a mãe como figura acolhedora e intensamente amorosa (Crédito: Brace Cove Productions)

Entremeando as vivências da família O’Brien, temos as tão faladas sequências da formação do universo, da origem e evolução da vida e da morte da Terra. A história cósmica minuciosamente encenada por Malick, porém, traz consigo uma consequência inconveniente para a totalidade de seu filme, a de nos lembrar que sua arquitetura formal não é de maneira alguma tão audaciosa como parece. Essas grandes sequências são estranhamente didáticas, ordenadas com uma cronologia notável e muito acessível para qualquer espectador com o mínimo de letramento científico. Não somos apresentados a um universo estranho, caótico, desconhecido, mas a uma imagem muito mais convencional e já bem conhecida inteiramente conformada aos cânones da ciência popular. Aliás, quando o assunto é a evolução da vida, a contribuição mais original do filme é apresentada na bizarra cena que nos mostra um dinossauro intoleravelmente piedoso com sua presa – Terrence Malick, paleontólogo da moral.

Muito se tem comentado dos voices-over (as vozes em off) polifônicos bastante peculiares do Malick tardio. Tenha algo a dizer a respeito. Evidentemente, o recurso à voz fora do quadro tende a propósitos narrativos muito específicos de ordenação e esclarecimento do enredo de um filme. Em Malick, algo diferente se dá: as vozes múltiplas de seus personagens se alternam ao longo do filme (por vezes abrupta e indistintivamente); mas sem formar qualquer instância narrativa muito clara; elas antes se elevam como instâncias fortemente meditativas, que contemplam seus respectivos detentores como terceiros – a individuação, a primeira pessoa propriamente, nunca é integralmente assumida. Os voices-over de seus filmes não são remetidos a qualquer instância concreta de enunciação (não somos apresentados a condições muito precisas e concretas em que qualquer personagem as teriam pronunciado ou pensado), elas simplesmente estão radicalmente abstraídas a todo contexto imediato. Talvez (este é meu palpite), na sintaxe de Malick, o uso bastante particular desse recurso tenha por finalidade ressaltar que, parafraseando a expressão de um de seus filmes (Além da Linha Vermelha, de 1998), tratam-se das vozes de um mesmo homem – um mesmo ser indiviso que por elas se manifesta. No universo monológico do diretor a polifonia é a aparência decaída desta voz única, demiúrgica e diluída nas instâncias particulares dos personagens.

Mas o que diz essa voz única – o monólogo existencial do próprio Malick – que subjaz a esse contingente de semipersonagens em A árvore da vida? A resposta mais concreta (e menos “existencial”): trata-se de um relato nostálgico da década de 1950, a era de ouro do otimismo estadunidense. Trata-se, mais precisamente, da espiritualização dessa nostalgia. Em termos palpáveis (sem recorrer à falsa profundidade que o filme vende), a ambição de Malick acaba por se degenerar numa forçada redenção de um passado idealizado, um tempo perdido com o qual se busca reatar. No que possui de mais efetivo, o filme não vai além disso: a ficção das origens elevada a utopia espiritual.

*Estudante de Jornalismo da UFRGS

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