Elder Scrolls V - Skyrim foi eleito o melhor game do ano por boa parte dos críticos especializados (Crédito: Divulgação)

É uma dúvida que me persegue. Como fazer uma boa crítica? Quais são os ingredientes? E como fazer uma crítica de um jogo de videogame? O que precisa se estudar para conseguir tal façanha? Cresci lendo várias revistas de videogames – o que faço até hoje – logo se dependesse só desse conhecimento estaria eu apto a escrever uma boa crítica de um game?

Para quem não sabe antigamente a maioria das revistas especializadas em jogos dividiam a sua avaliação por quesitos, normalmente eram eles Gráficos/Diversão/Som/Replay, etc, o que, no final, acabava formando a nota geral do jogo. Agora eu pergunto, é possível mensurar em um número numa escala de 1 a 10 digamos o valor de um produto cultural?

Tá certo que eu nem pensava isso na época, mas depois que comecei a estudar jornalismo e a me conscientizar sobre as estruturas da minha profissão percebi que dar nota para uma obra, dividir por quesitos, talvez não seja a melhor escolha. Isto é, com certeza fica muito mais fácil para o leitor uma vez que a nota definiria toda questão e talvez ele nem precisasse ler o texto. Mas não estamos acostumando mal o cidadão? Não estamos nos acostumando mal?

Acredito que sim, pois uma boa crítica, ou uma boa resenha reside no argumento, na totalidade, e não em partes específicas de uma obra (seja ela um jogo, um filme, uma peça de teatro).  Reside também em traçar paralelo com outras áreas do conhecimento e tentar criar um pensamento uma ideia sobre determinado apontamento. Esse tema é algo que me fascina e que um dia planejo estudar, quem sabe em um projeto de pesquisa.

Talvez um exemplo legal a ser seguido seja a New York Videogame Critic Circle ( http://nygamecritics.com/) associação que reúne vários críticos de jogos da metrópole, a fim de discutir e lutar pelo lugar da crítica de jogos na sociedade e na imprensa.

Falando nisso então, trago para vocês a entrevista que fiz com um cara que se pode chamar de crítico de videogames, o jornalista Seth Schiesel do New York Times. Entrevistei-o para o meu Trabalho de Conclusão de Curso em jornalismo, onde pesquisei a editoria de Videogames localizada na editoria de Arts do periódico, onde ele comentar um pouco sobre a crítica de games. Espero que gostem.

Print da home da editoria de videogames do Ny times.com (Crédito: Reprodução)

1) Qual é a rotina da editoria de videogames do NyTimes.com?

Nós não temos realmente uma área de videogames aqui. Na verdade, eu sou o único que escreve sobre games em “tempo integral” e, ocasionalmente, eu escrevo sobre outros assuntos, como música. De vez em quando, outro jornalista pode escrever um artigo que foque em video games – por exemplo, nossa editoria de bussiness (mercado) algumas vezes escreve sobre empresas de jogos – mas eu sou a única pessoa no Times cujo principal foco são os videogames.

Quanto a minha rotina de trabalho, eu trabalho de casa, ao invés da redação, por causa da natureza do meu trabalho. Muitos videogames ocupam espaço, ou fazem muito barulho, e precisam de grandes telas para serem apreciados em toda a sua complexidade. Eles também podem demorar dezenas de horas até serem completados, então jogar games seriamente na redação não faria sentido.

2) Como são escolhidas as pautas e o jogos a serem criticados?

Meus editores geralmente dependem de mim para dizer para eles quais jogos merecem ser analisados. Quando eu recebo sugestões dos meus editores, eles tendem a ser mais temáticos do que específicos. Por exemplo, estou escrevendo um ensaio sobre games e filmes de terror pautado pela tradição do Halowen americano. E isso foi sugerido pelos meus editores. Algumas das matérias da seção Critics’s Notebook que eu escrevi este ano, tais como quando morreu Owsley Stanley e uma matéria sobre o fim do verão em Nova York, foram desenvolvidas devido à indicação dos meus editores. Entretanto, quando é a hora de escolher que jogo será analisado, eu geralmente decido isso. Eu tomo cuidado em escrever sobre a maioria dos grandes jogos comerciais (algo como os blockbuster dos videogames, o jogos que mais vendem), mas eu também tento fazer de jogos menos conhecidos.

3) Qual você diria que é a sua abordagem quando escreve uma matéria ou uma crítica?

Para voltar a sua questão contra ela própria, eu diria que minha principal abordagem é ser “abordável”. Eu geralmente prefiro escrever mais como se fosse uma conversa do que de um modo mais formal. Eu acho que muito da crítica de arte se esconde um pensamento confuso por trás de palavras complicadas e chiques, alusões obscuras com outros trabalhos que o leitor não necessariamente compreende. Eu acho que muitos críticos (de games e de artes) estão muito acostumados em falar para uma elite seleta de público e não para público em geral que está interessada em coisas diferentes.

Então eu tento escrever de um modo que alguém que nunca jogou video games possa entender e se relacionar com eles. Ao mesmo tempo, você também tem que demonstrar, para aqueles que conhecem mais sobre games, que você sabe do que está falando, e adicionar um conteúdo mais introspectivo para eles também.

Basicamente, eu, esperançosamente, tento explicar minha reação perante a um jogo de um jeito que os leitores achem divertido, informativo e esclarecedor.

Para responder a sua pergunta de um modo mais objetivo, apesar de, algumas vezes, eu trazer informações sobre economia e negócios nas minhas análises de jogos, esse não é o meu principal foco. Minha maior preocupação está no produto, não na empresa que o fez.

4) Qual é a importância dos videogames estarem inseridos na seção de artes ao lado das artes clássicas como literatura ou teatro?

O significado é que nós entendemos que os video games são a mais nova forma popular e influente de entretenimento massivo. Há muitas décadas, as artes ditas clássicas como as que você mencionou tem dividido as páginas com novas e mais populares artes como a televisão, cinema e música contemporânea. Video Games estão se tornando popular e suficientemente penetrantes em uma escala global para começar a merecer semelhante cobertura. Eu espero que um dia todo jornal ou site tenha que tenha um jornalista de tempo integral de TV ou de cinema tenha também um de video games.

5) Desde quando o NyTimes.com vem cobrindo videogames?

Eu me tornei o primeiro redator em tempo integral de jogos em 2005. Antes, freelancers e redatores contratados ocasionalmente faziam análises para nossa seção de tecnlogia.

6) Qual é sua formação? Você sempre esteve interessado em videogames? Como acabou trabalhando no Nytimes.com?

Eu comecie trabalhando em jornais no colégio, quando tinha por volta de 15 anos. Freqüentei a Philips Academy in Andover, Massachusetts. O jornal lá é o Phillipian. Enquanto eu estava na faculdade de Yale, eu era repórter e colunista do Yale Daily News. Eu me juntei ao Boston Globe no ano de 1995 como um editorialista e me juntei ao New York Times em 1996 como um repórter da área de negócios. Agora eu estou com 38 anos.

Eu me juntei à editoria de cultura em 2005 convidado pelos editores. Tenho jogado videogames avidamente desde que eu tinha oito anos.

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Jornalista, mestrando em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras e nas pessoas. Twitter: @rafaelgloria
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