A última coluna da seção Recortes, escrita pela nossa editora de Economia da Cultura, Leila Ghiorzi, traz vários questionamentos sobre algumas formas de arte não tão populares e sobre sua – geralmente má – divulgação. Sobre querer conhecer o diferente, sobre sair da chamada “zona de conforto” em que muitos de nós vivemos.

Autoramas, um exemplo de banda que teve sucesso no sistema de crowdfunding (Crédito: Divulgação)

Pois bem. Levando isso para a área da música – que, afinal, é a minha editoria aqui no Nonada –, acredito que a divulgação ajuda, sim, e muito a levar a arte a novos públicos. Mas este é apenas um lado da moeda. Hoje em dia não dá para depender mais de uma megacampanha de marketing, porque quem pode proporcioná-la são as grandes gravadoras. E estas só dispõe desses recursos para artistas gigantescos, que se tornarão ainda mais gigantescos graças a esse círculo vicioso, que não é de hoje e não se aplica apenas à música. Então, dito isso, vamos falar do que é possível fazer.

No Brasil, mais precisamente em Porto Alegre, o crowdfunding ainda engatinha. Mas já dá resultados, como o recente show da banda Howler por aqui. Se eles são os novos Strokes ou não (na resenha do show, deixo bem claro o que penso sobre isso), pouco importa. Importa, sim, que o esquema de pagamento de cotas funcionou, e todos os que investiram sua grana para trazer os caras tiveram total ressarcimento. Que venham mais e mais bandas por meio desse sistema.

Outro exemplo excepcional para mim é o lançamento do disco novo disco do Autoramas, Música Crocante. O grupo carioca, que sobrevive à margem das grandes corporações e vem mantendo uma admirável carreira no underground, conseguiu gravar a bolocha com o apoio dos fãs, que, conforme a quantia que pagaram, foram restituídos com kits especiais, acesso livre a shows e até ao backstage.

A tendência é de que o crowdfunding seja, com o perdão da redundância, cada vez mais difundido, tornando viável a realização de shows e a gravação de discos que não têm um apelo tão comercial, mas que contam com um público fiel e suficiente para bancá-los. Para isso, no entanto, é preciso sair da tal “zona de conforto”. E, é claro, ter algum dinheirinho extra pra investir na sua banda favorita.

 Como já perceberam, utilizo este espaço para colocar algumas ideias, digamos, de cunho pessoal. E não posso deixar de registrar minha indignação com a baixíssima presença de público no festival underground Over All, realizado no domingo passado, 18 de março, no Entre Bar. Quatro bandas – Imorale, Lebra, Badhoneys e Walverdes – tocaram para um público ínfimo, composto por amigos, jornalistas, amigos dos amigos, fotógrafos, amigos dos amigos dos amigos… Enfim, rock é um som restrito por natureza, e não foi esta a primeira e nem a última vez que tivemos meia dúzia de gatos pingados em um show local, mas a questão é: por que insistimos em falar que Porto Alegre tem uma cena rock forte? Uma cena é composta por, entre outros elementos, bandas e público. E este segundo eu sinceramente não sei onde está.  Alguém sabe?

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