O concerto foi dedicado à memória do brasileiro Jean Charles (Crédito: Edu Defferrari)

 Pirotécnico, cinematográfico, cênico. Roger Waters, o ex-baixista do Pink Floyd, trouxe a Porto Alegre um show para nenhum fã da lendária banda botar defeito. O concerto da turnê The Wall – Live, apresentado no estádio Beira Rio no último domingo, dia 25 de março, impressionou pela qualidade de som e acabamento visual, mas também pelo conteúdo político – tudo isso através de rara grandiosidade. Uma apresentação de aproximadamente duas horas impactante em seu conjunto, para além do musical.

Para quem, de dentro do estádio, estava estranhando o atraso da apresentação, a explicação foi logo dada: devido a problemas no acesso, muitas pessoas ainda estavam do lado de fora do Beira Rio no horário de início previsto para o show. Breve confusão que não tirou o brilho da noite – por volta das 20h40min, as projeções no muro de 137 metros construído no palco marcaram o início do espetáculo. Depois dos fogos de artifício no ritmo dos primeiros acordes de “In the flesh?”,  Waters apareceu, todo de preto, fazendo os aplausos de quase 50 mil pessoas unirem-se ao seu som.

O muro, referência ao disco de 1979 que seria executado ao longo da noite, roubou a cena. A abertura no meio dele foi, lentamente, sendo fechada na primeira metade da apresentação. Uma metáfora sobre os tijolos que vão sendo colocados, um a um, em paredes em torno das pessoas, isolando-as, seja pela influência da família, da educação formal, do Estado, do consumo, das várias formas de alienação.

Crianças da ONG Canta Brasil interpretaram "Another brick in the wall" (Crédito: Edu Defferrari)

A aguardada “Another brick in the wall” foi logo executada, com a participação do coral de quinze crianças da ONG Canta Brasil. Em frente à alegoria de um monstruoso professor, um enorme boneco que tomou conta do palco, elas gritaram o talvez mais famoso protesto elaborado pelo músico – “Hey! Teachers! Leave them kids alone!”. Já nesta altura do show, sons diversos, como de explosões, aviões e gritos, envolviam o público no conceito da ópera-rock, provocando sensações relacionadas às sombrias letras e melodias.

Mas o momento de maior comunicação com o público aconteceu quando Waters começou a falar em português. “Dedico o concerto a Jean Charles e sua família pela luta pela verdade e justiça e a todas as vítimas da violência de Estado”, afirmou, confirmando a anunciada homenagem que faria ao brasileiro morto pela polícia inglesa em Londres, por engano, em 2005. Ao som da música “Mother”, mencionada especialmente pelo músico como relacionada a Jean Charles, passou uma das mensagens mais aplaudidas: “Mother, should I trust the government?”, perguntava a canção. “Nem fudendo”, foi a resposta, em português mesmo, projetada no gigantesco muro/telão.

Na primeira parte do show, destaque ainda para a “Good bye blue sky”, que remeteu o público ao filme The Wall, lançado em 1982 e dirigido por Alan Parker, mas com atualizações. As animações de aviões espalhando como bombas símbolos religiosos e marcas de multinacionais apontaram para a crítica social do artista também às guerras do mundo contemporâneo – e não só às guerras às quais se referia na época do lançamento do disco.

O intervalo de 20 minutos ocorreu após a interpretação de “Goodbye cruel world” e o fechamento completo do muro. Fotos de mortos de guerra enviadas pelas famílias foram projetadas nesse momento, deixando ainda mais marcante a memória da destruição causada pelos conflitos, que perpassa todo o concerto.

Waters comunicou-se com o público com desenvoltura (Crédito: Edu Defferrari)

No retorno de Waters ao palco, alguns clássicos empolgaram os fãs, como “Hey you” e “Confortably numb”. O javali inflável flutuando sobre a plateia, levando em si mensagens contraditórias como a nossa sociedade – “Tudo ficará bem”/”… apenas continue consumindo”, por exemplo – roubou os olhares. Fechando a história contada pela ópera, em que as paredes engolem e condenam, vem o momento de libertação: a destruição do muro. Literalmente. “Outside the wall” foi interpretada por todos os músicos do show sobre os escombros, com uma necessária leveza.

Talvez muitos tenham se perguntado se o concerto não depende em demasia dos recursos visuais, deixando a música em um segundo plano. É possível que sim, já que a imersão no mundo de Waters não teria sido a mesma para o público sem todas as imagens e efeitos cênicos. Mas isso realmente importa? O concerto faz refletir pela via das sensações que se originam nas músicas – composições que não à toa entraram na história. E que muros sejam levantados e destruídos mundo a fora para o deleite e reflexão dos fãs, se essa é a melhor linguagem encontrada pelo músico. Linguagem inegavelmente eficaz, como o público de Porto Alegre pôde testemunhar.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments

2 comentários em “Roger Waters, político e visual”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *