Economista indiano abriu a edição de 2012 do Fronteiras do Pensamento (Crédito: Greg Salibian/Divulgação)
Economista indiano abriu a edição de 2012 do Fronteiras do Pensamento (Crédito: Greg Salibian/Divulgação)

 

Foi citando Martin Luther King que o filósofo e economista indiano Amartya Sen, Nobel da Economia de 1998 e docente em Harvard, iniciou a conferência de abertura da edição de 2012 do ciclo Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre. Na presença de autoridades como o secretário de estado da cultura Luiz Antônio de Assis Brasil e o prefeito José Fortunati, ele palestrou para o lotado Salão de Atos da UFRGS sobre Justiça, esperança e pobreza na noite deontem, 25 de abril. O senhor de fala tranquila e traços típicos da população de seu país de origem resolveu recorrer ao exemplo prático de um dos ícones do ativismo político norte-americano para abordar o primeiro termo do título da conferência.

“Não podemos nos envolver no combate à injustiça se nos restringirmos ao nosso país, como se o resto do mundo não importasse”, afirmou o palestrante, lembrando que Luther King atuava em âmbito local, mas mirava nas grandes questões de justiça em nível global. A visão totalizante do pensador, nesse sentido, foi constante em sua fala, referindo-se também às atitudes político-econômicas dos países. Remetendo-se ao seu último livro lançado no Brasil, A Ideia de Justiça (Companhia das Letras, 2011), Sen afirmou que, para além de um conceito abstrato, a justiça precisa traduzir-se nas práticas das políticas públicas. Seria preciso deixar para trás a noção de “contrato social” que rege as reflexões sobre o assunto, já que não existe um Estado soberano global, e olhar para as situações de injustiça práticas de cada realidade.

À representatividade do Brasil decorrente de sua inserção no grupo G20, Sen atrelou o compromisso do país em falar em nome dos países não representados. Sendo, para ele, um exemplo de desenvolvimento econômico ligado ao desenvolvimento humano nos últimos 20 anos, ao contrário da China e da Índia, que aumentaram os níveis de crescimento econômico sem aumentarem a qualidade de vida de suas populações, o Brasil possui um papel fundamental na justiça global. Nesse ponto, o pensador trouxe a noção de pobreza como central na discussão – pobreza como privação de capacidades básicas e de liberdades, retomando a visão que marcou o seu pensamento teórico. Possuir mais renda, mas não ter acesso a um sistema de saúde de qualidade, por exemplo, para ter a liberdade de ser saudável, seria um caso de crescimento da economia descolado do desenvolvimento humano. Caso, para o palestrante, de que o Brasil tem se afastado.

Não é por menos que o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) foi idealizado por Amartya Sen, entre outros autores. A sua visão otimista em relação ao Brasil pode ter soado um tanto quanto exagerada para o público, porém se deve contextualizá-la em nível global. Defendendo a intervenção do Estado na economia de forma ativa, não restritiva, a partir dessas visões mais amplas e humanistas do que geralmente se vê na Economia, ele desenrolou seu pensamento, enfocando os problemas humanitários básicos como pontos a serem priorizados. Faltou uma abordagem mais precisa da questão da sustentabilidade que, apenas citada em sua complexidade, precisa estar presente em qualquer discurso de desenvolvimento nos tempos atuais. Apesar disso, os efeitos colaterais na natureza do crescimento econômico não sustentável foram descritos pelo palestrante como não contribuindo no incremento das liberdades humanas, o que já aponta para um tipo de preocupação que os economistas terão cada vez mais.

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