É quase inevitável: quando começo a escrever a coluna Recortes para o Nonada, invariavelmente deixo de ser um jornalista imparcial (rá!) para me transformar em um sujeito extremamente irritado (e irritante) com certas coisas que vejo por aí.

Parabéns pra você que chegou até o segundo parágrafo. Mas agora vamos aos fatos.

Esses dias li num site a opinião de um cara sobre o rock’n’roll, como o estilo está morrendo, como o mundo será pior quando determinadas bandas encerrarem as atividades e blá, blá, blá… O artigo, além de ser escrito em um português hediondo, não apresenta nenhum argumento decente. Apenas prega que o mundo será uma droga quando bandas como Black Sabbath, Kiss, Iron Maiden e AC/DC se aposentarem. Ora, o rock existe desde os anos 50, e, desde então, já tentaram assassiná-lo incontáveis vezes (talvez tantas quanta você já leu essa batida frase).

Concordo que, com o fim de algumas dessas bandas – e outras tantas -, o nível cairá muito. O rock ficará mais pobrezinho, sim. Porque elas são precursoras, marcaram época e influenciaram muita gente. Tudo o que veio depois, por mais genial que seja, não deixa de ser uma cópia. Mas não é o fim.

Ok, admito que já declarei, mais de uma vez, após um puta show: “agora não me falta ver mais nada”. Era mentira. Sempre é mentira. Sempre faltará alguma coisa. Se não faltar, o problema é comigo ou com você, não com a música. Se o sujeito não tiver parado no tempo, achando que o último grande disco foi IV, do Led Zeppelin, ou Nevermind the Bullocks, dos Sex Pistols, ou mesmo o “recente” Nevermind, do Nirvana, descobrirá algo interessante para ouvir. Como Arcade Fire, Wilco, Mastodon ou Metronomy. Ou mesmo o Foo Fighters, que, para meio mundo já virou uma banda de “coxinhas”. Coxinhas somos todos nós, que usamos um termo tão ridículo como “coxinha”.

Aí eu entro no outro lado da questão: os desesperados por novidades. Sabe aquele cara que baixou 45 discos na semana passada, todos de bandas obscuras? Pois é, esse também merece um pequeno puxão de orelha. Ao contrário do sujeito que se recusa a ouvir algo mais moderno que Metallica, o obcecado por novidades não acredita em evolução de um estilo. Ele acha que o rock nasceu com Strokes e Franz Ferdinand, bandas das quais tem certa vergonha de admitir que gostava na adolescência, pois hoje são muito mainstream. E indie que é indie não ouve nada que tenha virado mainstream. E muito menos admite que algumas das bandas que ele escuta têm uma leve semelhança com Pet Shop Boys e Erasure. Ou com Phil Collins.

Lou Reed e Metallica, o encontro de dois mundos (Crédito: Divulgação)

Não defendo meios termos e meias verdades, porque ficar em cima do muro é a pior coisa que tem. Mesmo assim, pelo bem dos ouvidos de vocês, não se deixem levar pelo fundamentalismo musical – coisa que li em outro artigo, referindo-se a “metaleiros”, mas que eu atribuo a qualquer tribo. Não é tão difícil aceitar o novo. Mas também não é preciso renegar o velho.

OBS: Esta coluna sem pé nem cabeça ou razão de ser foi escrita ao som de David Bowie, Queens of the Stone Age, Black Keys, Miike Snow, Sepultura, Tulipa Ruiz e Jorge Ben (pobre MP3 player).

OBS 2: Só não me peçam para gostar de Lulu, o disco do Metallica com o Lou Reed. Mas pelo menos eu tentei. E vocês?

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