A filósofa indiana falou sobre as consequências das monoculturas, entre outros assuntos, no Fronteiras do Pensamento (Crédito: Clléber Passus/Divulgação)

Celebrar a diversidade cultural para combater o tédio da monocultura. Foi com essa ideia que a filósofa indiana Vandana Shiva, a “dama da Sustentabilidade” – como a intitulou o professor Rualdo Menegat na introdução do evento –, encerrou a sua participação no Fronteiras do Pensamento 2012, em Porto Alegre. A conferência, pontuada pela gesticulação passional da ativista ao se referir a temas complexos, permitiu aos espectadores que lotaram o Salão de Atos da UFRGS na última segunda-feira, dia 28 de maio, a visualização da rede de relações que se estabelece em torno de problemas ambientais, em especial no que toca as consequências da atuação das grandes corporações no setor agrícola.

Vandana, que nos anos 1970 aliou-se ao Movimento Chipko – integrantes manifestaram-se se amarrando em árvores para impedir sua derrubada e o despejo de lixo atômico, aos pés do Himalaia –, aponta que vivemos em uma época de incertezas, ou de morte de antigas certezas. Uma delas é a certeza da separação homem/natureza. Comparando esse movimento ao apartheid, realidade da sua juventude, a pensadora evidenciou a relação de dominação e também de dependência entre brancos e negros, e entre o ser humano e Gaia, o que a levou a referir-se a um eco apartheid contemporâneo. A convergência do patriarcado com a ascensão do capitalismo findou nessa separação artificial, e na autocolocação do homem em um pedestal sobre os outros seres vivos.

O conhecimento, que antigamente era visto como algo feminino, segundo a filósofa, passou a ser ciência masculina na modernidade, mais voltada para a dominação do que para o cuidado e a compaixão. A ideia de progresso que encaminhou as sociedades ao estágio atual tem bases artificiais, como as noções de produtividade e de eficiência. A produtividade, sendo medida no que vai além do consumo interno das comunidades, desqualifica a riqueza que a diversidade de culturas pode gerar, na medida em que as substitui por culturas únicas que, apesar de gerarem mais de um único alimento, eliminam outras variedades. A eficiência, da mesma forma, mostra-se falsa se pensarmos nos custos ambientais da atividade extrativa mineral, por exemplo.

Mais violenta ainda é a ideia de patentes sobre a vida – ponto em que Vandana é muito atuante, principalmente no que diz respeito à propriedade intelectual das culturas tradicionais. “Definir propriedade intelectual de sementes é negar a criatividade da natureza”, afirmou ela, sem deixar de criticar diretamente empresas e assumindo como luta, por exemplo, o desaparecimento de nomes como a Monsanto. Otimista, ela acredita que essa luta silenciosa já acontece nas casas, com pessoas optando por produtos orgânicos ao invés de industrializados, e nas comunidades, que escolhem proteger as suas sementes.

Uma “refeminização do mundo” já estaria em curso, focada no cuidado em relação à vida. Lembrando do lema do Fórum Social Mundial, “um outro mundo é possível”, herança de Porto Alegre para o planeta, Vandana fala que “um outro mundo é também necessário para que as gerações futuras tenham o seu lugar na Terra”. Esse mundo passa por novas formas de pensar e de valorizar os diferentes sistemas de saberes, inclusive os da natureza. Passeando por conceitos da física quântica, da biologia, da genética e da filosofia, a conferencista plantou no auditório algumas ideias base para que se compreenda também, no contexto específico brasileiro, como as “monoculturas da mente” – título de um dos seus livros – minam a relação da política, da economia e dos cidadãos com a Terra, mãe.

De que forma a sua defesa da diversidade terá ecos, por exemplo, na Rio+20? Vamos acompanhar.

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