Por Nicolas Sales*

Cameron Sinclair tem muita história para contar. O arquiteto britânico, que já ajudou a reconstruir países devastados como Japão e Haiti, conquistou a simpatia da plateia do Salão de Atos da UFRGS na noite do dia 4 de junho, e não temeu em pedir uns minutos a mais que o planejado para poder falar com calma sobre seus projetos. Ao final da conferência oferecida pelo Fronteiras do Pensamento 2012, ficou claro que a irreverência não é apenas uma característica do discurso de Cameron, mas também de seu método: para ele, não existe trabalho que dispense o bom humor.

Co-fundador da Architecure for Humanity, organização sem fins lucrativos que procura soluções arquitetônicas para ambientes em crise no mundo todo, Cameron acredita que ver a caridade como um negócio é a única forma de fazê-la funcionar. É por isso que, na contramão de qualquer conceito tradicional de filantropia, os arquitetos que trabalham para ele são pagos. O valor não é alto, mas acaba sendo um incentivo para que os profissionais façam dos projetos a prioridade de suas carreiras. “Um funcionário da AFH deve ser como o McGyver”, brincou, fazendo alusão ao personagem de TV dos anos 80 que inventava soluções a partir do que tinha à sua disposição, como desarmar uma bomba com um clipe de papel. De fato, a vontade em se engajar nas causas da organização e lidar com situações complicadas é imprescindível. Os arquitetos têm de viver durante meses na comunidade em que o projeto será implantado, que pode ser uma região de conflito como o Afeganistão ou um país que passou por um desastre natural como o Japão. O período de tempo serve para que os profissionais possam entender a cultura local. “Não devemos replicar soluções, mas adaptá-las”, defendeu.

Um dos projetos que o arquiteto relatou com mais emoção foi a construção de bibliotecas, centros hospitalares e creches no distrito de Hambantota, no Sri Lanka, região afetada pelo tsunami de 2004. Metade do dinheiro que financiou a ação foi arrecadada em apenas um dia nos Estados Unidos por 600 crianças que venderam chocolate quente nas ruas. Apaixonado pela sua formação, Cameron acredita que, com essa experiência, acabou formando futuros arquitetos que darão continuidade ao seu trabalho. Esse episódio também exemplifica o seu conceito de sustentabilidade: mais do que usar os materiais certos, ser sustentável é possibilitar a relação entre diferentes realidades.

Mesmo já tendo ganhado o TED Prize em 2006, prêmio dado a “pessoas que querem mudar o mundo”, a humildade continua sendo um princípio para Cameron. A política “sem ego, sem logo” da Architecture for Humanity revela essa postura. A frase sustenta que nem a organização, nem as empresas que apoiam as iniciativas devem colocar sua assinatura visual nas construções. Os projetos são resultado de um diálogo com a população local, sendo o crédito das construções o menos importante. O principal objetivo é incentivar a autonomia das comunidades, fazendo com que a ação da AFH seja apenas o primeiro passo para mudanças maiores.

“Não sacrifique sua alma”, disse Cameron ao fim da conferência, em resposta à tendência dos estudantes de arquitetura em almejar uma carreira de prestígio em países desenvolvidos. Para ele, não há sucesso que se compare ao respeito que um profissional adquire quando volta sua carreira às pessoas que realmente precisam dos seus serviços.

 

*Estudante de Jornalismo da  UFRGS

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