Por Natascha Castro*

Decio Antunes, um dos maiores nomes das Artes Cênicas de Porto Alegre, é tímido. Prefere escrever a falar com jornalistas. Provável resultado de sua dedicação em analisar os diferentes ângulos de cada questão. Seu trabalho é sempre perfeccionista, tendo sido premiado diversas vezes. Como dramaturgo e diretor, Decio desenvolveu uma prática reunindo as linguagens do teatro e da dança.

Nesta pequena troca de palavras, ele discorre sobre o começo de sua carreira, e sobre seus logros e maiores inquietações referentes à situação atual das artes. Quais seriam os empecilhos para um significativo aumento do público interessado em teatro? Seria realmente necessária essa dependência dos incentivos públicos? Com a palavra, Decio Antunes.

Decio Antunes, interpretando seu interesse em ter múltiplas lentes e visões (Crédito: Arquivo Pessoal)

NonadaPodemos dizer, partindo de uma premissa conservadora, que todo artista é um pouco louco. O teatro, como teu ponto de partida para a vida profissional, é conhecido por suas dificuldades (financeiras e estruturais). O que te motivava nos anos setenta a trabalhar com as artes cênicas? E atualmente, o que te motiva?

Decio Antunes: Na verdade, tive como porta de entrada inicial rumo a expressão artística a literatura e fui um devorador de livros desde cedo. A segunda porta foi o cinema, que ajudou, junto com os livros que li, a progredir minha miopia.  O resultado disso foi que, em 1974, criei, junto a vários amigos, um cineclube a que demos o nome de Grupo de Estudos e Criação Experimental de Cinema e cuja sede cedida foi o Clube de Cultura, aquele lá da Ramiro. Éramos um grupo de jovens que tinha a saudável pretensão de criar em Porto Alegre um espaço em que reflexão e prática sobre o cinema convivessem. Foi inaugurado com uma exibição do Cidadão Kane, do Orson Welles, um Curso de Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo Jefferson Barros. Tentamos continuar, mas as dificuldades eram imensas: falta de dinheiro, censura oficial, tínhamos que ter autorização para cada sessão e tentavam de todas as formas impedi-las. Por fim, sofremos um derradeiro “golpe” por parte da turma de outro cineclube, bem mais enraizado que nós, que nos roubaram a ideia de um novo Ciclo, possivelmente por medo daquela turma de jovens pretensiosos que poderiam “ofuscá-los” – mas esse golpe é outra história.

Com todos esses episódios, o grupo se desfez e encerrou-se minha trajetória que começava com o cinema, minha primeira paixão, pelo menos como projeto de expressão pessoal. Foi nesse momento – naquela época era desejo de todo esse grupo encontrar formas de participação social diante dos impasses produzidos pela ditadura militar e a falta de liberdade expressão – que passei a cogitar o teatro.

Hoje, a permanência do desejo de expressão, independente de momento histórico, é a mesma de qualquer criador: dar forma às suas ideias, às suas inquietações diante do mundo e compartilhá-las em diálogo com o público. E essa motivação principal não cessa, independente dos imensos impasses. Fazendo agora essa retrospectiva, percebo que talvez meu mergulho inicial em diferentes artes norteou minhas opções futuras, no que se refere à adoção de diferentes linguagens nas obras que encenaria.

“Cem Metros de Valsa e Um Grama”, peça com coreografia de Maria Waleska Van Helden (Crédito: Carlos Sillero)

Nonada –  Tendo trabalhando na Secretaria Municipal da Cultura e sendo um nome ativo em diferentes projetos culturais, quais são, na tua opinião, os principais empecilhos para a popularização do Teatro?

Decio Antunes: A resposta para essa pergunta, diante da permanência dos problemas, parece que vira um clichê! Mas independente da repetição inevitável, não tenho dúvidas quanto a isso: são necessárias mudanças sociais que permitam incluir um público maior na vivência da produção artística, não só do teatro, mas das artes em geral; e não só isso, mas também uma reformulação total do ensino, desde o fundamental, que aproxime a criança do conhecimento da arte, de ações que a faça viver o contato direto com a arte.  Por experiência pessoal, sei o quanto é marcante essa vivência.  Feito isso, o resto ela fará sozinha durante a vida, fará suas opções. Não necessariamente para ser um artista, mas alguém capaz de ver na arte um valor em sua vida, e não um acessório. Ou seja, do meu ponto de vista não basta o pontual, circunscrito a determinadas ações e com tempo determinado, requer isso sim uma ação abrangente de todos os agentes envolvidos para que isso aconteça.

Nonada – As opiniões em relação às políticas culturais adotadas pelos últimos governos divergem entre intelectuais e artistas. Como tu percebes essas políticas?

Decio Antunes: Os sistemas de incentivo à produção artística acontecem hoje em dois níveis: ou são definidos financiamentos através de fundos ou são leis de incentivo baseadas em renúncia fiscal, seja ela imposto de renda, ICMS, ou outros quando incentivados por municípios. O que considero é que estamos vivendo um impasse e certo esgotamento desses modelos. Nas políticas públicas a opção tem sido a adoção de editais para escolhas das produções, com nomeação de colegiados para avaliação dos projetos. O mesmo ocorre no caso dos fundos, ou seja, em todos eles os criadores artísticos estão sujeitos a avaliações subjetivas dos seus projetos. No caso das leis de incentivo – e em geral não é difícil habilitar um projeto – caímos na avaliação perversa das áreas de marketing das empresas, que terminam apostando no consagrado, naquilo que dará resultado à “imagem” da empresa. Ou seja, a criação que não apresentar “atrativos” não será contemplada. Na minha avaliação, portanto, o que menos interessa é a obra de arte. Interessa “o resultado”, o retorno para um possível apoiador. Na história, a arte sempre esteve sujeita a diferentes mecenas: o imperador, a igreja, depois o estado (e aí se incluem os políticos e os compadrios!) e agora o marketing das empresas.  Quando hoje o país está mobilizado, do plano federal ao municipal com acontecimentos esportivos à frente, com destaque quase diário da mídia, quando as reuniões e mobilizações políticas se restringem a preocupações se estádios esportivos estarão prontos, o que interessa se um teatro, uma biblioteca, uma escola, um hospital, uma faculdade, cai aos pedaços ou se o número de projetos não financiados pelas leis de incentivo são imensamente maiores que os contemplados? Creio que essa situação escancara cotidianamente o papel que assume a cultura nas discussões, quando não se vê a mesma ênfase, destaque, por parte de tantos agentes sociais. Por isso falo que vivemos um impasse muito sério no país sobre a questão do financiamento à produção artística, pois não é capaz de atender a imensa demanda existente. Por outro lado, na outra ponta, que é o público, parte fundamental do processo cultural, para quem é dirigida a obra artística, este também não dá resposta, impedindo contar com ele para viabilizar um processo autônomo, fora das leis de incentivo. E não falo nem mesmo das classes populares, por muito tempo alijadas do processo cultural e cuja inserção demandará ainda muitos anos. Talvez mais sério seja o caso das classes médias razoavelmente informadas. Quantos mil universitários existem em Porto Alegre? É um número expressivo, e que possivelmente constituiriam uma plateia expressiva aos espetáculos durante todo o ano. Mas sem curiosidade intelectual e artística isso não se produzirá.

Nonada – Falando um pouco sobre a Dança-Teatro. Como surgiu teu contato com esse gênero? Como dramaturgo, quais são as possibilidades que a Dança-Teatro apresentam para a narrativa?

Decio Antunes: Há muito tempo exerço a criação cênica tanto ligada à literatura dramática quanto em criações que extrapolam fronteiras de linguagens, para o que tenho contado com parcerias fundamentais. Apenas nos últimos anos isso ganhou mais visibilidade. Por exemplo, minha prática reunindo as linguagens do teatro e da dança se iniciou em 1983, ao encenar um roteiro meu, Extremi, com criação coreográfica de Cecy Franck, logo após meu retorno da Alemanha, quando em Bremen pude ter contato com a obra da coreógrafa Reinhild Hoffmann, um dos grandes nomes ligados ao teatro de dança – ela é da mesma geração de Susanne Linke e Pina Bausch. Importante eu referir também, que o universo da ópera me serviu de fonte na busca de associação das linguagens, quando encenei óperas sobre músicas de Franz Léhar e Araújo Vianna.

Na utilização de material literário não-dramático, cito o espetáculo Novena à Senhora da Graça, poema de Theodemiro Tostes e música de Luiz Cosme, com coreografia de Carlota Albuquerque, e que foi à cena com a minha direção no Teatro São Pedro nos anos de 2001 e 2002. Ao citar especificamente estes projetos, o faço na intenção de indicar que o atual momento que pratico como encenadorestá enraizado nessa minha trajetória, mas apresenta concepções novas, por vários aspectos.

Primeiro, adotei o termo teatro coreográfico, tomadode empréstimo do coreógrafo austríaco Johann Kresnik, que tem como uma das características de sua criação trabalhar sobre pressupostos da linguagem teatral, principalmente nos seus focos narrativos, o que fez quando encenou sobre a vida de Frida Kahlo, Silvia Plath, entre outras obras. E o utilizo por estar mais identificado com minha matéria, que são os elementos dramáticos do teatro.

Na criação de Mulheres Insones, em 2006, também com coreografias de Carlota Albuquerque, trabalhei sobre uma base dramatúrgica consistente (as obras míticas e psicológicas de Nelson Rodrigues) e personagens de igual força e imprimi no espetáculo uma dimensão narrativa não-linear. No caso, essa narrativa prescindiu do texto e centrou-se exclusivamente nos núcleos dramáticos e em imagens essenciais contidas na obra e apostou no movimento e no gesto como poética narrativa do espetáculo.

“Mulheres Insones”, baseado nas obras míticas e psicológicas de Nelson Rodrigues (Crédito: Claudio Etges)

Em 2010 encenei Corte, com coreografias de Maria Waleska Van Helden, onde utilizei na dramaturgia desde obras dos dramaturgos gregos Sófocles e Eurípides, a dramaturgos contemporâneos como Heiner Muller e Samuel Beckett, contextualizando as obras para tratar sobre nossas questões contemporâneas. Nesse espetáculo, pela primeira vez lancei mão de produção audiovisual, que era transmitida fragmentariamente em telas de TV espalhadas pelo cenário de vitrines de lojas destruídas. Todas as relações se estabeleciam numa avenida urbana em escombros numa época histórica-limite e onde o público era disposto nos dois lados da avenida, como cúmplices dos acontecimentos.

Atualmente, continuo como encenador nessa pesquisa, com diferentes parceiros e bases de criação no que denomino teatro coreográfico pelas abordagens expostas.

Essa forma de abordagem, devo frisar, não implica que ela será uma base imutável, pelo contrário, será dinâmica a cada obra e será ela que ditará suas necessidades e a minha de falar através do palco.

Nonada –  Nos filmes brasileiros é notável a falta de um trabalho mais específico de direção de atores, algo que se destaca no cinema argentino. Tua forma de dirigir dá justamente a dimensão que esse trabalho precisa, pretendes te dedicar mais ao cinema? Por que a direção de atores é sempre deixada em segundo plano no Brasil?

Decio Antunes –  Percebo que, cada vez mais, se incorporam aos filmes profissionais dedicados a função de preparadores de elenco, associando-se aos diretores durante o processo de realização. Não consigo avaliar totalmente as razões para isso e, por isso, só posso conjeturar. Possivelmente uma delas seja a orquestração de todas as questões técnicas envolvidas nas filmagens a que os diretores no cinema precisam se dedicar – o que os impediriam de uma atenção mais intensa junto aos atores. Desconheço se nas faculdades de cinema exista também a formação do diretor no que se refere a métodos de trabalhos com o intérprete, aspecto que seria muito importante, já que a criação consistente de personagens, o seu desempenho na cena são, sem dúvida, fundamentais para que o filme atinja plenamente a dimensão dramática exigida. Mas enfim, como disse são apenas conjeturas que surgem sobre esse assunto… Quanto a projetos na área do cinema, tenho eventualmente sido sondado para esse trabalho, nada ainda concreto. No início, falei da minha paixão pelo cinema. Espero que possam surgir possibilidades de me associar a esse trabalho com elencos durante a produção de um filme, seria bastante instigante.

“Corte”, espetáculo baseado em diferentes dramaturgos clássicos e contemporâneos (Crédito: Carlos Sillero)

Nonada –  Como diretor teatral e produtor cultural, ganhador de diversos prêmios, de que maneira observas o panorama atual das artes cênicas no Rio Grande do Sul?

Decio Antunes – Em qualquer época há uma dialética entre tradição e ruptura. Talvez hoje vivamos um tempo diferente na relação com os acontecimentos históricos, não possuímos mais um corpo de cultura estável a exemplo do que ocorreu em outras épocas. Hoje, a vertigem da informação, da simultaneidade dos acontecimentos, tudo impregna nosso embate cotidiano procurando discernir questões essenciais, relevantes. No teatro realizado hoje, a busca da renovação da cena tem nos levado à implosão dos seus elementos, à mistura das linguagens e à discussão sobre sua inserção na cultura. Nessa direção, vejo que nossa época carrega esta mesma tensão eterna entre a tradição e o novo, numa retroalimentação constante, seja nas dimensões da atuação, das reflexões sobre o espaço de representação e das múltiplas dramaturgias e linguagens que pratica. Seu papel, contudo, não muda: ao transmitir o drama, o teatro invade necessariamente meandros da História, da Psicologia, da Política e da Filosofia e coloca como centro o homem e seus eternos impasses da vida em sociedade e reflete sobre dimensões subjetivas e coletivas da sua existência.

Considero que o teatro praticado em Porto Alegre não é muito diferente, nos seus enfoques, dos praticados em qualquer capital do mundo. O que se percebe nos últimos quarenta, cinquenta anos é uma tentativa constante dos profissionais de estar sintonizado com o que de mais atual é debatido e praticado na cena. Mesmo quando foca dramaturgicamente aspectos específicos de nossa cultura, percebe-se como constante a busca do universal e a utilização de procedimentos cênicos e de linguagens sintonizados com as grandes questões do teatro contemporâneo.

Nonada –  Recentemente o único teatro do Departamento de Artes Dramáticas da UFRGS, onde começastes tua carreira, teve de ser interditado por más condições. A Universidade dispõe de dois teatros, ambos fechados. Para ti, esse é um sintoma do descaso com as Artes por parte das grandes Instituições? Como analisas essa situação do DAD?

Encenação de “A Serpente”, de Nelson Rodrigues (Crédito: Claudio Etges)

Decio Antunes – É uma situação vergonhosa, para se dizer o mínimo. Sendo a UFRGS considerada uma das principais universidades do país esta situação do Departamento de Artes Dramáticas é inadmissível e merece atenção e reflexão. Principalmente porque é um espaço que contém história riquíssima da criação cênica gaúcha, e brasileira em extensão. Dele saiu nomes expressivos desde sua fundação. Inclusive à pequena e memorável sala de espetáculos do DAD foi dado o nome de Alziro Azevedo, que foi um dos maiores cenógrafos gaúchos, foi professor, e com quem tive a honra de conviver quando criou cenários para espetáculos que dirigi, entre os quais O Pulo do Gato, uma das principais obras dramatúrgicas do Carlos Carvalho, que também ali estudou e foi professor. E temos que lembrar o filósofo Gerd Bornheim. Foi nome fundamental nessa escola, intelectual com expressão nacional e internacional. Há pouco tempo houve pintura das paredes na face do prédio para o lado da Salgado Filho. Quando vi, considerei que iriam finalmente iniciar reformas que são reclamadas há décadas. Contudo, fiquei sabendo que nada mais aconteceu e que hoje o prédio está interditado.  Respeito é o que se tem que ter com esse espaço que pulsa, vivo na História da cidade e que, a cada ano, recebe produções de novos alunos de quem possivelmente iremos falar nas próximas décadas. Assim como os poucos que citei de passagem, eles integrarão lista interminável não só de nomes, mas de obras criadas.  O que espanta, causa perplexidade, é que a URFGS fez uma grande campanha pública para a reforma e restauro de diversos prédios e que tenha desconsiderado nesse projeto exatamente as Faculdades dedicadas à criação artística. Se no âmbito da Universidade isso acontece, o que esperar do resto da sociedade?

* Estudante de Jornalismo da UFRGS e integrante do Jornal Tabaré

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