O quadro "São Jerônimo que escreve" (1605-1606) está exposto em Belo Horizonte (Crédito: Reprodução)

Parte do trabalho do pintor italiano Michelangelo Merisi, o Caravaggio (1571-1610), pode ser apreciada em solo brasileiro. A mostra “Caravaggio e seus seguidores”, que está em cartaz na Casa Fiat de Cultura de Belo Horizonte desde 22 de maio, tem atraído milhares de visitantes – e não só aqueles que podem ver as obras.

Entre as ações do espaço cultural que contemplam este evento está a audiodescrição, que permite que deficientes visuais assimilem o conjunto de quadros em seu conteúdo e elaboração. Ouvindo, cegos podem experienciar o trabalho do artista, inserindo-se também neste meio das artes, que é tradicionalmente visual.

Este tipo de ação inclusiva já acontece há algum tempo em diferentes espaços de exposição do Brasil e do mundo (saiba mais através da matéria “Para todo mundo ver”, sobre a audiodescrição). A descrição das imagens é feita, no caso, através de um aparelho reprodutor de MP3.

“No centro do quadro está a figura de um ancião sentado a uma mesa. Ele tem o corpo voltado ligeiramente para a esquerda da tela, de onde parece vir a maior parte da luz desta representação”, explica a voz feminina gravada referindo-se ao famoso quadro “São Jerônimo que escreve”, por exemplo, permitindo que se imagine a cena.

É completamente compreensível que não permitam o toque das telas devido às regras de segurança e preservação, ao contrário do que acontece em algumas exposições. A experiência do tato é muito rica, e na própria Casa Fiat de Cultura é permitida em outra mostra – a de Giorgio DeChirico, que no ano passado esteve em cartaz no Museu Iberê Camargo de Porto Alegre. Nela, os deficientes visuais podem sentir através das mãos as esculturas do artista, tendo uma compreensão certamente mais ampla de seu estilo (compreensão esta que seria interessante também para os que enxergam, se pudessem tocar nas obras).

Caravaggio é um dos maiores nomes da pintura italiana, e inovou em sua época ao representar as figuras humanas a partir de modelos do povo, mostrando também imperfeições. As figuras iluminadas que emergem do escuro carregam uma dramaticidade bastante peculiar. Muitos atrelam a escolha por temas mórbidos e representações sombrias à sua personalidade. Sabe-se que era um homem de caráter turbulento, tendo se envolvido inclusive em um crime que o obrigou em 1906 a fugir de Roma, cidade em que desenvolveu a maior parte de seu trabalho artístico, e nunca mais voltar: ele matou um homem em um duelo decorrente de dívidas.

A mostra “Caravaggio e seus seguidores” conta com 6 quadros do pintor e 14 quadros de contemporâneos a ele que seguiram o seu estilo, e pode ser vista até o dia 22 de julho. Depois, ela segue para o Museu de Arte de São Paulo, onde fica em cartaz a partir do dia 1º de agosto. Uma oportunidade e tanto para imergir no mundo de sombras deste artista que ficou eternizado também por iluminar a realidade, através de sua detalhada representação.

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O nome de Caravaggio voltou à tona nessa semana por causa da descoberta de 100 obras inéditas de sua autoria, em Milão. Pesquisadores identificaram o traço do artista em desenhos depois de exaustivas buscas, que resultaram na recuperação de um conjunto de peças estimadas em 700 milhões de euros. Uma notícia e tanto para os amantes da história da arte, que traz à luz um pedaço importante da trajetória deste artista apaixonado pela escuridão. Veja as imagens de alguns dos trabalhos encontrados clicando aqui.

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