Por Edgar Aristimunho*

Simões Lopes Neto em retrato (Crédito: Arquivo)

Há exatos 100 anos era publicado Contos Gauchescos, reunião de narrativas curtas publicadas em vida pelo gaúcho João Simões Lopes Neto. A data muito nos remete ao costume local, aqui no Sul, de consagrar os bons tempos de nossos primeiros anos de leitor à leitura deste clássico do regionalismo sul-riograndense. E costumamos ficar nisso, esquecendo em algum lugar da estante o precioso tesouro que se encontra escondido ao longo das 19 narrativas curtas ali reunidas. Abrir este livro hoje e repisar os passos da narrativa proposta por Blau Nunes – espécie de parceiro de jornada do escritor – é viajar num tempo e linguagem que já não existem mais, e este é o desafio proposto pela coluna de hoje.

A reunião de histórias intitulada Contos Gauchescos foi lançado originalmente em 1912. Os contos giram em torno do relato de Blau Nunes, velho gaúcho vaqueano de 88 anos que serve como narrador para Simões Lopes Neto. Ao longo das histórias, o estilo de vida do gaúcho vai sendo relatado. Estão lá os costumes da região da Campanha,  tais como a tradição de diversão misturada ao trabalho (Correr eguada), o costume do chimarrão e da boa conversa do gaúcho (O mate do João Cardoso), as histórias trágicas de amor (Os cabelos da china), a prática do contrabando de mercadorias desde o outro lado do rio (Contrabandista), as dívidas e acertos de conta (Deve um queijo), a tragédia moral (Trezentas onças), os grandes conflitos bélicos vividos pelo povo riograndense (Duelo de farrapos e O anjo da vitória), bem como os resquícios de um passado de valentia em nome de um amor (Negro Bonifácio) entre outros temas tão ricos socialmente. Em todos esses contos a preocupação do autor foi retratar o regionalismo sem que com isso ficasse limitado somente ao estritamente regional, de tal modo que o conflito existencial do homem descrito por Simões Lopes Neto é um conflito de natureza universal. Pouco importa onde se passem essas histórias – esta a novidade – teremos sempre um ser humano no limite. Assim, apesar de que o mundo descrito por Simões Lopes Neto ser um mundo em franco processo de desaparecimento pelas circunstância econômicas, advento das novas tecnologias e migração do homem do campo para a cidade, devemos estar atentos para situar a linguagem e os costumes presentes nos contos como pertencentes a um outro tempo, a outro século. Se o espaço econômico-social se modificou, imagine então o que aconteceu com o homem do campo descrito por Blau Nunes: este nem existe mais na sua pureza de procedimentos. Daí que a urgência de Simões Lopes Neto em relatar um tempo certo e determinado, de assentar em palavras os usos e costumes e de fixar a história num instante mágico, único. E eis aqui o valor também único de nos sentarmos hoje e dedicarmos boas horas à leitura desse clássico regional, como se estivéssemos sorvendo um mate.

Em 2012, completa-se 100 anos do lançamento da obra (Crédito: Arquivo)

Mas o homem dos Contos gauchescos, esse homem descrito por João Simões Lopes Neto e inserido na história política riograndense (p.ex., a Guerra dos Farrapos), esse mesmo homem social também está inserido no meio social em que se movimenta, ele se transforma e é este mundo em transformação de que trata o livro. Daí que as narrativas dos Contos gauchescos têm o tom da memória de um velho gaúcho, Blau Nunes, como se ele estivesse sempre falando a um intelocutor. E apesar de a obra de Simões Lopes Neto já ter sido suficientemente estudada por inúmeros letrados, é sempre bom lembrar que apesar de seu caráter regional, a obra aprofunda a condição humana a partir de situações-limites vividas pelos personagens. Encontrar este aspecto único e até certo ponto abordado pelos estudos é tarefa possível – eis aí o prazer de redescobrir esse clássico. Mas a “tarefa” pode se revelar ainda mais prazerosa se mergulharmos atentos na leitura e na sutileza desses relatos que circunscrevem e delimitam o mundo gaudério do homem da Campanha. A tal ponto que podemos colocar os Contos Gauchescos de Simões Lopes Neto lado a lado a textos importantes da literatura universal, tais como Dom Segundo Sombra, do argentino Ricardo Güiraldes (na aproximação do temática em torno do modo de vida do gaúcho simples) e mui posteriormente, anos depois, ao monumento narrativo chamado Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, este tanto pela universalidade do regional como na implosão da situação limite vivido pelo personagem narrador. Isto. O valor de reler Contos gauchescos está na centralidade desta obra ao abordar a condição humana de forma tão dramática e densa como o desfecho de um dos contos mais comoventes do livro (Contrabandista).

A viagem centenária de Blau Nunes está finda, a obra de João Simões Lopes Neto suficientemente estudada, e ainda que para muitos leitores pode ser perda de tempo debruçar-se novamente nos textos de Contos Gauchescos, é possível também dizer que essa viagem pode ser feita inúmeras vezes. ela não se repete. Afinal, se um rio nunca é o mesmo porque suas águas se movem, também a forma de lermos as letras e a musicalidade de Simões Lopes Neto se modifica, mas não se adelgaça. Por seu caráter universal ao abordar a condição humana, a obra de Simões Lopes Neto continua atual e está aí a nos desafiar, como um jogo de osso, como uma dança rumo ao passado.

*É escritor e revisor, com pós-graduação lato senso em Letras pela UniRitter. Tem publicado pela editoria Dom Quixote o livro de contos O Homem perplexo (2008) e participou da antologia Ponto de Partilha”. Escreve no blog O Íncubo (http://oincubo.blogspot.com)

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