Por Riccardo Facchini
Fotos Michel Cortez

Tulipa Ruiz trouxe seu pop florestal para o Opinião

Quando Tulipa Ruiz entoou as primeiras notas de ‘É’, no Opinião, na quarta-feira, 19,  parecia que era seu disco tocando em playback. O domínio que a santista tem da sua voz é impressionante. A precisão com que alcança notas difíceis e passeia por diferentes técnicas e estilos evidencia uma cantora em ascensão com potencial para ser um dos grandes nomes da música brasileira.

Ela veio a Porto Alegre apresentar a turnê do seu elogiado e mais maduro segundo disco, Tudo Tanto, vencedor do Prêmio Multishow de melhor álbum. Sendo calorosamente recebida por um bom público, cantou com vigor todas as canções do novo registro e ainda algumas do primeiro, Efêmera, de 2010.

Depois de abrir com ‘É’, Tulipa, bem comportada, cantou ‘Ok’ e ‘Script’. Na sequência, quando foi de ‘Só Sei Dançar com Você’, ela começou a ser um tanto mais teatral, enrolando o cabo do microfone na cabeça e explorando o palco. A apresentação seguiu com ‘Pedrinho’ e voltou ao mais recente álbum com ‘Expectativa’, a rockeira ‘Like This’ e ‘Quando Eu Achar’. Sobre esta, a simpática cantora fez um comentário sobre o coro do final, dizendo ser uma espécie de “fado fake”, pedindo “consultoria” para um amigo português quando estava gravando.

O show continuou com ‘Do Amor’ e ‘Desinibida’, a qual foi chamada de “música carioca” –a música tem um quê de bossa nova–; o interessante nela é que Tulipa por momentos cantou como uma cantora lírica, solfejando com os violinos. Aí reside uma de suas maiores qualidades: ela vai do pop até amostras de erudito, passando por algo de psicodélico e experimental sem se perder, encaixando com competência tudo isso em seu autointitulado pop florestal. Em alguns momentos pode-se até ouvir ecos do trabalho dos Mutantes em suas canções. Além disso, ela articula com particular capacidade  alcances diferentes, indo de falsetes e agudos abertos mais gritados até tonalidades graves, apesar das poucas vezes em que estas são usadas.

A cantora venceu o Prêmio Multishow de Melhor Disco, por “Tudo Tanto”

Ainda no comentário depois de cantar ‘Desinibida’, falou sobre o Prêmio Multishow, dizendo que comemorou dando voltas olímpicas no quarto do hotel e chamando histericamente seu irmão, Gustavo Ruiz, que é guitarrista da banda, produtor do disco e ainda dividiu as tarefas de composição com a irmã. Depois, seguiu o show com a excelente ‘Dois Cafés’, que no álbum conta com a participação de Lulu Santos fazendo voz e guitarra slide.

A banda que acompanhou a cantora mostrou estar no nível exigido, com destaque para as participações dos guitarristas Gustavo Ruiz e Luiz Chagas, pai dos dois e ex-guitarrista da banda de Itamar Assumpção, e do baixista Márcio Arantes. Vale destaque especial para a corajosa decisão de ter um trio de cordas –formado por dois violinos e um violoncelo– no show, em vez de um fácil e prático teclado. Ainda chamou a atenção o figurino da banda, toda de camisetas de diferentes cores, em contraste com o preto uniforme da cantora e do humilde cenário, formado por projeções sobre alguns tecidos também pretos.

Ao término de ‘Bom’, um dos pontos fracos do show apareceu: uma lista quilométrica de agradecimentos desnecessários. Fazer um afago aos patrocinadores é suportável, mas agradecer aos técnicos de som, luz e o diabo a quatro já é exagero. É claro que a intenção é boa, mas dizer nomes que não dizem respeito a ninguém e que serão esquecidos dali a três segundos não acrescenta nada. Pareceu coisa de festival de garagem.

Apesar disso, ela ainda tinha ótimas cartas na manga. Depois de ‘Cada Voz’ todos saíram do palco e voltaram em seguida para finalizar o show. A primeira do bis foi a ótima e blueseira ‘Víbora’, que Tulipa cantou quase toda de joelhos. Depois vieram ‘A Ordem das Árvores’ e ‘Efêmera’. Nos acréscimos, ainda deu tempo de Tulipa cantar novamente ‘É’, marcando um gol contra: cantar mais de uma vez a mesma música é coisa para Michel Teló e semelhantes sem repertório, o que definitivamente não é o caso dela. Ainda assim, a cantora venceu o jogo com bela atuação e placar dilatado a seu favor, garantindo a alegria da torcida. Tulipa vai, cada vez mais, de vento em popa.

Tulipa veio mostrar a turnê do novo disco, tocando-o na íntegra


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Um comentário sobre “De vento em popa”

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